Reflexão rápida sobre o caso do menino vestido de Abu

O caso da foto do menino vestido de Abu (o macaquinho amigo do Aladdin) junto à sua família parece ter trazido algumas coisas à tona sobre a forma como lidamos com o preconceito racial por aqui:

Primeiro, que é possível habitar um mundo pessoal sem preconceito contra negros. Os pais do garoto parecem fazer isso. O que para muitos é um menino negro, para eles é um filho. É por isso que sua atitude de tirar aquelas fotos parece ter sido espontânea e sem preocupações. Tal como um pai que toma banho com o filho ainda criança, mesmo sabendo que há uma infinidade de casos de agressão e assédio entre pais e filhos, aquilo está tão distante do seu mundo pessoal que uma interpretação de sua atitude como configurando um destes casos sequer lhe ocorre como possível ou plausível. Não é à toa que, de fora, atitudes como estas nos soam “ingênuas”.*

Segundo, que muitas vezes a militância contra o preconceito racial e o público em geral comete exageros por não enxergar a possibilidade de pessoas que habitam um mundo pessoal como o que os pais do garoto parecem habitar. Lhes soa absurda, inconcebível ou largamente improvável qualquer razão para agir desta forma que não uma envolvendo alguma forma de racismo. É verdade que as estatísticas estão a favor dos militantes, visto que não poucas vezes casos análogos à este contém sim elementos racistas. É também compreensível que estas fotos sejam ofensivas a muitos pelo que podem representar, e nisto sou solidário à revolta dos militantes e de todos os que simpatizam com a luta contra o racismo. Mas acusar os pais do garoto de racismo é um salto inferencial que não se sustenta por nenhum destes itens.

Apesar disto, não faz sentido afirmar que o racismo está apenas naqueles que “enxergam racismo em tudo”. Poderíamos sim estar diante de um caso de racismo. A foto permite esta interpretação e é possível supor várias circunstâncias plausíveis em que esta interpretação seria a mais adequada. O que a tornou menos plausível não são elementos presentes na foto, mas sim elementos externos que compõem as circunstâncias do caso, como o fato de os adultos na foto serem os pais do menino, bem como a postura que adotaram diante do caso. E tais elementos se desvelaram aos poucos, conforme o caso ganhava repercussão. Mas vejo uma diferença importante no que motivou tanto as acusações quanto as sistemáticas negações de racismo que foram vistas neste caso (embora tenham em comum juízos apressados que acabam se mostrando equivocados): não acredito que interesse a muitos “enxergar racismo em tudo”, mas com certeza interessa a muitos que nunca se enxergue racismo em nada.

Terceiro, que o racismo ainda está presente com muita força, e que a maioria das pessoas mantém os seus preconceitos cuidadosamente guardados, aproveitando-se de ocasiões como esta para expressá-lo e qualificando qualquer um que os denuncie como sendo um “chorão”, um vitimista ou acusando-o de fazer “mimimi”. Ao mesmo tempo, negam seu racismo porque ele não se enquadra em casos mais graves como aqueles que envolvem violência e ofensas de um indivíduo para outro. Mas o racismo não se manifesta apenas desta forma.

No Facebook, não foram poucos os casos que observei onde a foto se transformou em piada em virtude de um menino negro ter sido colocado no papel de um macaco, ou em virtude de a foto permitir esta interpretação. Se, como vi muitos afirmarem, o preconceito está apenas nos olhos de quem vê, então ele é componente essencial para que se possa rir de algo naquela foto. Aquele que observa a foto, se legitimamente partilhar da perspectiva dos pais do garoto, não perceberá nada além de um momento feliz e não verá ali nenhum elemento de humor. Evidentemente, foram poucos os que se deram conta disto. A maioria dentre os que se permitem uma risada demonstram nervosismo quando questionados do que exatamente estavam rindo, pois esta é uma pergunta que desnuda os elementos que não estão na foto, mas neles mesmos. Uma pergunta que mesmo os pais do garoto, utilizados por muitos como escudo, poderiam lhe fazer.

Um caso particular que observei na Internet foi o de um site que, ao compartilhar a foto, fez um comentário semelhante à “Vocês aguentam uma piada sem ficar de mimimi”? Diante das reações, o post foi apagado e os apelos de alguns para que eles explicassem em que exatamente consistia a tal “piada” ainda não teve resposta, e provavelmente nunca terá.


*Sim, esta é uma interpretação bastante “caridosa” da atitude dos pais, e posso estar enganado, mas considero-a plausível e não vejo razão para presumir que estivessem, de alguma forma, buscando fazer algum tipo de piada de mau gosto às custas da inocência do próprio filho. Evidentemente, acredito que esse mundo sem preconceito racial é o mundo de uma ínfima minoria numérica.

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