#Ninguém volta igual: Fazendo as pazes com São Paulo
Ou: como salvar seu relacionamento com uma metrópole através do “olhar de um turista”
Ela sempre cultivou sentimentos por cidades ou lugares e com São Paulo, cidade natal, não poderia ser diferente. Sampa, como costumava chamar carinhosamente durante bons anos de sua vida, foi seu primeiro amor em matéria de “lugares”.
Amava morar na metrópole em que tudo funcionava 24 horas por dia (mesmo sem aproveitar pelo menos um quarto destes serviços).
Sentia orgulho quando as novelas passavam cenas de prédios, túneis, luzes, o vai e vem apressado e sem educação das pessoas e o trânsito (que na tela, parecia cinematográfico).
Era só passar alguns dias de férias no interior que já sentia abstinência da “poluição do ar”.
A situação começou a mudar quando percebeu que viver em São Paulo era mais difícil do que apenas descer a rua de casa para chegar até a escola. O colégio acabou e precisou sair do conforto de um bairro pequeno, com quase nenhuma característica de metrópole. O transporte público, antes motivo de “diversão”, passou a ser um pesadelo diário.
Quando mais nova, como qualquer criança que anda de metrô somente aos finais de semana, achava — no mínimo — um passeio pitoresco. Mas quando isso virou obrigação, virou, também, um verdadeiro filme de terror.
Depois de ganhar o primeiro carro, pensou que todos os problemas tivessem acabado. Doce ilusão.
Foram mais cinco anos de muito trânsito, aproximadamente 1.825 dias fazendo cálculos do tempo em que passava dentro do carro e pensando nos lugares onde poderia chegar se não fosse este “tempo perdido”. A praia, por exemplo.
“Sampa”, de repente, passou a ser chamada de São Paulo, de um jeito seco e direto.
A menina que jurava jamais sair da cidade e a defendia com unhas e dentes, de repente, passou a denegri-la em qualquer mesa de bar, em bancos de taxi, para qualquer pessoa.
As férias não podiam ser planejadas sem a certeza de não passar um dia sequer dentro de São Paulo.
Da última vez em que saiu da cidade, o voo de volta pousou às duas horas da tarde de um domingo, tempo suficiente para colocar o sono em dia e acordar na manhã seguinte pronta para voltar a rotina de lamúrias.
Mas essa segunda seria diferente:
Ela resolveu voltar a pegar o metrô.
Saiu um pouco mais tarde para fugir do horário de maior tráfego e foi surpreendida pelas mudanças que tinham acontecido: Mais linhas, mais trens, ar-condicionado.
Enquanto esperava um vagão mais vazio, avistou dois amigos com mochilas nas costas, apontando mapas e discutindo alguma coisa.
Sentiu uma pontinha de inveja deles, já com saudade da sua mochila de férias. Eles pareciam estar encantados, rindo e fazendo vídeos de cada detalhe.
Imaginava de onde os amigos deveriam ser… Lembrou de quando esteve no metro de Cingapura: Risadas com a parceira de viagem, câmera no pescoço, mochila nas costas, andavam na contra-mão e atrapalhavam os moradores de lá que passavam apressados e olhando para o chão.
Lembrou, também, do trânsito de São Francisco, que a permitiu olhar cada detalhe da cidade, quanto mais devagar o carro caminhava, melhor saiam suas fotos clicadas pela janela do carro das típicas. Enquanto isso, o motorista esbravejava e buzinava. Ela não entendia o motivo de tamanha irritação.
Perdeu mais um vagão e viu os amigos do mochilão entrarem na "lata de sardinha" eufóricos. Pensou que talvez eles também tivessem com uma pontinha de inveja dela.
Atire a primeira pedra quem — durante uma viagem — nunca pensou “deve ser o máximo morar nessa cidade”.
A grama do vizinho tende a ser mais verde, principalmente, quando estamos viajando.
A ficha caiu e ela entrou no vagão decidida a dar uma segunda chance para Sampa. (Opa! Já estava até a chamando pelo apelido, novamente).
Estava realmente disposta e de coração aberto para resolver a relação.
Depois de encontrar um espaço para se pendurar por mais cinco estações, abriu uma revista e se deparou com uma frase que dizia: “os problemas nunca estão no outro e sim dentro de nós próprios”.
Com este insight, decidiu que para voltar a amar essa cidade, teria de mudar a si mesma. E depois de uma autoanálise, decidiu deixar o carro na garagem por um tempo.
Não foi meditando ou na sala da psicologa que percebeu essa necessidade. A percepção veio à tona com a nova ferramenta do Facebook, aquela que joga na nossa cara — todos os dias — o que postamos nos anos anteriores.
Foi analisando essas recordações faceboqueanas que se viu sendo uma pessoa bem chata (para não dizer insuportável). Aquela que repetiu o mesmo discurso de 2011 a 2015:
Piadinha sobre o trânsito, música sobre o trânsito, reclamação do trânsito, reportagem sobre o trânsito, choro por conta do trânsito.
Seria ela a famosa “senhora-reclamação” que repete padrões e não faz nada para mudar?! Logo ela que sempre compartilhou frases de incentivo e coaches de renome? “Você é quem cria sua realidade”, pregava com seus compartilhamentos, alternando com os textos sobre insatisfação com o transporte, claro.
É óbvio que os problemas de locomoção não eram as únicas coisas que a afligiam, mas suas andanças pela terra da garoa ajudaram a criar uma realidade mais bonita para a cidade.
Trocou o sapato com salto pelo tênis, a bolsa pela mochila e preparou playlists com músicas ecléticas para dar o tom dessa nova fase.
Sempre achou que trilha sonora é o que faz a diferença para um filme a tocar ou não.
E como sempre enxergou a vida como um roteiro de cinema, precisou criar uma sonoridade à altura para a nova sequencia de cenas que seriam gravadas. As músicas estavam dando um tom especial para sua nova-velha rotina.
Entre os passos que se ritmavam hora com melodia clássica, hora com guitarras elétricas, e muitas letras da nova geração da MPB (como intitulou uma das listas), percebeu que SP* é uma danadinha e faz de tudo para provocar reflexões em quem presta atenção nela.
São centenas de frases espalhadas por aí:
“Nós que passamos apressados
Pelas ruas da cidade
Merecemos ler as letras
E as palavras de gentileza”
Marisa Monte apareceu no seu fone de ouvido e logo pensou: ela deve andar por aqui também.
Os cartazes estão espalhados pelos postes, muros e até pelo asfalto da cidade. Ótima sacada, já que paulista tem mania de andar olhando para o chão. (Mas é bom deixar claro, que não é culpa deles. A culpa é das calçadas esburacadas. Vamos ser justos!).
“Já viveu um amor impossível?”
“Seja você”
“Tudo tem um FIM?”

Foi bombardeada por poesia, frases de incentivo e arte. Mas nem só de poema, gentileza e delicadeza vivem os asfaltos de São Paulo.
Levou alguns murros na cara com as verdades e questionamentos estampados com cores vibrantes no meio do cinza.
Quantos “e se”você carrega no peito?
Esse foi um dos “tapas na cara” que levou pelos grafites paulistas.
Já estava quase na esquina do trabalho e se deparou com essa pergunta gritando no canteiro de flores da Av. Paulista com a R. Ministro de Azevedo.
Não foi na esquina da Ipiranga com a São João, mas ela foi pega pela dura poesia concreta das esquinas de São Paulo. É… Caetano sempre soube decifrar suas angústias.
Já estava desviando o caminho para fingir que não leu a pergunta. Mas uma vozinha martelava em sua cabeça. Era como ouvir o narrador do filme “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”, pedindo para que ela sentasse e refletisse sobre o assunto.
“Então, minha querida Amélie, você não tem ossos de vidro. Pode suportar os baques da vida. — Senta aí e comece a fazer a lista das coisas que arranja desculpa para não realizar e vê se as coloca em prática!"
Decidiu escutá-lo.
Sentada no canteiro com seu bloquinho de anotações refletiu sobre os “E SE'’s” que carregava no peito. Escreveria páginas e páginas sobre eles, mas um deles fazia mais sentido com a fase de mudanças que estava procurando.
Percebeu que dentro da lista das coisas que faria se tivesse outra condição, esse era um que poderia colocar em prática e finalmente tirá-lo da listinha negra.
“Se eu morasse no Rio de Janeiro, correria todos os dias de manhã na orla”,cansava de se lamentar para os amigos, que a respondiam com um “aham, tá bom” e que certamente pensavam “desculpinha esfarrapada essa”.
É claro que preferiria correr vendo e escutando o mar, mas quem não tem orla, se vira com a esteira e com um fone de ouvido! Esse virou seu novo lema.
Enquanto fazia sua corrida matinal, se pegou pensando em todas as mudanças que havia feito, meio que por instinto, para fazer as pazes com a cidade.
Voltou a apreciar o sol.
Todo dia depois do almoço parava por cinco minutos em um banco do parque na esquina do trabalho. Fechava os olhos, recebia a luz solar e conseguia relaxar mesmo com os sons de buzinas e sirenes de ambulância.
Pensava que isso só funcionava com ela, mas um dia, enquanto voltava para o escritório se deparou com uma equipe de pedreiros em hora de descanso, sentados enfileirados em uma fresta de sol na calçada.
Todos com semblante calmo e contemplativos, praticamente yogues. “Isso aqui deve ter uma explicação cientifica, não é possível!" Pensou.
Voltou a sentir o sol, as pessoas, a programação cultural, os milhares de cursos com temáticas para todos os gostos…
Para voltar a amar SP* teve que escolher sair de casa de cabelo molhado, do contrário não conseguiria apreciar tudo que a cidade poderia oferecer, todos os cursos e palestras que queria assistir.
Precisava priorizar o tempo e secar seu cabelo levava — no mínimo — 50 minutos (mesmo tempo que durava a maioria dos seus trajetos).
Passou a usar uma touca nos dias de frio. Desencanou da ideia de que o gorro de lã, além de velho, a deixava com bochechas ainda maiores. Embora fosse verdade, ele a protegia e dava mais conforto para apreciar as cenas cotidianas.
Ela que pensava precisar aceitar São Paulo como era, na verdade, acabou tendo de se aceitar. Com o cabelo secando ao vento ou com uma touca com fiapos de velhice na cabeça, nua e crua.
Percebeu que o problema não era exatamente São Paulo. O problema era a pessoa que costumava ser estando na cidade. Ela preferia ser aquela pessoa de férias em alguma ilha paradisíaca, Maceió, Bali ou em qualquer cidadezinha do interior.
Percebeu que todos esses lugares, por mais distintos que fossem, tinham uma coisa em comum: Chinelo nos pés, rosto lavado e um “BOM DIA” pronunciado com letras garrafais, acompanhado de um sorriso no rosto.
Diante desta sacada, fez a mudança mais significante de todas. Passou a enxergar a cidade com os olhos de um turista. Trocou o "bom dia" borocoxô e automático por "bom-dias" dignos de quem acorda em uma cabana de frente para o mar.
Embora não fosse possível estar de havaianas todos os dias, se esforçou para sempre enquadrar as cenas da cidade em quadros retratados por viajantes apaixonados que enxergavam a grama de Sampa verdinha e cheia de flores.
Percebeu que os dias chuvosos — que são caóticos para os residentes de São Paulo — proporcionam cenas dignas de legendas clichês para os turistas que a cidade recebia. "Bom dia, diretamente da terra da garoa", postariam eles.
Se tudo depende do ponto de vista, ela preferiu enxergar pela perspectiva de quem quer celebrar o lado bom da cidade. Colocou músicas sobre SP no seu repertório e encontrou São Paulo até em letra que nem era pra ela…
“Ela é uma letra do Caetano com flow do Racionais. Hoje pode até chover que ela só quer paz." — Projota, confundido/inspirando a cabeça dos turistas apaixonados.
- SP: éssepê — sigla utilizada por quem tem carinho por São Paulo, ou não.
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