A psicologia do Flat

e a pseudo-morte do Skeumorfismo


Texto Revisado. Embora este assunto já esteja deveras desgastado, tenho em minha defesa de que o presente artigo foi originalmente publicado no blog Kolaborativa no mês de Junho, na época da polêmica sobre o iOS 7. É um texto opinativo, dividido em duas partes, com minhas teorias e percepções que espero fazer algum sentido.

A pseudo-morte o Skeumorfismo

O Skeumorfismo, que usa metáforas para associarmos elementos digitais ao mundo analógico, bem como imita texturas e dimensões dos objetos reais, serviu de suporte para entendermos uma interface com uma curva menor de aprendizado. Essa foi a grande sacada do desktop em sua origem. O ícone de disquete salva o arquivo, o ícone de lixeira tem aquilo que você não usa mais, o ícone das pastas organiza seus “arquivos”, etc. Só que essas coisas não funcionarão mais em uma ou duas gerações… ou melhor… serão obsoletas.

Para quem não está familiarizado com o termo, o Skeumorfismo é um ornamento físico, desenho ou técnica sobre um objeto feito para se parecer com um outro material ou técnica. (Revista Clichê)

Ok, o subtítulo “A morte o Skeumorfismo” soa apocalíptico. Conceitos nunca morrem, se reciclam, e pretendo abordar isso mais a fundo na segunda parte desse texto. Não sou adepto da ideia de que “as novas gerações nunca viram um disquete, logo o ícone de salvar não faz mais sentido”. Essa afirmação é precipitada. Todos sabem, e saberão por muito tempo, o que é um disquete, assim como sabemos o que é um pincel bico-de-pena quando vemos um ícone usando essa metáfora em um editor de imagens, ou o que é um papiro, quando editores de texto usam como ícone. Quem lembra nas antigas versões do Photoshop, que usava como ícone uma pena? Todos entendemos o motivo, embora nunca tenhamos usado penas para desenhar. São coisas que nem existem mais, mas fazem parte do imaginário polular, e são signos amplamente usados como articulação simbólica. O mesmo acontece com ícones de disquetes e afins, fazem parte de todo um contexto global e cultural.

O que afirmo é que o Skeumorfismo está se tornando desnecessário, ou prolixo, redundante, enfadonho. Entendemos o digital. E ele precisa se libertar dos limites do analógico. Não podemos mais nos limitar às metáforas do mundo real. O digital pode ir além, ganhar conceitos “impossíveis”, atender a necessidades que nem sabemos existirem. Em um mundo onde Google Glass já é uma realidade, o Skeumorfismo pode reduzir a imaginação e a tecnologia. Criar novos conceitos visuais, sem referências do mundo real, para expandir as possibilidades de referências, pode ser o novo desafio no design digital nas próximas décadas, e até se aproximar da criação de um novo universo.

Exemplos de conceitos surgidos dentro do ambiente digital e soluções gráficas que não correspondem ao mundo analógico, no qual não fazem sentido:

Load, Share, Maximize, Minimize e Download

Vale lembrar que a partir dessas definições, não se pode encarar o flat como a antítese do Skeumorfismo, mas como uma abordagem diferente. Esses ícones representam conceitos abstratos e possuem formas inexistentes no mundo físico, mas alguns deles foram desenhados com efeitos volume e textura, simulando objetos físicos. É um skeumorfismo, não na concepção iconográfica, mas na abordagem visual.

Assim, podemos também concluir que o “anti-Skeumorfismo” não é uma necessidade apenas da web, mas no design gráfico impresso do sec. XX já existia uma demanda por uma iconografia para representar graficamente conceitos abstratos. Exemplo:

A Piscologia do Flat

Em uma das discussões sobre flat no grupo da Kolaborativa no Google Plus, comentei que por trás do design flat existe uma psicologia que nos dá a ideia de leveza. Isso seria ausência de sombras e texturas, ou a presença estratégica e muito suave de um degradê simulando pouquíssimo volume. Por que haveria sombras em um objeto digital, afinal de contas? Existe luz e massa dentro do digital? Por que a necessidade de imitar a realidade, como se as pressoas precisassem disso, ao invés de oferecer a elas uma experiencia nova quanto a realidade?

Enquanto o Skeumorfismo nos remete a objetos reais, com volume, peso, textura e massa, dando a impressão de que são objetos com robustez, solidez, pesados, o flat nos lembra folhas de papel, linhas de costura, post-its colados em uma parede branca e completamente lisa. Leve. Mais leve que o celular que você segura. Essa é a ideia. Você está no ônibus ou na fila do banco, segurando o sistema que, dependendo do design, pode ser, psicologicamente, uma máquina de aço ou uma folha de papel. Além disso, quanto menos informação visual, menos tonalidades de cores e mais abstrações, mais rapidamente captamos a ideia essencial da interface: intermédio.

E você, gosta do design flat? Por que?

Email me when Pensando o Design publishes stories