Faxina na sua timeline. Ou: o elevador de serviço digital.

Ontem — com a autorização do processo de impeachment de Dilma — foi um dia importante na política brasileira. Como era de se esperar, vieram manifestações de todos os lados: prós, contras, festivas, odiosas, pacíficas, guerrilheiras.

E muito muro. Muito silêncio.

Sim: muita gente deixou sua opinião para o círculo reservado. Em meio a um tiroteio verborrágico, preferiram se esconder no bunker — e espiar pela janelinha.

Eu fui um deles. E fui um deles porque me sinto censurado nesses dias tão cheios de verdades e tão fechados ao diálogo.

Atitudes que julgo pouco construtivas, como a tal "faxina de timeline".

Funciona assim:

Se aparecer no seu feed um comentário contrário a sua ideologia política, é unfollow/unfriend/block.

Ou:

"No meu elevador, o social, só entram os meus. No de serviço, entram os diferentes de mim. Os que valem menos. Os que não devem ser ouvidos."

Há algum tempo, lembro que houve uma campanha massiva para que as pessoas fossem até a página do Deputado Jair Bolsonaro. A ideia era ver quais amigos tinham dado like. E lhes condenar com o unfollow.

Não sou adepto das ideias do Bolsonaro. Mas nunca vou deixar de ouvir aqueles que o defendem. Primeiro, porque não posso pré julgá-las. Segundo porque, quando eu fizer isso, estarei dando o direito que eles também não me ouçam.

E aí temos um Apartheid de ideias.
O Apartheid de ideias é justamente o contrário do que Steven Johnson, uma das maiores autoridades do mundo, recomenda: "ideas have to have sex".

O que mais me comove nessa história toda é a dificuldade que temos de aceitar a possibilidade de estarmos errados. A resistência que temos de mudar de opinião.

Quando partimos do pressuposto que o diferente está, de antemão, equivocado, o jogamos para o elevador de serviço.

E aí, como bem diz a Prof. Karin Nahon, de Go Viral: "a homofilia e a polarização são consequências inevitáveis".

Quase todo mundo que conheço se considera "moderado" e "de bom senso", quando o assunto é política.

Somos o centro: todos os demais se pintam de extrema esquerda e extrema direita.

Somos a linha do Equador.

Nunca os Trópicos. Nunca o Círculo Polar Antártico.

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Quem dá unfollow em quem pensa diferente sempre será a média de uma bolha. Pequena como uma bolha de sabão.

E prestes a estourar.

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Eu já fui contra as cotas raciais, e hoje sou a favor. Bem a favor.

Só mudei de opinião porque dei espaço para quem discordava de mim.

Talvez amanhã eu volte a ser contra, e depois volte a ser a favor de novo. Continuo ouvindo e respeitando quem as defende e quem as defenestra.

Não há nada de errado com isso.

Sempre digo que mudar de opinião é uma grandeza, não uma fraqueza. Se mudamos é porque estamos tentando evoluir.

E esse ato, por si só, deve ser sempre entendido como nobre e louvável.

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Ou não.
Talvez essa seja só mais uma verdade que não abre espaço à discórdia.

Talvez eu esteja completamente errado.

Mas aí, é simples.
É só me dar unfollow.

Tiago.