O que o Japão meu ensinou em 20 dias

Acabei de voltar de uma das viagens mais transformadoras de toda a minha vida.

Viajar faz parte da minha história desde pequeno. Quando tinha 4 anos meu pai ganhou uma bolsa para um doutorado e fomos morar na França. A partir daí não parei mais. Ao completar 7 anos meus tios, minha irmã, minha mãe, meu pai e eu alugamos um trailer e viajamos por 9 países da Europa. Obviamente, tenho memórias restritas dessa viagem, mas imagino que ali fui picado pelo mosquito da inquietação, da vontade de desbravar novas culturas e conhecer novas pessoas.

Quando voltei para o Brasil, me mudei para uma cidade do interior de Santa Catarina, onde morei dos 8 aos 15. Aos 16 me mudei para minha cidade natal, Porto Alegre, com o objetivo de estudar, morando apenas com a minha irmã.

Quando completei 20 anos, fui atrás do sonho de conhecer a Austrália, mas antes disso, morei um mês em Barcelona e consegui um trainee na França onde morei por 6 meses. Da Austrália, realizei mais um sonho, surfar e morar durante 2 meses na Indonésia (saudades), e ainda viajar durante 2 meses pela Tailândia, Cambodia e Vietnã.

De volta ao Brasil, quando completei 25 anos, me mudei para o Rio de Janeiro, cidade onde moro até hoje (tenho 30 anos).

Ao longo desses 5 anos morando na cidade maravilhosa, tive a oportunidade de visitar alguns países em viagens de trabalho/estudo como: Jamaica (sim, foi trabalho), Dinamarca e Argentina, além de viagens de lazer/turismo: EUA, Uruguai, Alemanha, Holanda, Bahamas, México e 20 dias atrás, JAPÃO! Ou seja, viajar está presente na minha vida.

No Japão, fiz algo que nunca tinha feito na vida, uma caminhada no melhor estilo "peregrino". Uma caminhada meditativa e introspectiva, conhecida como "Caminho de Kumano". Existem apenas duas rotas no mundo que são reconhecidas como patrimônio da humanidade, "O Caminho de Santiago de Compostela" e o "Caminho de Kumano".

Foram mais de 70km caminhando sozinho, na montanha, subindo a 900 metros de altura, durante 4 dias. Algo único e muito especial. Porém isso vai render um post super completo, quem sabe até um livro.

Por enquanto vamos aos aprendizados gerais do Japão:

1- O fuso quebra. Viajar para o Japão é atravessar o mundo. São 24h voando + as horas entre uma conexão e outra. Isso é cansativo, mas o que mata mesmo é o fuso. São 12h de diferença, e para se adaptar, seu corpo vai precisar de um tempo. O meu precisou de praticamente uma semana.

2- Quer HISTÓRIA, então toma. O Japão é um lugar único. O Brasil não estava nem perto dos planos de descobrimento, enquanto lá, na terra dos olhinhos puxados, os caras já estava construindo templos de 5 andares. Sim, a Europa é linda e também recheada de história, mas vejo muito o Japão como sendo um destino obrigatório da nossa geração.

3- O problema do outro é meu problema. Os japoneses são as pessoas mais solícitas que já conheci em toda a minha vida. Isso certamente tem um ligação direta com os princípios do Budismo, que defende com unhas e dentes a COMPAIXÃO. Todos, sem exceção, que tive o prazer de encontrar e/ou "conhecer" me provaram isso. E não estou falando de ajudar as pessoas com coordenadas de como chegar em um determinado lugar, estou falando de parar tudo que estão fazendo para se dedicar a te ajudar. E, se for preciso, mudar seu destino e te levar pessoalmente até o destino que está procurando, mesmo que isso tome 20 minutos e esteja na rota oposta a qual se dirigia. Isso aconteceu comigo não uma, nem duas vezes.

4- Você é responsável pelo lixo que produz. Durante meus 20 dias por lá, não vi nenhuma, eu disse NENHUMA lixeira de rua. Elas praticamente não existem. Ao mesmo tempo, não existe lixo no chão. Ou seja, esteja preparado para carregar o seu lixo até a sua casa/trabalho. Faz sentido né, até por que, se você gera mais lixo do que consegue carregar com você, algo está errado.

5- Viva a vulnerabilidade. Ou você fala e lê japonês ou você vai sentir na pele o que é estar em outro planeta. Dificilmente você terá placas ou avisos em outra língua e os japoneses ainda tem muita dificuldade em falar inglês. Lá pude sentir o poder e o quanto crescemos quando estamos vulneráveis. E a notícia positiva é: sempre se dá um jeito.

6- Você é a sua melhor companhia. Sempre fui um cara que fiz as coisas acompanhado. Viagens, festas, cinema, sempre fiz tudo com algum amigo ou namorada. E dessa vez, deliberadamente, decidi ir sozinho. E foi a melhor decisão que poderia ter tomado. Sozinho você não tem mau-humor (se tiver, vai ser dois trabalhos, ter e deixar de ter), sozinho você muda de planos a qualquer momento e está tudo certo. E o melhor, sozinho você decide se quer estar acompanhado ou não.

7- Dormir no chão ou em cápsulas não é tão ruim quanto parece. Sempre fui fã de colchões mega blaster hiper super tecnológicos e modernos. Molas ensacadas, camada de gel, etc. Porém depois de dormir dois dias no chão(tatame) você percebe o quanto isso pode fazer bem para suas costas.

8- O poder de um sorriso. Quando você está sozinho, não fala a língua, não entende nada, tem uma coisa que salva, que abre portas e que muda a percepção de ambas as partes: sorrir. Lá a linguagem de sinais é muito utilizada e pode te salvar em diversas oportunidades. Sorrir é universal, sorrir é verdade, sorrir é extremamente poderoso.

9- Nada é por acaso. Sim, por mais clichê que isso possa soar, o clichê só virou clichê por que foi repetido tantas vezes que as pessoas "cansaram" de ouvir. Mas, se tantas pessoas repetiram isso, é por que alguma coisa tem aí :) E nessa viagem isso ficou muito claro para mim. Além disso, quando você "aceita" isso, tudo que acontece com você deixa de ser negativo e passa a ser "necessário". É como aquela velha máxima de olhar o copo meio cheio ao invés de olhar meio vazio.

10- A saudade define. Sabe quando você está completamente vulnerável, conectado com você mesmo, aprendendo coisas novas, se descobrindo, enfim, vivendo um sonho? E sabe quando tudo está perfeito e ainda assim algumas pessoas não saem da sua cabeça? Então, aí sim você percebe a importância delas. Aí você percebe o quanto elas são especiais para você. Por isso, a saudade define a certeza