Meu nome é Black, Aurora Black.

É uma sexta-feira à noite e Robert acabou de chegar em casa. Com um cigarro aceso em uma mão e uma lata de cerveja tamanho grande na outra (afinal, é sexta), ele conta sobre uma bicicletada que está ajudando a organizar e como a produção tem tomado seu tempo “livre” (que pouco tem de “livre”, tamanhos são os compromissos acumulados). Pode ser difícil imaginar, para quem vê o garoto de barba por fazer e look moderninho, que essa é a mesma pessoa que diversas vezes se transforma na belíssima Aurora Black, drag queen de look sempre polido e bem montado e que quer quebrar paradigmas não apenas do machismo e do patriarcado, mas também do que é ser drag queen e dos signos que representam o que é considerado feminino na sociedade.

As minhas unhas estão sempre pintadas de preto no dia-a-dia porque eu quero incorporar elementos considerados femininos e trazer uma reflexão. Quero que uma pessoa olhe para mim no metrô com a unha preta e o delineador borrado da noite anterior e pense ‘é um menino? ou uma menina?’; e que isso a faça refletir que, na verdade, esses signos considerados femininos ou masculinos não significam nada. Essa é a minha militância cotidiana: provocar a reflexão.

Robert Tavares é um jovem de 26 anos, estudante de figurino da faculdade de Belas Artes da UFRJ. Nascido no Rio de Janeiro, aos 15 anos se mudou para a baixada fluminense com a família para morar na casa da avó, após o falecimento de seu avô. Numa idade de tentar entender seu papel no mundo e começar a consolidar os pilares de formação de personalidade, foi o novo colégio que abriu portas para explorar a identidade: “Apesar de ser uma criança tímida, foi neste novo ambiente que eu senti uma liberdade maior: meu antigo colégio era mais conservador; já neste novo, com muitas mulheres e homens gays, eu comecei a experimentar mais no vestuário, sem receio de sofrer repressão. (…) Eu me sentia muito acolhido, vi que as pessoas queriam ouvir o que eu tinha a dizer, e foi aí que eu comecei a entender meu poder de comunicação. Me tornei popular no colégio, e nessa época comecei a escrever para um blog de Nova Iguaçu e criei meu blog pessoal.”

(foto: Alessandra Migueis)

Robert morava numa área rural de Nova Iguaçu, pobre e mais isolada. Como se sentia muito solitário em casa, a internet foi seu passaporte para conhecer novas pessoas e outros mundos. Nessa época, conheceu Carine, uma amiga do colégio que também tinha um blog pessoal e o fez se sentir menos só — uma conexão que fortaleceu sua personalidade e o ajudou a explorar este lado mais desenvolto e articulado. Pouco tempo depois, foi chamado para trabalhar no site do UOL cobrindo as semanas de moda — trabalho que o ajudou a desenvolver esse radar mais apurado para a estética e o figurino.

E foi a internet também que lhe trouxe um amor: através do finado Orkut, ele conheceu Victor, um estudante de arquitetura que mora na Lapa. “Pode parecer meio cafona, mas quando o conheci, é como se alguma coisa que estivesse faltando havia se completado, como se agora eu pudesse ser quem eu sou e não devesse mais nada para ninguém, e pudesse investir energia em outras coisas.” Eles estão juntos há seis anos e, após um tempo enfrentando a distância do trem Nova Iguaçu-Rio, hoje moram na mesma rua.

Aniversário e um novo nascimento

“No início do ano decidi me livrar dessas amarras (impostas) que aprisionam e silenciam. No dia do meu aniversário, apresentei a Aurora às pessoas mais próximas. Essa persona nasce da necessidade de quebrar todos esses padrões opressores baseados em normas de gênero. A construção de gênero se dá de maneira pura e não necessariamente TEM que sofrer intervenção externa.

Essa é a minha maneira de fazer política, de lutar pelos meus e pela igualdade. Ser homem ou ser mulher não é definido através de escalas de azul ou rosa, e muito menos pelas roupas que eu uso ou com quem me relaciono, a coisa vai muito além. Nenhum ser humano é unicamente feminino ou masculino. Chega desse machismo que, socialmente, te coloca à margem caso você esteja ‘desencaixado’ a esse binarismo sexual.

Todas as formas de expressão são válidas! Eu ficaria muito feliz em ter pessoas queridas e importantes por perto. O muro do preconceito é derrubado com o contato.”

Foi com essa carta crítica e corajosa (acompanhada da sequência de fotos em que ele está de batom e colocando uma peruca de longos cabelos castanhos) que Robert apresentou Aurora Black a seus amigos de Facebook, há dois anos. Inspirada pelas tardes com o namorado assistindo a maratonas do reality show “Ru Paul’s Drag Race” e batizada com o nome de uma amiga da sua avó; a Aurora veio como forma de expressar sua criatividade através de maquiagens e roupas, usando muito do que aprende nas aulas de figurino e de suas inspirações cotidianas. “Eu estudo imagem e quero colocar em prática o que aprendo nas aulas. Quando eu era criança, eu já desenhava croquis com bonecos e roupas, antes mesmo de saber o que eram croquis. E a Aurora me fez entender que posso ser um instrumento político para performar gênero. Eu queria tocar nos amigos normativos e trazer uma reflexão.”

Foi Sharon Needles, drag queen presente na quarta temporada de “Ru Paul’s” e que trazia uma imagem totalmente diferente das drags “tradicionais” (com uma pegada mais gótica e usando referências mais mórbidas; porém esteticamente sempre muito bem resolvidas e executadas) que abriu sua cabeça para o fato de que existiam infinitas possibilidades de se montar, e não necessariamente apenas a “drag queen rainha do baile”: “Eu nunca uso peito, porque eu continuo sendo um homem cis. No começo a Aurora tinha até barba, porque eu queria mesmo trazer esse questionamento. Mas acabei tirando porque vi que era mais difícil para maquiar”, conta, ao risos.

(foto: Mangabeira)

Bulimia e autoimagem

Foi também através da Aurora que ele aprendeu a lidar melhor com sua própria imagem e a se gostar mais. Robert conta que com sete anos de idade já fazia dieta com sua mãe, que também também lutava contra o excesso de peso e o levava para caminhadas que duravam até duas horas por dia. Na adolescência e com acesso à internet, descobriu a bulimia e passou a vomitar todos os dias após cada refeição.

Ser a criança-bicha-afeminada não foi fácil, mas ser a bichinha, afeminada e gorda foi sempre mais duro. As ofensas eram sempre intercaladas entre essas características, isso quando eu não era o “viado gordo” — mas esse título eu ganhei só durante a adolescência. E foi nesse período que eu comecei a enfrentar a barra que é viver com bulimia. Todo dia uma tortura, durante dez anos, todo dia uma violação pra me enquadrar num padrão de beleza.
(foto: Jetmir Idrizi)

Com a Aurora, entendeu seu papel político de questionar padrões através da imagem e passou a usar isso a seu favor. O rapaz que antes tinha vergonha de tirar a camisa porque tinha corpo de “ex-gordo”, hoje usa roupas que mostram até seus mamilos quando incorpora Aurora: “Eu me sinto empoderado, questionando o papel da drag queen normatizada”. Uma das grandes conquistas foi ter feito um ensaio nu para o UnDragged, projeto artístico que usa fotos para mostrar a vulnerabilidade do ser humano por trás do personagem com o nu, mas ainda deixando as características fundamentais da arte drag. “Fiquei muito grato com o convite para sair da minha zona de conforto e enfrentar com coragem a exposição de ser como sou.”

Apenas 26 anos e usando seu grande poder de comunicação para travar lutas contra o patriarcado, as normas de gênero, a estética drag, distúrbios alimentares e trazendo sua sensibilidade para provocar questionamentos através da imagem e da arte: dá para ver que este é apenas o começo da história para Robert — neste exato momento, ele pode estar fazendo sua militância diária dentro de um metrô do Rio do Janeiro, provocando olhares e reflexões com suas unhas pretas e rímel borrado do dia anterior. E achando graça.

*Sobre Perfil Anônimo: salientando nossa sensibilidade de olhar sobre o target, temos a elaboração de perfis anônimos que dialoguem com realidades distintas do ponto de vista de classe, comportamento e geografia.

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