De mulher pra mulher

Segurança, empatia e confiança são alguns dos motivos que inspiraram mulheres a criar serviços para outras mulheres, e descobriram um nicho de mercado ainda pouco explorado

(imagem: reprodução)

Sentir-se mais segura, amparada, compreendida e cuidada: esses são apenas alguns dos motivos pelos quais as mulheres estão preferindo outras mulheres para a prestação de serviços antes executados majoritariamente por homens.

O movimento de empoderamento feminino no consumo, retratado na tendência (F)EMPOWERMENT da agência inglesa de pesquisa de tendências TrendWatching, agora atingiu outro patamar: as mulheres não buscam apenas representatividade nas propagandas e marcas que acolham seus problemas e atendam suas necessidades — elas querem também ser atendidas por outras mulheres se isso lhes oferecer maior sensação de empatia, conforto e segurança. E, quando o mercado não é capaz de responder a essa procura, o empoderamento feminino chega para suprir essa necessidade: mulheres que decidem começar seus próprios negócios para atender a uma demanda que só cresce:

“As mulheres não precisam esperar que homens de negócios satisfaçam suas necessidades atuais. Elas podem começar seus próprios negócios: plataformas de crowdfunding como Catarse, Idea.Me ou Fondeadora fazem com que isto seja mais fácil do que nunca.”
(relatório
(F)EMPOWERMENT)

De acordo com o uma pesquisa realizada pela Global Entrepreneurship Monitor os dados mostram que, em 2015, as mulheres já ocupam quase metade do empreendedorismo no país: no ano passado, elas representavam 49% dos empreendedores brasileiros (fonte: O Globo).

Selecionamos aqui alguns serviços feitos por mulheres para mulheres para ilustrar esta tendência:

Reparos domésticos

A cineasta Ana Luisa Correard foi uma das pioneiras no Brasil ao criar um serviço feito exclusivamente para atender a uma necessidade feminina: em 2015, após sofrer assédio de um homem fazendo serviços em sua casa, ela resolveu usar suas habilidades para serviços manuais e criou a M’Ana, uma empresa de reparos domésticos dedicada a serviços para mulheres: ela e sua parceira fazem todos os tipos de reparo, de pintura de paredes até a parte elétrica.

O serviço veio atender a duas necessidades específicas das mulheres em relação a este tipo de prática: receber um homem estranho em casa pode fazer com que a mulher se sinta insegura e vulnerável (especialmente as que moram sozinhas); e a sensação de que, muitas vezes, alguns prestadores de serviço se aproveitam do desconhecimento da cliente em funções mais técnicas para cobrar a mais por um serviço simples.

“Já aconteceu comigo algumas vezes: eles inventam que é um problema qualquer e cobram mais caro pelo serviço, sem nem resolvê-lo direito. Logo que descobri a M’Ana, percebi que ela [a Ana] não iria me passar pra trás.”
(Larissa Crantschaninov, em
depoimento ao iG)

A recepção calorosa e o sucesso inesperado fizeram com que, aos poucos, fosse surgindo outros serviços similares para atender à demanda do mercado, como o Manas À Obra.

Motoristas mulheres

O assédio sofrido por muitas mulheres ao usarem os serviços de motorista (aplicativos de táxi e Uber) fez com que outras mulheres enxergassem uma demanda de mercado ainda pouco explorada: o Táxi Rosa Carioca, por exemplo, é uma iniciativa que surgiu em janeiro deste ano na capital fluminense e tem uma frota de taxistas exclusivamente do sexo feminino (embora não faça distinção de gênero em relação ao cliente). De acordo com as criadoras, as reações das passageiras ao se depararem com uma mulher dirigindo são majoritariamente positivas:

“Já teve mulher que entrou, me viu no volante e falou: ‘Que bom que é uma mulher. Estou atrasada para um compromisso! Vou trocar de roupa aqui mesmo então’. (As passageiras) Se sentem mais à vontade para se maquiar, conversar etc.”
(Denise Azevedo, taxista de 49 anos e uma das fundadoras do movimento, em depoimento ao Extra)

Foi com a mesma ideia que surgiram algumas iniciativas estrangeiras similares, que se definem “o Uber para mulheres”, como o aplicativo americano SafeHer — que adotou medidas de segurança exclusivas para atender o público feminino (como uma palavra-chave que tanto a motorista como a passageira recebem para validar o contato).

No ano passado, o próprio Uber declarou que quer criar um milhão de vagas para motoristas mulheres até 2020. A iniciativa, feita em parceria com a ONU Mulheres para combater a desigualdade de gêneros, pretende não apenas empoderar motoristas mulheres, mas também lidar com polêmicas relacionadas ao abuso sexual sofrido por passageiras.

Tecnologia é assunto de garotas

Pensada com o intuito de incluir mulheres no mundo da programação, diminuir barreiras de gênero num universo ainda predominantemente masculino e inspirar mulheres a desenvolver suas habilidades; em fevereiro de 2015 surgiu a PrograMaria: criada por Iana Chan, 27 anos, a ideia da iniciativa veio após o incômodo da jornalista ao perceber que suas amigas se achavam incapazes de aprender programação. Hoje, a organização atua em três frentes: debate, inspiração e aprendizado.

Questionamos essa narrativa cultural, que diz se uma coisa é ou não de mulher, e como isso nos impacta lá na frente. Isso tem muito mais a ver com os estímulos que a gente recebe do que apenas com nossa natureza. (…) Quando dizemos que somos um negócio feito por mulheres para mulheres, algumas pessoas nos chamam de sexistas. O que elas não entendem é que não estamos excluindo os homens, mas incluindo as mulheres.
(Iana Chan, em depoimento ao Free The Essence)

Foi também com a ideia de aproximar mulheres do mundo da tecnologia que surgiu a InfoPreta: o serviço, que nasceu em 2013 com o intuito de proporcionar para todas as mulheres e transgêneros moradoras periféricas o acesso facilitado a computadores e a manutenção dos mesmos (com preços acessíveis), acabou ganhando mercado por oferecer esse tipo de manutenção a mulheres que muitas vezes se sentem oprimidas por um mercado majoritariamente dominado por homens: as usuárias do serviço se sentem empolgadas com a possibilidade de entenderem na prática como funciona e como consertar seus próprios computadores e aparelhos eletrônicos.

Assessoria jurídica

Foi através de uma hashtag pedindo #MaisAmorEntreNós que um grupo de advogadas se conheceu e se uniu com a intenção de ajudar judicialmente mulheres que sofreram algum tipo de violência, tudo de forma voluntária e gratuita, para oferecer apoio a mulheres em situação de vulnerabilidade e risco, que tenham sofrido violência de qualquer natureza.

Nascido na Bahia, o TamoJuntas é um grupo de apoio (nem sempre jurídico, às vezes apenas emocional) que promete atender às vítimas de forma gratuita, a partir da advocacia probono prevista no Estatuto da OAB. O objetivo é diminuir o silêncio acerca de violências sofridas e mostrar a essas mulheres que elas não estão sozinhas em sua luta.

Construção Civil

Criada a partir de um projeto piloto implementado em 2006, no município de Canoas (RS); a ONG Mulher em Construção tem como objetivo formar mulheres para o mercado da construção civil. Desde então, a ONG vem disseminando sua metodologia em parceria com diversos órgãos públicos e empresas que reconhecem a importância do projeto e apostam na inserção da mulher na construção civil, devido a seu grande potencial produtivo e de organização.

Por meio de parcerias estabelecidas com profissionais e companhias ligadas à área; nestes dez anos a instituição já capacitou quase 4mil mulheres nas especialidades de pedreiras, pintoras, azulejistas, ceramistas, eletricista e hidráulica.


*Sobre Pesquiseria e Tendências: usando como base plataformas de pesquisa de tendências de consumo e inovação, combinadas à análise dos movimentos sociais que observamos; reportamos as principais tendências comportamentais do momento — globais ou regionais, mas sempre trazendo uma leitura local.