moda e consumo consciente

repensar o consumo dentro de uma indústria que causa alguns dos maiores impactos ambientais, sociais e econômicos numa escala global está fazendo com que a moda busque alternativas de produção como um caminho para a sustentabilidade

(imagem: reprodução)

Reciclar, buscar informações sobre a cadeia de produção, procurar alternativas sustentáveis e comprar de produtores artesanais e locais são práticas de consumo consciente que estão crescendo na Indústria Alimentícia e, aos poucos, vêm ganhando espaço também na Indústria Têxtil — a segunda maior indústria do mundo e que engloba produção de tecidos em geral, incluindo também a Indústria da Moda, que emprega 1/6 dos habitantes da população mundial.

Porém, a moda também é uma das indústrias com os maiores índices de impactos ambientais, sociais e econômicos: os produtos químicos utilizados no alvejamento, tinturaria e estampagem possuem alto nível de toxidade que polui o meio ambiente; o segmento ainda é um dos que mais emprega trabalhadores de baixa renda em condições análogas à escravidão; e a busca por margens de lucro altas concentra um quarto da produção mundial do setor na China — país que ainda apresenta os custos mais competitivos.

É por conta desses fatores que começou a se fortalecer um movimento de repensar o papel da moda e buscar opções ao hiperconsumo e à hiperprodução para diminuir este impacto e viabilizar modelos alternativos de negócios, criando novas relações entre o vestir e o consumir.

Hoje em dia, o consumismo no mercado de massa está reduzindo. O crescimento do consumo em países desenvolvidos está concentrado em pequenos lotes têxteis de alta qualidade e produzidos na região. (fonte: TexBrasil)
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Repensando as transações

Mais de cinco anos se passaram desde que a publicitária Joanna Moura criou o blog “Um ano sem Zara” — e com ele assumiu o compromisso com seus leitores de ficar um ano sem comprar qualquer peça de vestuário. Desde então, muitas outras iniciativas similares surgiram para incentivar os consumistas de plantão a repensarem sua relação com o que compram, como consomem e o impacto que isso tem na apenas na conta bancária, mas também no mundo.

A maneira como escolhemos consumir — o quê, de onde vem, como é produzido e quanto estamos dispostos a pagar — não é apenas uma escolha aleatória ou que envolva somente variantes como conveniência e recursos disponíveis: é um ato político que demonstra crenças enraizadas e, cada vez mais, conscientes.

Foi nessa onda que o Enjoei começou: para as pessoas poderem se desfazer de artigos que estavam parados no armário e que podem servir a outras pessoas. O site (que faz venda de artigos de segunda mão por usuários cadastrados) começou como blog em 2009 e hoje é um site consolidado e que já atraiu mais de 2 milhões de consumidores.

“Ter e dar a oportunidade de comprar roupas boas a preços incríveis é muito bom: vendi metade do meu armário e não me arrependo, adquiro peças ótimas que nunca acharia em uma loja. E aqui também falamos de consciência ecológica: são MUITOS litros de água pra produzir uma ÚNICA camiseta, por exemplo.” 
(Tulipa Schneider, produtora de filme, catarinense que mora em São Paulo)

E nem sempre precisa haver dinheiro na jogada: o movimento de clothing swap, por exemplo, promove a troca de roupas entre participantes, em que nenhuma transação monetária é envolvida — alguns exemplos locais são o Trocaderia e o Gaveta.

Slowfashion, Cofashioning e alternativas

O Movimento Slow, que prega a “volta às raízes” e a desaceleração na produção e no consumo (em contraponto ao fast food das grandes redes e fast fashion dos varejistas); vem ganhando cada vez mais força na moda também: o Slow Fashion.

Na contramão da produção de roupas massivas e de baixa qualidade, a tendência defende a criação de peças atemporais, feitas à mão, com tecidos naturais e duráveis — como algodão, linho e seda — e cores suaves, além da produção em baixa escala e em locais que funcionam mais como ateliês do que como indústrias. (fonte: Estilo Uol)

Um dos grandes entusiastas locais do movimento é o estilista mineiro Ronaldo Fraga: “O fast fashion de uma marca gringa pinga sangue. Não tem como um tênis custar R$ 30. Não tem como um vestido custar R$ 30. Tem sangue pingando por ali. Tem trabalho escravo. Não tem condição”, disse em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo.

Outro movimento que está crescendo localmente e começou lá fora é o Cofashioning: o conceito de “roupateca” funciona como uma biblioteca para itens de vestuário. Na House of Bubbles, que fica no bairro de Pinheiros, em São Paulo, os assinantes pagam planos mensais de acordo com a quantidade de peças de roupa e acessórios que pretendem locar — dessa forma, evitam armários superlotados, compras por impulso e a eterna sensação de “não tenho nada para vestir”.

House of Bubbles (imagem: reprodução)
“Consumidores menos passivos e mais questionadores têm provocado uma mudança maravilhosa na maneira com que as marcas se posicionam.” (Daniela Ribeiro, uma das idealizadoras da House of Bubbles)

Sustentabilidade

Já o Upcycling traz nova cara à reciclagem: o processo consiste em reutilizar materiais que seriam descartados pela indústria têxtil para a produção de novos produtos. É o caso da Insecta Shoes, marca gaúcha criada em 2014 e que emprega métodos artesanais para reaproveitamento de tecidos descartados, que são transformados em calçados exclusivos, ecológicos e veganos (sem uso nenhum de matéria-prima de origem animal).

Sapatos da Insecta Shoes (imagem: reprodução)

E artigos que envolvem a indústria da moda e sustentabilidade não são somente roupas: a marca Zerezes surgiu com a ideia de produzir assessórios com baixo impacto ambiental, e desde 2012 produz óculos de sol a partir de resíduos gerados no beneficiamento das madeiras redescobertas.

Porém, ao falarmos de sustentabilidade e “moda sustentável”, não se trata apenas de matéria-prima orgânica e produção que respeite o meio-ambiente: estamos falando também dos impactos sociais e das relações de trabalho. Por isso, consumidores têm se interessado cada vez mais em saber não apenas de onde vem a matéria-prima, mas como ela é trabalhada ao longo da cadeia da cadeia de produção: “A qualidade da roupa tem a ver com a qualidade do trabalho de quem a produz”, defende Ronaldo Fraga*, para quem a moda slow fashion deve buscar não somente sustentabilidade econômica, mas também a humanização dos processos (*fonte: Estilo Uol).

É por essa razão que movimentos de grupos pequenos têm se esforçado para criar cada vez mais consciência em relação ao consumo de moda e seus impactos: foi assim que surgiu o Desguarda Roupa, coletivo que incentiva uma nova perspectiva em relação às roupas e ao seu consumo por meio de palestras, consultoria e transformação de peças.

A tendência de repensar a Indústria da Moda, aos poucos, está fazendo com o que o consumidor se torne mais consciente sobre aquilo que compra e quais os impactos sociais, ambientais e econômicos atrelados a isso: seja buscando informações sobre os meios de produção da marca que está consumindo; verificar se a relação custo x benefício da peça é de fato vantajosa (levando em conta materiais utilizados e durabilidade do produto) ou procurar alternativas através da economia de compartilhamento.


*Sobre Pesquiseria e Tendências: usando como base plataformas de pesquisa de tendências de consumo e inovação, combinadas à análise dos movimentos sociais que observamos; reportamos as principais tendências comportamentais do momento — globais ou regionais, mas sempre trazendo uma leitura local.

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