Novas configurações dos espaços de trabalho

‘Trabalhar de casa’ não é mais apenas a única opção quando se fala em ambientes profissionais que fogem do estereótipo de ‘firma’: anti-café, coworkings financiados e espaços que também acolhem crianças estão reconfigurando a maneira de trabalhar de forma autônoma

Maior flexibilidade no trabalho: este é o desejo de 73% dos brasileiros — especialmente os mais jovens. De acordo com pesquisa realizada em pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) em parceria com o Ibope*, sete em cada dez brasileiros querem horários mais flexíveis e o desejo de trabalhar em casa ou em locais alternativos. E, segundo nosso Projeto30, 67% dos jovens brasileiros na faixa dos 30 anos gostaria de ter um negócio próprio também por levar em conta condições laborais menos rígidas: a ideia de liberdade e a flexibilidade de tempo é o que mais seduz as pessoas para o empreendedorismo (*fonte: Época Negócios).

Escritório em casa

Pesquisa divulgada pelo Ibope mostra que 31% dos trabalhadores brasileiros gastam uma hora ou mais em seu deslocamento diário para o trabalho. A situação ainda é pior para quem utiliza transporte público: 22% perdem duas horas ou mais. Porém, o tempo gasto até o local de trabalho não é considerado pela legislação brasileira como parte da jornada — portanto, não é remunerado.

É pensando não apenas no tempo dispendido, mas também no estresse e desgaste causado por esse deslocamento, que muitas empresas estão adotando a política do home office para seus funcionários em determinados períodos da jornada. É o caso da marca italiana Barilla, que anunciou recentemente seu programa Smart Working, que prevê a utilização do benefício de trabalhar em casa até três vezes por mês. A intenção é justamente aumentar o nível de motivação, dando a possibilidade do colaborador trabalhar remotamente quando for necessário. O desafio global da marca é conseguir oferecer horários flexíveis para todos os funcionários até 2020 — até mesmo para os que atuam diretamente na linha de produção (fonte: AdoroHomeOffice).

Em um painel feito pelo jornal britânico The Guardian com a empresa de teleconferência Powwownow para discutir sobre trabalho remoto foram apontadas dez razões para apostar neste modelo. Entre elas, estão funcionários mais motivados, engajados e conectados, custos mais baixos de manutenção do escritório e a busca por outros lugares de trabalho que inspirem novas ideias, como espaços de coworking e cafés.

Na Cidade do México, o setor privado vem defendendo a adoção do home office como política pública, no sentido de desafogar o trânsito das ruas, proporcionar mais qualidade de vida para os colaboradores e em consequência aumentar a produtividade nas empresas — estudos realizados pela Coparmex (Confederação Patronal da República Mexicana) revelam que o trabalho remoto, se adotado por empresas e companhias da capital mexicana, poderia aumentar a produtividade em 28%, além de combater a poluição e os congestionamentos nas principais avenidas.

O crescimento desta nova formatação de trabalho também possibilita o surgimento de novos serviços e produtos que atendam a este público: este ano, a seguradora Liberty lançou um seguro customizado para profissionais que trabalham em casa com um pacote que contempla uma série de benefícios específicos para necessidades pontuais; como assistência técnica para o computador, reparos no ar condicionado e cobertura contra danos e roubo de equipamentos eletrônicos.

Espaços compartilhados

Os espaços compartilhados de trabalho, conhecidos como coworking, continuam crescendo ao redor do país, e sendo uma opção para quem precisa ou quer trabalhar remotamente. De acordo com pesquisa realizada pelo Movebla e Ekonomio em parceria com Coworking Brasil, atualmente existem 378 espaços ativos no Brasil — um impressionante aumento de 52% em relação a dados coletados em 2015.

O que tem mudado nestes espaços ao longo dos anos é a adoção de perfis mais personalizados para atender a públicos distintos, como é o caso dos coworkings familiares: espaços dedicados a bebês e crianças, permitindo que mães e pais possam focar no trabalho sem precisar abrir mão de estar perto dos filhos pequenos. O ambiente acolhedor costuma oferecer também brinquedotecas e até babás para dar atenção aos pequenos; e as mães se sentem mais confortáveis para amamentar, alimentar ou brincar com as crianças.

Já o House of Food é um coworking dedicado a quem cozinha: criado pelo do empreendedor Wolfgang Menke em 2014, o espaço conta com uma cozinha profissional totalmente equipada, que tem o objetivo de atrair de chefes de cozinha a aspirantes dispostos a pilotar um fogão industrial e criar ali suas receitas: os interessados podem alugar o espaço por um período e testar pratos, produção e atendimento ao público; sem precisar para isso montar um espaço próprio.

Campus do Google em São Paulo (imagem: reprodução)

Trabalhando ‘no Google’

Outro movimento que está se consolidando para subsidiar trabalhadores independentes é o de empresas privadas financiando espaços compartilhados de trabalho gratuitos para os usuários, como é o caso do Campus do Google em São Paulo: o espaço (que tem unidades em outras grandes cidades pelo mundo, como Londres, Madri, Seoul e Tel Aviv), fica em um prédio próximo à Avenida Paulista e oferece dois andares de ambientes compartilhados para usuários livres (mediante cadastro), com acesso a internet, água, banheiros, áreas para chamadas privadas e um café; e outros andares em que uma estrutura de escritório é oferecida para startups selecionadas. A ideia é fomentar a comunidade empreendedora local, através da promoção de eventos e incentivo à prática de network.

Com estrutura reduzida, porém objetivos similares, a Oppa (marca de móveis e objetos de design) também criou um espaço aberto ao público em São Paulo para uso livre de acordo com a necessidade, o Iluminário: segundo informações fornecidas pela empresa, para utilizar o espaço gratuito basta chegar na loja da Vila Madalena e solicitar o uso.

No Rio de Janeiro, a Incubadora Rio Criativo é o único espaço de coworking gratuito da capital fluminense e tem um programa especial de incubação de empresas dos setores da Economia Criativa no Brasil: a seleção das startups que serão apoiadas é feita após inscrições para o ciclo de ocupação para os dez novos postos de trabalho. O objetivo da iniciativa é incentivar que os novos empreendedores compartilhem e troquem ideias, dividam ferramentas e façam parcerias entre si, com as empresas incubadas e com instituições públicas e privadas, que também estão apostando forte no desenvolvimento da economia criativa.

Anti-café

Quem trabalha remotamente e costuma usar cafés com wifi quando quer mudar de ares ou fazer uma reunião sabe que estes espaços estão cada vez mais difíceis de utilizar: cheios, barulhentos, com conexão ruim e muitas vezes um atendimento que deixa a desejar — principalmente quando os estabelecimentos não estão dispostos a ceder espaço e internet para clientes que, em muitos casos, consomem pouco e permanecem por muito tempo ocupando uma mesa.

Foi pensando nisso que surgiu, na Rússia, um movimento de “anti-café”: espaços que oferecem a estrutura de um café moderninho (bebidas, comidinhas, aconchego e boa conexão wifi) mas em que o usuário não paga pelo que consome, e sim pelo tempo em que permanece no local.

Espaço do Lemni Café (imagem: reprodução)

No Brasil, o primeiro estabelecimento do tipo surgiu na região de Pinheiros, em São Paulo: o Lemni Café (Lemni é a abreviação de lemniscata, aquela curva do infinito ou ‘o oito deitado’). De acordo com matéria no Aurora Lab, “o anti-café foi batizado assim pelas donas Beca e Gil (que se apresentam assim para a clientela) porque ele tem tudo a ver com o tempo e espaço: ‘anti’ não significa ser contra algo, mas sim trazer uma ideia vanguardista, de novidade, inovação e melhoria.”

No Lemni, a comanda aponta apenas o horário de chegada. A partir daí, o cliente pode escolher o que consumir dentre as opções oferecidas (diversos tipos de bebidas quentes e frias, pães doces e salgados, diferentes tipos de bolos etc) no tempo em que permanecer no local. A primeira meia hora custa R$12, e a cada 15 minutos extras, são acrescentados R$3. Também existe a opção avulsa, em que o cliente paga apenas pelo que consumir.


*Sobre Pesquiseria e Tendências: usando como base plataformas de pesquisa de tendências de consumo e inovação, combinadas à análise dos movimentos sociais que observamos; reportamos as principais tendências comportamentais do momento — globais ou regionais, mas sempre trazendo uma leitura local.

Like what you read? Give pesquiseria a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.