
Carta de desalento, amor e zanga
Clarice, talvez eu esteja apaixonada pelo meu professor. Ele usa óculos bonitos, tem os olhos claros — verdes, azuis, não sei dizer bem. As vozes, as conversas ininteligíveis ouvidas ao longe, os destaques do som do S numa conversa de corredor… tudo vira pó de silêncio quando ele discursa naquele ritmo nervoso. Andei escrevendo sobre, sobre tudo o que eu pretendia propor, da degustação de cervejas do Girão, mesmo que eu não seja a maior fã da bebida. Ele parece adorar. Acho que posso acompanhá-lo nisso de vez em quando.
Não acredito em inspiração para escrever, assim como não acredito em paixão que não a construída com a convivência, as semelhanças e o alinhamento político. Para mim, escrita e paixão são questões de tentativa, talvez prática, hábito. Mas com ele a fita de palavras é infinita. Me sinto infantil e essas desorientações fazem frequentes as minhas pinturas, mas a tinta cinza acaba sempre antes das bisnagas de outras cores.
Se me sinto perturbada com os inícios, quando ele esta lá, falando sobre os livros que leu ou da demora dos alunos para retornar do intervalo, as fases de relacionamentos comuns me parecem sobrepostas, sem ordem, empilhadas, e eu me envergonho. Os dias tem sido rituais, Clarice. Caso eu prossiga sem permitir que ele saiba do meu afeto, o que é mais provável, nos veremos pouco. Quando assino a quebra do contrato de conhecimento do que acontece em mim, fantasmagoria e anonimato tomam o lugar. Ele intermediou isso? Que merda.
A rotina me deu um calo que me atrapalha reconhecer minhas bordas. Por isso mandei para ele uma mensagem com a desculpa de querer emprestado um dos livros que ele me apresentou. Amiga, virei poço de agonia enquanto escrevia. Mandei coisas que precisaram ser corrigidas com dois PS. Foi bobo. Ele respondeu lacônico. Dormi sentindo a mão da frustração querendo apertar meu pescoço. É foda. Se o voo é rapidez, o pouso é tragédia.
Também me apaixonei por um amigo brasileiro que vive na Itália. O tipo de paixão que me roubou uns 10 anos, porque mesmo com a distância imagino-o segurando minha mão, me encorajando a tentar pedir, em italiano, o nosso almoço em Roma.
Isso me lembra 2005, no Afonso Pena, quando caí de amores pela moça da bilheteria da Estação Santa Tereza, tendo como observação apenas seu ‘bom dia’ sem acabamento. Era cruel. Me sinto na sétima série de novo.
Ele e eu nos conhecemos um pouco. Sei da bicicleta, da disposição em me ajudar no idioma, ele me dá apelidinhos em italiano. Sei que ele é lindo e me embriaga de sol e vontades. É estranho. Eu, que pretendia visitar a Itália no ano que vem, me vejo pesquisando passagens para as próximas férias. Falei com ele ontem. Como foi meu último contato consciente antes de dormir, ele deixou lampejos seus pelo caminho para me conduzir pelo sono. Acordei com poucas lembranças do que sonhei, a não ser um flash dele me fotografando, igualzinho o Vitor faz com a Julia.
Espero que eu não me torne a amante que faz as pessoas terem medo do amor, Clarice. Fujo de ser a figura que bifurca a multidão entre os que acreditam nas paixões irresponsáveis e os que, ao sentirem cheiro de folha em branco, se acovardam e me olham como quem quer me interditar. O fenômeno do meu despertar amoroso faz com que eu exista agressiva. Deixo farelos de amor pelo caminho e o mundo me responde com silêncio. Eu amo estranho e estou exausta.
Quando me declaro (desse meu jeito)e as pessoas se afastam sem resposta — falo da falta de troca, não da negativa. A recusa já seria um retorno — temo que na verdade eu não exista e apenas eu não saiba disso ainda.
No mesmo raciocínio, penso meus amores rejeitados se tornando um extra nos sonhos dos outros, como figurantes, sabe? Acho que todas as pessoas sem rosto que aparecem nas ficções inertes do meu sono são amores que não tem para onde ir.
Um agravante: todas as pessoas que me amaram, exceto Thiago, tentaram mudar algo em mim. Será o poder do provável ‘não’ destes dois algo bom e que me estimule a ser menos estrangeira de mim mesma?
Desculpe por atropelar a carta que ia enviar para você antes, interessada em como você está e agradecendo ao tempo que me dá para ser eu. Quando tentei concluir os escritos que comecei, gaguejei. Tudo parecia outro. Meu peito pareceu urgente. Tentei continuar, mas eu estava dilatando, escoando, pedras me atingiam a cabeça. Estou existindo demais. Me desculpe mesmo.
Eu me derramo como vazamentos no porão, amiga. O amor me habita violento, antes mesmo que eu aprenda a habitar os outros de maneira menos truculenta.
Edit: Clarice me respondeu aqui.
