não sei escrever poesia

mas se soubesse, escreveria sobre a cidade. prédio, asfalto, um milhão de janelas, postes, fios, gente. não sei o que me atrai, mas esse lugar cheio de concreto, onde passa uma correnteza de pessoas ocupadas demais para olhar pra cima ou para os lados até na hora de atravessar a rua me chama, me convida. quase posso ouvir as vozes dos colossos de cimento com ossos de aço gritando, implorando para que eu me cerque deles cada vez mais. gosto das árvores, sim, da sua sombra, do seu frescor, das suas folhas verdes que sempre puxo de um galho e amasso entre meus dedos enquanto caminho pra qualquer lugar, ou até mesmo das secas, que pulverizo e espalho por onde passo sem muito objetivo, mas sou da cidade. ela me sufoca e me acolhe, me assusta e me acalma, é tão estranha e tão familiar, tudo isso ao mesmo tempo e o tempo todo. ela se contradiz pra mim de tantas formas que eu só conseguiria me expressar de maneira correta com poesia.

mas eu não sei escrever poesia.