2 desconfortos súbitos sem muita explicação que dão aquela dorzinha gostosa no peito #1

autoconsciência inesperada: você tá tranquilo, fazendo qualquer coisa no automático, seja trabalho ou viver mesmo, até que você para de fazer aquela coisa por um tempo e seu cérebro decide pagar daquele seu amigo que te encontra no meio da rua e fica querendo te contar um tanto de coisa que você na verdade nem queria muito saber não, você só queria continuar seu caminho, ir pro trabalho, entregar aqueles relatórios pra poder sair mais cedo hoje, mas ele fica lá, seu amigo, nesse caso seu cérebro, falando um tanto de coisa. A diferença do seu amigo e do seu cérebro é que seu cérebro vem falar um tanto de coisa sobre VOCÊ. Em algumas coisas ele parece seu amigo, ele chega com comentários que ele acha tranquilo e você finge que não te incomodam. Te dá um tapinha na barriga e “cê engordou hein, cara? ahaha”. Te dá um tapinha no ombro e joga “cê faz o quê? Jornalismo, né? Porra, vai morrer pobre, hein velho, ahaha”. Nas outras coisas o seu “cérebro amigo” (tem como dar capslock em aspas pra deixar mais claro esse “amigo”?) começa a trazer para a luz aspectos da sua vida que você realmente não queria lembrar agora, não tem necessidade, você tem que chegar no trabalho, sentar na sua cadeira, pegar o café novo antes que o Miguel encha aquela garrafa enorme dele e deixe só um resto morno no fundo pra você. Mas ele não quer deixar você fazer isso. Ele quer te lembrar que tem dois dias que você não vai na academia que você já pagou um ano adiantado. Que sua vida amorosa tá mais deprimente do que o resto da sua vida, o que é dizer muito. Que você poderia ter aprendido mais sobre photoshop ou desenho ou qualquer outra coisa pra pegar uns freela e completar a renda. Que você tem uma dívida enorme e impagável. Que amanhã tem trabalho da faculdade e você nem começou. Que você é bem chato, tedioso e irritante mesmo, que incomoda as pessoas com seus gostos estranhos e seu humor esquisito e sua vontade de te notarem. Depois disso seu amigo, seu cérebro, te dá mais um tapinha no ombro e vai embora falando “porra, velho, tenho que ir, depois a gente se esbarra, ahaha”. Você não quer esbarrar nele de novo.

solidão de acompanhada: você tá num bar ou na faculdade ou numa praça ou numa balada ou numa reunião da sociedade secreta que você participa há anos desde que a Daniela falou “ah, a galera se reúne mais mesmo pra beber e ver filme ruim mesmo, fala que é secreta porque é legal”, mas que você descobriu que eles tão planejando invadir um prédio público e pixar todas as paredes de vermelho sangue para finalmente instaurar a antiga ordem dos Ḥashāshīn. Estão todos nesse lugar, inclusive você, conversando, bebendo, rindo, discutindo, se abraçando, lendo livros de ocultismo com mais de mil anos, essas coisas que a gente faz, sabe? Entretanto, do nada, bate uma solidão inesperada. Estão todos conversando, sim, mas entre si, não com você. Você fez um comentário engraçado aqui e ali, mas não era nada importante. Você fica lá bebendo sua cerveja sozinho e ninguém nota sua ausência da conversa. Todo mundo tá se abraçando e dizendo o quanto se gostam enquanto você tá rindo de um tweet idiota sobre as eleições nos EUA. Os gran-mestres da ordem estão recitando antigos cânticos xamanísticos todos de mãos dadas enquanto você tá numa fileira de cadeiras sozinho meio que procurando a Daniela porque você não conhece muita gente daqui e tem um povo bem esquisito as vezes. Você tá cercado de gente que te adora, que já deixou claro que gosta da sua presença, que exigiu seu comparecimento ao evento, mas você tá se sentindo sozinho. É meio egoísta da sua parte, até. Depois de um tempo isso passa, entretanto, e você faz uma piada sobre uma de suas amigas, faz um levantamento importante na discussão, escolhe a cerveja pra galera e até começa a sugerir novas propostas de logotipo para os Ḥashāshīn porque tá muito ultrapassado esse trem de faca na caveira e é até meio fascista. Ocultista de antigas ordens pagãs sim, fascista jamais.