Fantasmas Balcânicos no Kosovo

Pensar em regiões perigosas no mundo nos remete a regiões com conflitos abertos, como Síria, Iraque e Afeganistão, ou locais envolvidos em disputas latentes, como Cachemira ou Ucrânia. Mas uma das regiões mais perigosas do mundo para a estabilidade internacional volta a ter movimentações que nos lembram de suas instabilidades estruturais e sua vocação global. Os bálcãs costumam ser influenciados — de forma direta — pelo ambiente internacional, e não demonstra timidez em influencia-lo de volta.

Não é exagerado pensar que a I Guerra Mundial se iniciou como mais uma das Guerras dos Bálcãs. Nos anos que antecederam a eclosão da Grande Guerra, houve duas guerras na região, e as movimentações iniciais soavam como mais um daqueles conflitos. A Sérvia objetivava unir os povos eslavos do sul (os iugoslavos), incluindo a Bósnia Herzegovina, então parte do Império Áustro-Húngaro. A Rússia entendia o império binacional como uma ameaça a suas pretensões na região que, por sua vez, era estratégica para o tão sonhado acesso aos estreitos de Bósforos e Dardanelos, em um momento de severa decadência do Império Otomano. Já o Império Áustro-Hungaro enxergava o nacionalismo sérvio como uma ameaça ao frágil equilíbrio entre as diversas minorias súditas de Viena. O assassinato de Francisco Ferdinando acionou um conjunto assustador de alianças, que conduziu o mundo à sua I Guerra Mundial.

Passados mais de cem anos, é notável que as placas tectônicas sigam se movendo, lentamente, nos Bálcãs. Lenta e constantemente, a região mantem sua vocação global.

Em janeiro deste ano, Sérvia e Kosovo acertaram a retomada da circulação de trens, ligando Belgrado a Pristina. Mas, ao invés de demonstrações de amizade, a Sérvia preparou, para a viagem inaugural, um trem com as cores da sua bandeira nacional, com a mensagem "Kosovo é sérvia" em 21 línguas.

O trem não ultrapassou a fronteira.

O Kosovo era uma província sérvia, que declarou independência em 1998, na esteira do progressivo e sangrento desmantelamento da Iugoslávia. A reação do presidente Slobodan Milosevic foi violenta, o Kosovo foi invadido e sofreu com uma campanha genocida contra a maioria albanesa da província.

A OTAN reagiu, interveio no Kosovo, iniciou a estabilização em 1999 e administra a região até hoje. Este cenário encorajou os kosovares a declararem independência em 2008, confiantes de que a sérvia — e seus aliados russos — não usariam a força enquanto a OTAN garantisse a sua segurança. Ainda que diversos países não tenham reconhecido a independência do Kosovo, como Brasil e Rússia, o país tentava mostrar que era justo que houvesse uma separação diante da Sérvia.

Mas…

…a vitória de Trump muda o cenário. As relações entre Rússia e Estados Unidos parecem passar por mudanças, com uma maior cumplicidade entre os presidentes. Ao mesmo tempo, Trump parece menos disposto a se engajar em campanhas militares que não tenham relação direta com os interesses estadunidenses. Isto pode significar uma anuência para que a Rússia administre politicamente os Bálcãs, num momento em que os membros europeus da OTAN enfrentam desafios grandes demais para pensar em uma mobilização militar, sobretudo se os Estados Unidos não embarcarem no projeto, o que parece ser o cenário mais provável.

A história recente é assustadora para o Kosovo. A Rússia não teve problemas em invadir a Geórgia e a Ucrânia para, segundo argumentou, proteger os russos étnicos, ameaçados pelos governos locais. Não seria ilógico, portanto, que a Sérvia contasse com apoio russo para uma operação militar que se dedicasse a proteger os sérvios étnicos contra a maioria albanesa no Kosovo.

O terreno balcânico, que nunca soou realmente estabilizado, volta a passar por reviravoltas.

Se há alguma região que a história nos ensina a observar com atenção, é a península balcânica.

  • Disclaimer: o tema foi escolhido a partir da leitura de notícia no Estado de São Paulo do último domingo, 5/março. Pra saber mais sobre o caso do trem, recomendo esse artigo.

TANGUY BAGHDADI

PROF. POLÍTICA INTERNACIONAL

Tanguy Baghdadi é internacionalista puro sangue, professor, vascaíno e pai da Dora. Pitaqueiro.

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