Manguezal, da lama à solução

Na beira da terra, junto ao mar, é possível encontrar não só diversas espécies como uma contribuição relevante para o combate ao aquecimento global e a adaptação à mudança do clima. Você sabe qual é a do manguezal?

Se a única ideia que você tem do manguezal é um lugar cheio de lama e malcheiroso, tá na hora de lembrar das aulas de Biologia e Ciências. Ele é considerado um dos ecossistemas mais produtivos do planeta. Seu apelido? “Berçário da vida”, pois 60% das espécies dependem dele para sobreviver. Estamos falando não só de peixes e crustáceos, como também aves e até mamíferos.

Isso porque o manguezal, com suas três principais espécies de mangue (vermelho, preto e branco) e suas árvores parte submersas e parte aparentes, tem múltiplas funções: controla a erosão às margens dos rios, lagoas e baías, ajuda a reduzir o impacto de fortes chuvas com elevação do nível do mar, contribui para a alimentação à base de frutos do mar e sustento de populações ribeirinhas. O mangue vermelho, que tem as raízes aéreas (com parte delas acima do solo), por exemplo, costumam ser abrigo para mariscos, lugar escolhido para as aves que fazem ninhos e também ambiente preferido do caranguejo aratu.

O CO2

Além disso, o manguezal ainda tem a capacidade de armazenar carbono. Isso porque seu solo é rico em material orgânico e inorgânico, acumulando mais carbono que a maioria das florestas tropicais. Um estudo¹ realizado por pesquisadores do Brasil e dos Estados Unidos demonstrou que, na Amazônia, cada hectare de manguezal contém duas vezes mais carbono que a mesma área de floresta equatorial. Se considerarmos outros ecossistemas, no Nordeste um hectare de manguezal chega a armazenar oito vezes mais carbono do que um hectare de vegetação da Caatinga. O Brasil possui manguezais em quase toda a sua costa, do Amapá até Santa Catarina.

Uma pesquisa da Unisanta² mostrou que, considerando que a combustão da gasolina em um carro popular com sete anos de uso equivale a 85,4 Kg de carbono por ano, 47 árvores seriam suficientes para absorver os gases de efeito estufa (dos quais o CO2 é um dos principais) liberados por um automóvel.

O CO2 Manguezal, um dos projetos patrocinados por meio do Programa Petrobras Socioambiental, possui ações de reflorestamento de bosques de mangue e áreas de Mata Atlântica, por meio do cultivo e manejo de espécies características desses ambientes. E esse trabalho é um canteiro científico para que se entenda toda a importância do manguezal.

“Contamos com parcerias com universidades e laboratórios de análises para estudar as diferenças de uma área de manguezal conservada e uma degradada, e como elas atuam no armazenamento de carbono, por exemplo”, conta Sara Nascimento, bióloga que atua no projeto. Considerando apenas duas áreas estudadas no municípios de Maragojipe (BA), sendo a primeira degradada e a segunda preservada, a pesquisa mostra que houve estocagem de 11 a 35 toneladas de carbono nos manguezais locais. “Quanto mais massa uma árvore tiver, maior vai ser a capacidade de absorver o CO2”, completa.

O manguezal é um tema que deve ser tratado com seriedade, pois a “floresta da beira d’água” mostra-se crucial para a sustentabilidade do planeta.

Referências:

¹ “Manguezal armazena mais carbono que floresta”. Revista Fapesp, edição 272. Outubro 2018.
² “Estimativa do Sequestro de Carbono por Árvores de Manguezal no Rio Boturoca — São Vicente/SP”. UNISANTA BioScience –p. 11–15 Vol. 1, nº1 (2012)