O que o solo conta sobre a humanidade?

Há muito tempo, a observação do solo inspira pesquisas que tentam colocar em ordem cronológica os capítulos da história da formação da Terra. A ideia de que os continentes se movem lentamente, por exemplo, surgiu em 1912. Já na década de 1960 veio a noção de que todos os continentes formavam apenas uma massa de terra firme, a Pangeia. Apesar de tanta evolução científica, ainda não desvendamos todos os mistérios do centro do planeta. Mas o que sabemos sobre o que está logo abaixo dos nossos pés, nos primeiros quilômetros rumo ao núcleo terrestre, já é bastante.

Segundo o geólogo da Petrobras Peter Szatmari, as formações rochosas espalhadas pelo globo dão excelentes pistas sobre a evolução do planeta. “Animais e plantas existem na Terra há quase 600 milhões de anos. Seus restos fósseis permitem definir a idade de cada formação e, com o estudo de sedimentos e rochas vulcânicas de cada época, é possível descrever as mudanças na geografia e no clima, por exemplo”, diz.

Pense em um ovo de galinha. A casca é praticamente lisa por fora, certo? No caso da Terra, essa casca está longe de ser uniforme. Trata-se da crosta terrestre, sobre a qual está a maior parte das coisas que conhecemos, inclusive os oceanos.

Em algumas regiões, essa camada chega a 70 quilômetros de espessura. No fundo do mar, a crosta é bem menos espessa. O buraco artificial mais profundo já escavado fica na Rússia e tem pouco mais de 12 quilômetros. Ou seja: ainda há um universo inteiro a ser explorado sob o chão.

ÁGUA MOLE EM PEDRA DURA

De acordo com a teoria mais aceita, a Terra existe há mais 4,56 bilhões de anos. Lá no início, não existiam florestas nem oceanos — só havia pedra mesmo. “A primeira crosta terrestre era basáltica, como a lava que recobriu a Bacia do Paraná. A mesma camada forma grande parte da crosta terrestre no fundo dos oceanos”, afirma Peter. Durante um longo período, enquanto só formas primitivas de vida microscópicas habitavam o planeta, essas rochas sofreram ação de mudanças climáticas e bombardeios cósmicos. Esse período, que a Geologia chama de Pré-Cambriano, durou 4 bilhões de anos.

CAMADA POR CAMADA

A Era Paleozoica, que somou 320 milhões de anos, foi palco de uma imensa proliferação de espécies animais e vegetais. Depois veio a Era Mesozoica, com o surgimento dos dinossauros. Ao longo de todo esse tempo, a cada bicho ou planta que morria, a matéria orgânica decorrente da sua decomposição era depositada sobre as rochas que formam a crosta terrestre. Após esse período, foram mais 65 milhões de anos de mudanças, evolução e extinção de espécies, até o momento em que você lê esse texto.

A cada dia, restos de bichos e plantas, dejetos humanos, chuva, vento, rios, movimentação de placas tectônicas e vulcões moldam o solo. Em cada ponto da superfície terrestre, o solo tem suas características próprias, com camadas mais ou menos espessas. As características das camadas ajudam, inclusive, a indicar se o solo foi formado mais recentemente ou se já é maduro. Na Geologia, essas camadas são chamadas de horizontes.

Horizontes e suas determinadas características físicas

O SOLO DO BRASIL

O solo é um tema tão complexo que existe um ramo inteiro da ciência dedicado ao seu estudo: a Pedologia. O Sistema Brasileiro de Classificação de Solos, uma espécie de bíblia da Pedologia nacional, estipula a existência de 13 tipos de solo — chamados de ordens. Cada ordem tem suas próprias subdivisões e propriedades, que variam de acordo com diversos quesitos além da composição mineral (textura, cor, estrutura, consistência, quantidade de material orgânico etc.).

O ÁCIDO E O ARGILOSO

No Brasil, os tipos de solos mais comuns são o latossolo e o argissolo. O primeiro, presente principalmente no cerrado, é profundo, rico em ferro e alumínio. Porém, nesse tipo de solo, a água da chuva carregou para longe outros minerais, o que fez dele nutricionalmente pobre e ácido. O argissolo é, como o nome pode indicar, rico em argila e tem cor amarelada ou acinzentada.

TREINANDO O OLHAR

Mesmo quem não domina os pormenores da Pedologia pode tirar algumas conclusões genéricas só de olhar para um recorte de terra. Uma cor escura, cinza ou preta, provavelmente indica concentração de matéria orgânica. Já os tons avermelhados ou amarelados estão associados a óxidos de ferro. Quando a terra parece mais porosa, é sinal de que a água é capaz de penetrar até camadas mais profundas. Agora, se ela parece muito sólida, sem poros, a umidade é possivelmente menor.

ANOS DE ESTRADA

Se o solo próximo aos nossos pés já guarda tanta complexidade, imagine então as rochas, que existem desde que o mundo é mundo. De acordo com Peter, as que vemos hoje resultam de um embasamento cristalino antigo somado à ação do tempo e dos restos de vida dos últimos 540 milhões de anos. Além das forças que vêm de fora e modificaram as rochas originais, também há aquelas que partiram de dentro. “Formações rochosas são compostas de rochas sedimentares (arenitos, folhelhos, calcários) ou vulcânicas (basaltos, andesitos)”, assinala o geólogo da Petrobras.

IDADE DA PEDRA

O jeito mais fácil de determinar quanto tempo existe uma pedra é calcular a datação de um fóssil incrustado nela. O primeiro fóssil descrito formalmente foi achado em 1676, na Inglaterra, em rochas do Período Jurássico, mais ou menos 166 milhões de anos atrás. Só que nem toda rocha vem com fóssil de brinde. Em 2001, um pequeno fragmento de cristal de zircão (um parente distante do topázio) foi descoberto em uma fazenda de ovelhas na Austrália. O fragmento é minúsculo, praticamente um grão de areia. Mesmo assim, abalou a Geologia. Isso porque ficou determinado que o cristal tem cerca de 4,4 bilhões de anos, tornando-se o material natural mais antigo já observado. Ao que tudo indica, ainda há muito mais história a ser desvendada na jornada rumo ao centro da Terra.