Uma maratona no “universo maker”

Uma imersão na cultura maker

Durante dois dias reunimos cinco grupos, com pessoas de diferentes formações, para uma jornada no universo da “cultura maker”. Cada grupo foi desafiado a desenvolver um projeto, mostrando que a aliança entre curiosidade, conhecimento e tecnologia pode ressignificar objetos do cotidiano e transformá-los em algo diferente.

Dois dias de (bastante) trabalho em equipe

A Maratona Maker Petrobras foi realizada na Rio2C, evento de cultura, tecnologia e inovação, no Rio de Janeiro, nos dias 7 e 8 de abril. Como mentora, tivemos a presença da arquiteta Rita Wu, apresentadora do Programa Remake, série televisiva sobre a cena maker, feita em colaboração entre Petrobras e Vice.

A equipe vencedora mobilizou conhecimentos como robótica, programação, artes e administração para desenvolver uma tecnologia capaz de motivar pessoas que precisam fazer fisioterapia a continuar com seus exercícios. Os cinco integrantes se conheceram durante a inscrição no concurso, partindo do zero para a criação do projeto.

Movimento criativo

O FisioGame, criado pelo grupo, utiliza sensores para captar os movimentos do braço do usuário e integra exercícios de fisioterapia ao jogo de computador Flappy Bird, em que o desafio é conduzir um pássaro em meio a diferentes obstáculos. Componentes eletrônicos presos ao braço do usuário capturam os movimentos da articulação e convertem esses movimentos em dados, que em seguida são transformados em cliques de mouse. Quanto mais contraído o braço da pessoa, maior a frequência de cliques — e batidas de asa do pássaro no jogo.

Demonstração do FisioGame em ação
“O pássaro, que voa desviando dos obstáculos, ganha altitude quando a pessoa contrai o braço e perde altitude quando estica o braço. Assim ela se exercita e se diverte”, explicou Vinicius Gonçalves, um dos membros do grupo vencedor, que levou um prêmio de R$ 10 mil.

Desde criança, o carioca Vinicius é fanático por eletrônica, videogames e desmontar aparelhos para saber como funcionam. Estudante de Sistemas de Informação na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), foi dele a ideia inicial que deu origem ao FisioGame — a de integrar movimentos de pernas e braços aos videogames de sua infância.

Ao longo dos dois dias da Maratona Maker Petrobras, no entanto, depois de alguma tensão e de quase abandonar o grupo, Vinicius foi convencido pelos outros integrantes a deixar sua ideia se tornar algo capaz de ajudar as pessoas que passam por fisioterapia. Ele não se arrependeu.

“Eu estava disposto a fazer o projeto sozinho no início! (risos). Quando eles argumentaram para eu ficar na equipe e mudar o rumo do projeto é que a coisa começou a evoluir! (risos)”, admitiu.

A vivência que chegou à criação vencedora da competição foi intensa. Foi com muito trabalho que a equipe mobilizou conhecimentos diversos para chegar a um resultado capaz de contribuir para a sociedade por meio da tecnologia. Os dois primeiros integrantes da equipe a se conhecerem, na fila de credenciamento da Rio2C, foram Yasmin Romi, também do Rio, de 22 anos, estudante de Engenharia da Computação no Instituto Infnet, e o paulistano Hugo Tanaka, de 29 anos, formado em Sistemas de Informação e com MBA em Gestão de Tecnologia da Informação. Logo em seguida, Vinicius se uniu à dupla inicial, seguido pelo carioca Wagner Pereira, de 43, profissional de Gestão de Negócios e Projetos, entusiasmado em participar e contribuir com as iniciativas de fomento de Inovação.

O quinto integrante a se unir ao grupo foi Herik Wooleefer, de 30 anos, artista plástico e arteterapeuta. Especialista em Humanização de Espaços e Produtos, de Guarapari (ES), que há 20 anos se divide entre o Rio de Janeiro e São Paulo, Herik subiu ao palco da Rio2C para oferecer seus conhecimentos e foi acolhido pelos outros integrantes do grupo. A ousadia valeu a pena: as técnicas de arteterapia foram muito úteis para motivar o grupo em meio a tensão dos dois dias intensos de maratona.

“Não tínhamos tempo e eu fui para vencer. Sou muito determinado e, já que eu não conhecia ninguém, teria que estimulá-los de alguma forma. Fui muito chato, insistente, exagerado… (risos). Fiz de tudo para invadir o inconsciente deles. Usei técnicas de estímulo, pois o cérebro tende a se bloquear em determinadas situações, com tensão e dúvidas. Não sei se ajudou em algo (risos), mas são técnicas para a criatividade que utilizo com meus pacientes”, revelou.

Motivada pelas técnicas do colega de equipe ou não, o fato é que o empenho e os conhecimentos da geek Yasmin foram indispensáveis para a vitória do time. Acostumada a desafios como o de conseguir seu espaço em um contexto em grande parte masculino, a fundadora do Clube de Robótica da faculdade onde estuda virou a noite durante a maratona aprendendo uma nova linguagem de programação para, pela primeira vez na vida, desenvolver um game.

“Eu queria fazer alguma coisa mais criativa, não me ater somente à criação de um aplicativo ou outro sistema. Fiquei tensa a partir do momento da inscrição, pois não tinha nenhum grupo ou conhecido entre os participantes. Quando decidimos que iríamos fechar a ideia em um jogo que auxilia o tratamento de pacientes que estão recuperando movimentos e que eu era a única pessoa que desenvolvia no grupo, comecei a procurar por algumas horas qual era o melhor software de desenvolvimento para quem, como eu, nunca desenvolveu jogos.
Isso foi mais ou menos às 19h da noite de sábado, então tínhamos uma hora para irmos embora. Eu sabia que, se deixasse para o dia seguinte, o tempo iria ficar muito curto, pois ainda tínhamos que testar o jogo com a placa do Arduino [com sensores que captam movimentos], então eu virei a madrugada aprendendo a usar o Unity3D [plataforma de desenvolvimento de jogos] e desenvolvendo o jogo (risos). Graças a Deus deu tudo certinho e acabei o desenvolvimento do jogo umas 5 da manhã, ainda sobrando tempo para dormir por duas horas”, lembrou.
A troca de conhecimentos foi a tônica do evento

Outro integrante do grupo com formação na área de Tecnologia da Informação (TI) e fundamental para o ótimo desempenho do grupo foi Hugo Tanaka. Veterano de competições como a Maratona Maker Petrobras, nas quais costuma formar equipes durante a inscrição para abocanhar bons resultados, Hugo resumiu o desafio para vencer esse tipo de competição.

“O tempo é nosso principal inimigo e um planejamento de todas as etapas é essencial para atender a expectativa dos mentores. É preciso tomar o máximo de cuidado para não esquecer nenhum dos itens, principalmente do pitch [apresentação da tecnologia em até três minutos], a que muitas pessoas acabam não dando muita atenção e é fundamental para demonstrar todo o trabalho. Escolher as pessoas certas é um fator importante também, conhecer as habilidades de cada um e utilizar a favor do time. É imprescindível ter paixão pela tecnologia, pensar fora da caixa, respeitar a opinião do time e, o principal, acreditar em seu potencial”, enumerou.

Nossos Monitores

Rita Wu, mentora da Maratona, abriu o evento com uma palestra e motivou os participantes ao longo dos dois dias. Ela não foi a única a ajudar nesse processo criativo intenso. Durante o evento, oito empregados da Petrobras e da Petrobras Distribuidora atuaram como monitores. Leia depoimentos de alguns desses profissionais.

“O evento mostrou que podemos adotar a cultura maker como um valor interno da empresa. Esta cultura prioriza respeito pelas diferenças, trocas saudáveis de ideias entre pessoas com formações, backgrounds, vivências e valores distintos. O foco em entregar o produto não impede que sejam feitas diversas tentativas, que podem não dar certo — é a prática do conceito do “fail fast, fail often”. Tudo isso foi evidente em todos os grupos, mas principalmente no grupo ganhador!”

Paulo Henrique Pontes, Analista de Sistemas

“A atividade de mentor me forçou a enxergar as ideias de outras pessoas e vasculhar experiências anteriores com o foco de contribuir positivamente pra ajudar o grupo a mover as ideias pra frente. A Maratona Maker da Petrobras estimula o aprendizado por criação ao fornecer um tempo curto aos participantes para simplesmente criarem.”

Érico Vieira Porto, engenheiro de equipamentos do Centro de Pesquisas Petrobras

“A primeira equipe com quem conversei, e que me pareceu bastante entrosada, curiosamente era formada por pessoas que não se conheciam antes do evento. Tratava-se do início da equipe FisioGame, que mais tarde sairia campeã da competição. Ela teve, como muitas outras, algumas divergências no início, mas soube se adaptar bem e propor um ótimo projeto, mostrando a importância de estar aberto a novos desafios e de trabalhar em equipe. Mostrou também a importância de conjugar a técnica com as necessidades da sociedade. Foi uma oportunidade de contribuir com a construção de protótipos e de modelos de negócio, tivemos a chance de aprender muito com todas as pessoas.”

Hugo Santos, engenheiro de petróleo do Centro de Pesquisas Petrobras