A Má-fé: uma mentira de si para si e suas implicações éticas

No que diz respeito ao conceito de má-fé, dentro das peculiaridades do ser humano, uma pergunta conduz a discussão de Sartre: “[…] o que deve ser o homem em seu ser para que ele seja possível de se negar?” (SARTRE, 1943, p. 85). Para compreendermos essa pergunta, é importante ressaltar que a noção de má-fé não se refere, exclusivamente, com uma mentira de si para si; a má-fé será considerado como um problema ético devido a sua aplicação no plano da ação.

Ontologicamente, segundo Sartre, nossa consciência possui a propriedade de negatividade, uma vez que, a consciência pode apreender certos objetos e conferir um estatuto qualitativo em seu para-si. Ou seja, a consciência humana, exposta n’O Ser e o Nada, tem a capacidade de nadificar os objetos por ela apreendidos. É através de uma nadificação que o escravo vê alguma saída de seu amo (SARTRE, 1943, p. 86). Sobre isso, Sartre nos apresenta um exemplo: “Há o mesmo com os homens (guardiões, vigilantes, carcereiros, etc.) em que a realidade social única é a do Não, que viverão e morrerão sem ter sido jamais outra coisa que o Não sobre a terra.” (SARTRE, 1943, p. 85). Isto é, quando tais homens estão no exercício de suas funções, o olhar que eles dirigem à realidade é um olha negativo, um olhar de “não pode passar ninguém para esse lado” ou “não pode haver ninguém fora das selas”. Quando algo que não corresponde a essa negatividade no plano fenomênico desses tipos de homens, uma ação será realizada devido as respectivas proporções.

Contudo, o exemplo dos vigilantes é uma aplicação da negatividade em seu âmbito exterior, de modo que, o grande problema da má-fé é quando essa negação se volta para si em vez de se dirigir para fora. Sabemos que o papel do carcereiro é vigiar os presos nas celas, de modo a garantir que eles continuem em suas respectivas selas. No entanto, um preso realiza uma espécie de acordo com o carcereiro para que ele possa fugir em um determinado horário. No momento combinado, o detendo sai e o carcereiro finge que não viu nada. Essa atitude do carcereiro pode ser categorizada como uma atitude de má-fé.

Visto isso, afirma Sartre sobre esse tipo de conduta: “Nós aceitamos que a má-fé seja mentira de si, para a condição de distinguir imediatamente a mentira para si da mentira comum. […] Mas esta negação não cai sobre a consciência, ela só atinge ao transcendente” (SARTRE, 1943 p. 86). Dessa maneira, a mentira realizada na conduta de má-fé não é igualada a uma simples mentira, a mentira da má-fé refere-se sempre a algo que não é o sujeito da ação. Contudo, esses dois tipos de mentira compartilham de uma mesma essência a qual “[…] implica, com efeito, que o mentiroso esteja completamente a par da verdade que ele se esquiva.” (SARTRE, 1943, p. 86). Com efeito, em caso de engano e erro, não será configurado mentira, por exemplo, quando se pergunta a um aluno de filosofia: “Quem veio primeiro Hegel ou Marx” e ele responde Marx, esperamos que este aluno tenha se enganado. Pois, o ideal do mentiroso, de acordo com Sartre, seria “[…] uma consciência cínica, afirma em si a verdade, negando-a em suas palavras e negando para si mesmo essa negação.” (SARTRE, 1943, p. 86). Uma aplicação disso, é quando levamos o carro no mecânico e ele afirma que só mexeu no respectivo problema, mas na realidade alterou algumas partes da mecânica no carro, de modo que, provavelmente, o carro volte a dar algum tipo de problema em pouco tempo para retornarmos ao conserto.

Esta conduta de mentira presume “[…] minha existência, a existência do outro, minha existência para o outro e a existência do outro para mim.” (SARTRE, 1943, p. 87, grifo do autor). Ou seja, o mentiroso quando executa a mentira, seja em seu âmbito exterior ou interior, presume a existência do Outro e toda a ontológica inerente ao ato mentiroso, de modo que, o mentiroso é totalmente consciente e responsável pelo seu ato. Em outras palavras, como sintetiza Sartre: “Melhor ainda, eu devo saber muito precisamente essa verdade para escondê-la mais cuidadosamente.” (SARTRE, 1943, p. 87, grifo do autor). Dessa maneira, visto que o ser humano possui plena consciência dos processos de mentira, tanto exterior, quanto interior, os quais dizem respeito ao Outro. Sobre isso, Sartre sintetiza:

Recorremos igualmente a uma outra duplicidade da realidade humana que nos expressamos grosseiramente dizendo que o seu ser-Para-si implica completamente um ser-Para-outro. Sobre uma qualquer de minhas condutas, ele é sempre possível de fazer convergir dois olhares, o meu e do outro. (SARTRE, 1943, p. 97).

Posto isso, é importante que retomemos a questão que conduz todo o exame da má-fé: “O que deve ser o ser humano em seu ser, para poder ser de má-fé?” (SARTRE, 1943, p. 94). A má-fé demonstra-se na ação humana como uma conduta. O carcereiro que fingiu que não viu o preso escapar, o mecânico que mente sobre o conserto do carro etc., realizam condutas de má-fé e por ser considerada uma conduta o exame se dificulta, pois, a conduta, seja de qual natureza for, “[…] não apresentará a mesma estrutura em um caso e outro.” (SARTRE, 1943, p. 97). Ou seja, o carcereiro que agiu de má-fé no exercício do seu trabalho representa algo em sua conduta, o qual não o é realmente. Quando esse carcereiro retorna ao seu lar ele é outra coisa além de ser carcereiro. Deste modo, como ficará a definição de ser humano? Pelo fato de não podermos definir o ser humano devida a multiplicidade de condutas que ele pode tomar, de modo que, todas sejam de maneiras diferentes, Sartre propõem uma constituição para a realidade humana: “[…] trata-se de constituir a realidade humana como ser que é o que não é e não é o que é.” (SARTRE, 1943, p. 97). Essa definição de realidade humana, é a única definição ontológica capaz de abarcar o fenômeno da má-fé, pois, se considerarmos o ser humano como aquilo que ele é “[…] a má-fé é para sempre impossível e fraqueza deixa seu ideal para se tornar seu ser.” (SARTRE, 1943, p. 98). Por exemplo, se ser humano fosse em suas ações éticas apenas aqui que ele é, ele agiria sempre de maneira sincera e verdadeira de acordo com aquilo que ele próprio se propôs a ser. Deste modo, consequentemente, seria excluído a noção de condição e situação, pois não faria sentido o contexto e o arranjos dos objetos mundanos na relação do ser-Para-si e ser-Para-outro. Logo, a verdade e sinceridade seriam o ser do ser humano e não fatores os quais o ser humano busca para uma boa relação com o Outro. Um dos maiores exemplos de Sartre sobre o caso da má-fé é o do garçom:

Vejamos esse garçom. Tem gestos vivos e marcados, um tanto precisos demais, um pouco rápidos demais, e se inclina com presteza algo excessiva. […]. Empenha-se em encadear seus movimentos como mecanismos, e ele assume a presteza e rapidez inexorável das coisas. Brinca e se diverte. Mas brinca de quê? Não é preciso muito para descobrir: brinca de ser garçom. (SARTRE, 1943, pp. 98–99).

O ser humano que realiza o papel do garçom, não é apenas, ontologicamente, ser-garçom, ele é mais, a própria realidade humana que o abarca institui que o garçom é mais do que garçom e, além disso, haverá sempre uma possibilidade de o garçom deixar de o ser e resolver, por exemplo, realizar um curso de filosofia. O ser humano que tem como condição trabalhar em um período do dia como garçom representa, apenas, o papel do garçom, pois: “A condição é uma ‘representação’ para os outros e para mim, o que significa que só posso sê-la em representação. Porém, precisamente, se represento, já não o sou: acho-me separado da condição tal como o objeto do sujeito […].” (SARTRE, 2015, p. 106). Dessa maneira, de acordo com o exemplo, pelo simples fato de ser humano se representar como garçom, significa que ele é o que não é e não é o que é. Por essas razões, não podemos definir um ser humano em sua totalidade como um ser humano de má-fé, pois ela se demonstrar por condutas, consequentemente, conduta implica liberdade e esta última não existe sem situação. Sobre a constituição da situação, afirma Sartre: “A situação não poderia ser subjetiva, pois não é nem a soma nem a unidade das impressões que as coisas nos causam: ela é as próprias coisas e eu mesmo entre as coisas […].” (SARTRE, 2015, p. 672). Logo, é de acordo com os arranjos das próprias coisas que constituem a situação, na qual a conduta de má-fé se desvela. Em uma situação uma pessoa pode falar a verdade e na outra ela pode mentir, por essa razão o ser humano não pode ser inteiramente de má-fé.

Com efeito, não se pode conceber noções éticas como má-fé e sinceridade a um ente diferente do humano, pois: “Se eu fosse um ser humano triste ou covarde assim como esse tinteiro é tinteiro, sequer seria concebível a possibilidade de má-fé. Não apenas não poderia escapar ao meu ser, como sequer poderia imaginar poder escapar.” (SARTRE, 2015, p. 113). Ora, um tinteiro é um objeto em-si que não pode escolher ser outra coisa além de sua própria condição. Em outras palavras, o tinteiro é o que ele é, contudo, o ser humano não é um tinteiro, logo definir o ser humano apenas com aquilo que ele é, dentro da proposta fenomenológica de Sartre, é absurdo.

Ademais, como ressaltamos, a conduta de má-fé implica que o sujeito minta para si mesmo sobre aquilo que ele não é, de modo que, para realizarmos uma acepção da má-fé é necessário à sua negação que é a fé. Para realizarmos agirmos de má-fé temos que nos persuadir sobre aquilo que não somos. O carcereiro que finge que não viu o detento fugir se convence para si mesmo sobre aquilo que ele não é e por isso ele consegue exercer o ato, pois ele se convenceu daquilo que ele não é, ou seja, o carcereiro tenta fugir daquilo que ele é. Deste modo, no que tange a noção de má-fé: “não há mentira cínica nem sábio preparo de conceitos enganadores. O ato primeiro de má-fé é para fugir do que não se pode fugir, fugir do que se é.” (SARTRE, 2015, p. 118). O ser humano que exerce a função de carcereiro, ainda no exemplo, é carcereiro naquele período e por sê-lo possui algumas atividades essenciais que o configuram como tal. Portanto, um carcereiro só pode fazer “vista grossa” para um detento quando se convence, naquele momento, que ele não é aquilo que é, por isso o sujeito executa o ato corrupto, por isso cai em má-fé. Pois, todas essas descrições constituem a realidade humana que definem o ser humano e possibilitam tais noções éticas: a consciência é o que não é e não é o que é. Em última análise, a ação humana é uma constância de contradição e paradoxo, a liberdade nos assusta e meu cigarro ao escrever esse texto está acabando, o que vamos fazer?

Referências

BORHEIM, G. Sartre: metafísica e existencialismo. Ed. 3ª. São Paulo: Perspectiva, 2011.

SARTRE, J-P. A república do silêncio. Trad. Rachel Gutiérrez. Fólio: Revista de Letras. Itapetinga — BA, n.1, v.1, 09 de set. 1944. Disponível em: <http://periodicos.uesb.br/index.php/folio/issue/view/4/showToc>. Acesso em 20 de jul. 2018

______. L’être et le néant : essai d’ontologie phénoménologique. Paris : Éditions Gallimard, 1943.

______. O ser e o Nada: ensaio de ontologia fenomenológica. Ed. 24ª. Trad. Paulo Perdigão. Petrópolis — Rj: Vozes, 2015.



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