O lugar da filosofia: esboços de uma fenomenologia malandra

Ao decorrer dos avanços científicos com diversas e extensas especializações nos campos do saber, a filosofia, em princípio, parece-nos que ficou para trás neste desenvolvimento. De tal modo, que nos dias atuais, aparentemente, a filosofia perdeu o seu caráter funcional, uma vez que, as reflexões sobre a física e biologia, sobre o ser humano e suas emoções passaram a ser executas por outros ramos epistêmicos. O saber que predominava tempos atrás, hoje encontra-se subalterno e obrigado a se submeter as atividades cujos fins estão em suas próprias atividades contemplativas, tal como a metafilosofia e a estética. Diante desta decadência (que poderá custar nossos empregos), resta-nos um recuo reflexivo sobre o que é a filosofia e se há um lugar para ela (que não seja a lata do lixo).

A filosofia exerceu e exerce um papel fundamental na história da sociedade. Sem ela não haveria ciência alguma, progresso algum e, talvez sem ela, a existência do ser humano seria mais insuportável. O emergir de um pensamento categorizado como científico passa por uma fase especulativa, na qual tenta encontrar-se algum galho que possa segurar-se. Pasmem, esse galho é a filosofia. Visto isso, dirão os opositores: “A humanidade desenvolveu-se a tal ponto que pensar sobre os princípios epistêmicos é perda de tempo”. No entanto, penso que a ciência é aquele filho rebelde “autossuficiente” que decide sair de casa as oito da manhã para desbravar o mundo, mas que sempre retorna todo arrebentado as seis da tarde para os braços da mãe. Tomemos como exemplo o avanço da física desde Aristóteles, quantas vezes essa “ciência” não se reformulou? E a cada reformulação lá estava a filosofia para receber o filho. Dessa maneira, onde estiver estabelecido, ou se estabelecendo, algum tipo de conhecimento, ali está a filosofia. Contudo, ressaltar que a filosofia está presente nos ramos do saber não é novidade, muito menos para um aluno de filosofia do primeiro ano que acredita piamente que será o próximo Kant. No entanto, é interessante analisarmos de que maneira a filosofia está presente nas outras áreas, pois o modo da filosofia diante delas tornou-se algo submisso. Notemos as denominações: “Filosofia da Ciência”, “Filosofia da Arte”, “Filosofia da Mente”, “Filosofia da Linguagem”, etc. Consequentemente, a preposição “de” estabelece uma ligação de subordinação, de modo que o sentido da “Filosofia” depende, necessariamente, do que vem depois. Heidegger em Introdução à Filosofia e Que é isto — a Filosofia?, já exaltava a independência e a potência da filosofia como diferente da ciência.

A filosofia atua como uma fundamentação dos demais desdobramentos do conhecimento, logo não é atualização dos ramos epistêmicos, como a física e a biologia, que alteram a filosofia, mas sim a filosofia por estar em constante transformação que causa a mudança na ciência. Dessa maneira, podemos atribuir à filosofia o estatuto de pressuposto transmutável, de modo que, torna-se incoerente algo que determina ser determinado por algo que depende de uma especulação filosófica para se fazer existente. A filosofia não é uma técnica de sua própria ramificação, uma vez que, em relação aos outros saberes, ela é algo tão abrangente e independente que consegue reformular-se sem a interferência de uma ciência. O único fator que afeta a estrutura da filosofia tangencia o âmbito epistêmico e passa a envolver o âmbito humano em seus aspectos mais pragmáticos, isto é, nas convivências rotineiras da sociedade, a qual envolve dilemas éticos.

Ressaltado o caráter independente da filosofia perante suas derivações, cabe-nos argumentar sobre como a filosofia atua no âmbito humano, mas para isso é necessário ressaltar a única medida e origem da filosofia, o ser humano. Sem ele, a filosofia não teria sentido e sem a filosofia o ser humano não encontraria meio para continuar vivendo. Um é justificação do outro, um é complementação existencial do outro. O que é uma chave grifo sem o encanador? Não seria a chave grifo refém do encanador para encontrar sua função? E, reciprocamente, não seria inerente ao encanador a utilização da chave grifo para se fazer encanador? Deste modo, a filosofia é a justificação e mediação do ser humano e, por conseguinte, dos seus atos. É através da filosofia que a existência do ser humano faz sentido em uma relação de subjetividade e exterioridade. No domínio da subjetividade temos a autorreflexão, as áreas com fim em um movimento fenomênico ou não, determinadas pelo sujeito que reflete, tal como a arte, estética e a metafilosofia; no plano da exterioridade estão as áreas influenciadas e compostas pelas relações com o outro e a sociedade que o engendra, como a política, história, ética etc. Diante disso, a filosofia somente como justificação não basta, é imprescindível a pensarmos também como mediação, pois, a interação do sujeito com outros indivíduos simboliza a existência de outros que, por sua vez, também utilizam a filosofia como meio. Designa-se assim, para a filosofia, a capacidade de mediar através do seu uso, um acordo entre os indivíduos, isto é, um papel diplomático. Dessa maneira, definindo de modo simplório a filosofia, repetimos a pergunta: há um lugar para ela hoje? Se sim, qual?

Diante disso, a resposta é direta: Sim. Se há um lugar para o ser humano, consequentemente, há um lugar para filosofia. O ser humano utiliza o seu curto período de existência — que concordamos em o denominar de vida — da maneira que quiser, mas para isso ele precisa da filosofia para se justificar enquanto existente. A filosofia é refém do ser humano e não de outro ente. A filosofia deve libertar-se da submissão de ser técnica de algo que não determina sentido na existência como a ciência. Chaves grifos são utilizadas por encanadores e não por marceneiros. Um marceneiro pode pregar uma tábua com a chave de grifo, mas ficaria torto, desajeitado. A mesma coisa é a ciência utilizando a filosofia. Ou seja, a filosofia é a ferramenta do ser humano no próprio exercício da humanidade. O ato humano é precedido por uma ação filosófica que, por sua vez, é utilizada de maneira malandra para agir em consonância com a vontade de quem a manuseia, isto é, o ser humano no agir humano. A atitude do ser humano no manusear da filosofia qualificamos de razão. Sendo assim, para recuperar a filosofia de seu estatuto de submissão, é necessário que o ser humano tome consciência desse problema e a utilize de maneira digna, mas para isso é imprescindível que se analise a operação desta aplicação tão sutil e presente que é a Razão malandra.

Faz parte dos predicados da humanidade a criação de uma filosofia para seu processo de justificação. Antes do ato de do ser humano estabelecer o seu projeto de ser, tal como concebeu Sartre, há uma criação de filosofia como técnica, sobrevivência, modo de existir. Uma filosofia que se estabelece fenomenologicamente de maneira malandra. Algo que precise de interação, uma razão que não produz de maneira solipsista suas relações. Ao concebermos consciência e mundo como fatores originários, a qual se constitui a relação existencial, podemos esboçar que fenomenologia malandra é anterior à percepção humana da liberdade de Sartre, ao passo que transpõe a noção de mundo da técnica de Heidegger, pois, esta Razão malandra criou e controla a técnica. Dessa maneira, enquanto existir humanidade, enquanto esta não se descaracterizar, a filosofia existirá e essa existência terá um estatuto de uma fenomenologia malandra.

Referências:

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