Assista Black Mirror (e não diga que a sua vida é muito isso)

A mais nova mania do nerd tupiniquim é, também, a prova de que grande parte do povo daqui é preguiçosa e precisa de tudo na mão — ou no catálogo da Netflix.

Criada em 2011 por Charlie Brooker (que já havia discutido a nossa relação com a tevê em How TV Ruined Your Life), Black Mirror é uma série antológica britânica que discute, de uma maneira perturbadora, a influência da tecnologia na sociedade, seja nos dias atuais ou num futuro não tão distante. Tudo em um clima que remete a Twilight Zone e filmes como She, 2001 — A Space Odissey, Blade Runner, Eternal Sunshine Of The Spotless Mind e The Fifth Estate.

A liberdade dada ao showrunner foi essencial para que Black Mirror pudesse contar a história que quisesse, da forma que escolhesse. Não há um padrão específico: narrativa, fotografia, duração dos episódios; tudo depende do que irá ser apresentado. Como as histórias (aparentemente) não possuem ligação entre si, podemos escolher a forma de assistir, de acordo com o plot que mais agrada.

Diversos nomes conhecidos da tevê e do cinema passaram pela série: Jon Hamm (Mad Men), Hayley Atwell (Agent Carter), Bryce Dallas-Howard (Jurassic World) e Rory Kinnear (Penny Dreadful) são alguns dos exemplos do quanto vale a pena pensar naquela maratona básica do final de semana.

Black Mirror virou a cabeça de meio mundo na gringa. Entre 2011 e 2014, as duas primeiras temporadas foram ao ar no Channel 4 do Reino Unido e em diversas emissoras ao redor do globo — inclusive por aqui, no canal I.Sat. A terceira temporada foi anunciada em setembro de 2015 pela Netflix e liberada há pouco mais de um mês para os assinantes. É possível assistir, também, a todos os episódios anteriores, então não há motivos para preocupação.

Vale todo o hype?

Sim. E muito.

Logo no episódio piloto, The National Anthem, somos apresentados a uma situação que envolve a família real britânica, o primeiro-ministro, chantagem e uma porca. Polêmica pura, mas que ajudou demais a promover a série.

O terceiro episódio da primeira temporada, The Entire History of You, é considerado por muitos o melhor até hoje. A história, que mostra uma tecnologia capaz de gravar e armazenar cada momento das nossas vidas em arquivos de vídeo de alta resolução, é tão marcante que Robert Downey Jr. adquiriu os direitos para uma possível adaptação ao cinema.

Outros episódios que merecem uma atenção diferenciada são Be Right Back, que abre a segunda temporada, e o especial de Natal de 2014, White Christmas. O primeiro traz Hayley Atwell como uma mulher solitária que encontra em um aplicativo a forma de aplacar a dor pela perda do seu grande amor. Acredite, ela encontra e cura para todos os males da forma mais bizarra possível.

O segundo, que conta com Jon Hamm como protagonista, apresenta três histórias interligadas. Iniciamos a jornada vendo um homem que deseja ter mais sucesso em sua vida amorosa e busca conselhos com um especialista. Após, somos jogados em um mundo bastante confortável onde clones virtuais podem nos substituir nas tarefas do cotidiano que julgarmos necessárias. Terminamos o episódio em uma realidade onde o ato de “bloquear” uma pessoa pode ser aplicado, também, no mundo físico.

Os episódios da Netflix mantêm a qualidade?

Sim. Mas de uma forma diferente.

Há mudanças, mas nem todas elas incomodam. Ainda mais se o espectador levar em consideração que coesão nunca foi, em nenhum aspecto, o forte do seriado. Mesmo nas temporadas anteriores existem altos e baixos. Mas vamos deixar claro: Black Mirror, quando é abaixo da média, ainda é melhor que a grande maioria das coisas que você irá encontrar por aí.

O episódio de estreia da terceira temporada (ou quarta, se você for como os britânicos, que encaram o especial de Natal como uma temporada inteira) foi muito bem escolhido. Nosedive é um tapa na cara da geração alimentada por likes e retweets. Um alerta sobre como estamos dependentes da aprovação de terceiros nos dias atuais, seja ela concedida no mundo real ou no mundo virtual.

Outro episódio que mais chamou a atenção deste colunista foi Hated in the Nation, o último da temporada de estreia na Netflix. Nele, um hacker consegue tomar o controle da imensa população de abelhas cibernéticas que ajudam a resolver problemas ambientais no Reino Unido. O resultado, obviamente, não poderia ser pior: uma série de assassinatos ligados ao ódio que as pessoas destilam “xingando muito” no Twitter.

A Netflix não piorou Black Mirror. Há, realmente, uma mudança de cenário e uma preocupação em abranger públicos diferentes, mas nada que tire a graça do espetáculo. Os fãs podem ficar tranquilos, pois ainda teremos mais algumas temporadas para apreciar todo o potencial destrutivo que o ser humano dá para suas próprias invenções.

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