Gafe histórica revela escolha “política” do Oscar por dividir prêmios de filme e direção

Recordista de indicações no Oscar 2017, o musical “La La Land” começou a premiação, que aconteceu neste domingo (26), em Los Angeles, perdendo alguns prêmios iniciais para filmes como “Até o Último Homem” e “Manchester À Beira-Mar”. Com o andar da premiação, o longa de Damien Chazelle foi ganhando e chegou a seis estatuetas: diretor, atriz, canção original, trilha sonora, fotografia e design de produção.

O filme, no entanto, acabou fazendo história do jeito que nenhum dos seus idealizadores esperava. “La La Land” foi o vencedor do Oscar de melhor filme por pouco mais de dois minutos. Depois do anúncio, feito pela dupla Faye Dunaway e Warren Beatty, de “Bonnie & Clyde”, revelou-se uma gafe histórica, cometida pela empresa responsável pelos resultados, que assumiu ter trocado o envelope dado aos apresentadores.

Com o erro esclarecido, “Moonlight” foi consagrado o melhor filme da premiação. O resultado oficial, contudo, revelou que, assim como em outras oportunidades, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood optou novamente pela “política da boa vizinhança” para, assim, distribuir mais os prêmios principais.

Apesar de ótimo filme, como, inclusive, já disse aqui no blog, “Moonlight”, tentando seguir uma coerência, não deveria ter sido o longa escolhido pelos votantes, afinal, mais cedo foi revelada que a escolha da Academia para melhor diretor era a de Damien Chazelle. Como o melhor diretor não dirigiu o melhor filme? Ou, como o melhor filme não foi feito pelo melhor diretor? A ordem dos fatores não altera o resultado final, cuja resposta é: política!

Não foi, no entanto, a primeira vez que isso aconteceu. Em anos anteriores, seja lá por qual motivo for, outras produções tiveram que dividir os prêmios de melhor filme e direção e não fizeram a tão sonhada “dobradinha” do Oscar.

2016 — Melhor Filme: “Spotlight” / Melhor Diretor: Alejandro González Iñarritu (“O Regresso”)

Ignorando George Miller e “Mad Max — Estrada da Fúria”, os melhores diretor e filme indicados no ano passado, o Oscar entregou primeiro o prêmio de direção para Iñarritu, que, na falta do reconhecimento de Miller, era o segundo mais merecedor. O trabalho excepcional do diretor em “O Regresso”, no entanto, não foi suficiente para fazer uma “dobradinha” e a Academia escolheu o jornalístico “Spotlight” para entregar a estatueta principal, um filme que desperdiça um tema interessante com uma direção pouco inspirada e um roteiro que não valoriza a trama. É, com certeza, um filme que o tempo encaminhará ao esquecimento.

2014 — Melhor Filme: “12 Anos de Escravidão” / Melhor Diretor: Alfonso Cuarón (“Gravidade”)

Elogiado e apontado como o favorito durante toda a temporada de premiações daquele período, Alfonso Cuarón acabou se confirmando o vencedor do Oscar por “Gravidade”. O drama de época do negro livre que é vendido como escravo, no entanto, foi mais forte do que a história de isolamento espacial de Cuarón, que não teve a chance de comemorar, também, o fato de ter dirigido o “melhor filme”.

2013 — Melhor Filme: “Argo” / Melhor Diretor: Ang Lee (“As Aventuras de Pi”)

Que Ben Affleck é péssimo ator, isso já é bem perceptível. Mas, como diretor, é possível dizer que ele tem um trabalho correto, ainda que não seja nenhum gênio, como em “Argo”, o vencedor do Oscar de melhor filme em 2013. Antes do anúncio, no entanto, ele havia perdido o prêmio para Ang Lee, reconhecido pelo desempenho na direção de “As Aventuras de Pi”. Não foi dessa vez que Affleck foi reconhecido como diretor, mesmo estando à frente do escolhido como melhor filme da noite.

2006 — Melhor Filme: “Crash” / Melhor Diretor: Ang Lee (“O Segredo de Brokeback Mountain”)

Considerado um dos mais controversos dos últimos anos, o Oscar de 2006 consagrou “Crash” como o melhor filme, o que, posteriormente, gerou diversos comentários de que o longa teria sido superestimado pela Academia. Alguns, no entanto, viram na decisão uma forma encontrada pelos votantes para evitar que um filme de temática gay fosse o vencedor da principal estatueta da noite. As dúvidas sobre isso só aumentaram com a escolha de Ang Lee como melhor diretor pelo mesmo “O Segredo de Brokeback Mountain”, evitado na categoria mais esperada do prêmio.

2003 — Melhor Filme: “Chicago” / Melhor Diretor: Roman Polanski (“O Pianista”)

Último musical a vencer o Oscar de melhor filme, “Chicago” saiu consagrado pela Academia, em 2003, mas o mesmo não se pode dizer do diretor Rob Marshall, que viu a estatueta de melhor diretor escapar por entre os dedos e ir parar nas mãos de Roman Polanski, responsável pelo drama de guerra “O Pianista”. Mais uma vez, prevaleceu a teoria de que o melhor filme não teve o melhor diretor. Vai entender…

2001 — Melhor Filme: “Gladiador” / Melhor Diretor: Steven Soderbergh (“Traffic”)

“Gladiador”, de Ridley Scott, foi o filme mais festejado daquele ano e, por isso, levou o Oscar principal para casa. A “dobradinha” tão esperada, mais uma vez, não aconteceu, uma vez que os votantes escolheram agradar, também, outra produção e premiar Steven Soderbergh como o melhor diretor por “Traffic”. O épico estrelado por Russell Crowe teve que se conformar em não levar esse troféu da cerimônia.

1999 — Melhor Filme: “Shakespeare Apaixonado” / Melhor Diretor: Steven Spielberg (“O Resgate do Soldado Ryan”)

1999 é o ano da controvérsia, quase todas relacionadas a “Shakespeare Apaixonado”, um filme medíocre alçado à glória e escolhido o melhor da premiação. Por conta disso, o Oscar foi alvo de muitas críticas daqueles que esperavam ver “O Resgate do Soldado Ryan” como o grande filme da noite. Para tentar “equilibrar” as coisas, a Academia decidiu dividir os prêmio e escolheu Steven Spielberg como melhor diretor. Coerência, pelo jeito, passou longe dos votantes.

1990 — Melhor Filme: “Conduzindo Miss Daisy” / Melhor Diretor: Oliver Stone (“Nascido em 4 de Julho”)

Apesar de ótimo, o sensível “Conduzindo Miss Daisy” é apontado como um injusto vencedor do Oscar de melhor filme, especialmente por concorrer com “Sociedade dos Poetas Mortos” e “Nascido em 4 de Julho”. Apesar de ser sustentado pelos votos da maioria, os mesmos votantes decidiram consagrar, também, Oliver Stone, por “Nascido em 4 de Julho” e, assim, tentar agradar mais.