Pequenos excessos não prejudicam qualidade dramática de “Lion — Uma Jornada Para Casa”

Erick Rodrigues
Feb 23, 2017 · 4 min read

A dramaticidade de um filme é construída a partir de diversos fatores, como roteiro, atuações, direção, trilha sonora, montagem e por aí vai. Dosar todos esses fatores, em busca de um resultado equilibrado e satisfatório, sem cair em clichês e exageros, é uma tarefa e tanto. Meu maior receio em relação a “Lion — Uma Jornada Para Casa”, indicado a seis prêmios no Oscar, é que a história real da criança que se perde da família se deixasse levar para tentação do melodrama barato para tentar conquistar o espectador. Felizmente, não é isso que acontece.

Os inseparáveis irmãos Saroo (Sunny Pawar) e Guddu (Abhishek Bharate) procuram, do jeito deles, ajudar a família, que vive em condições extremamente precárias na Índia. Enquanto Kamla (Priyanka Bose), a mãe deles, deixa os filhos em casa para trabalhar carregando pedras, os dois meninos decidem se aventurar em busca de um emprego. Uma viagem noturna de trem acaba cansando o pequeno Saroo, de apenas cinco anos, que é deixado em um banco da estação, enquanto Guddu segue a procura do trabalho.

No meio da noite, Saroo desperta do sono e procura pelo irmão. Sem sucesso, o menino decide voltar a dormir em um dos vagões estacionados na estação e, sem perceber, acaba sendo levado para longe pelo trem. Sem qualquer referência mais sólida sobre a região em que mora, ele chega a Calcutá e, diante do ritmo frenético da cidade, logo se perde e passa a perambular pela cidade.

Depois de se virar como pode e encontrar todo tipo de pessoa pelo caminho, Saroo vai parar em um abrigo para menores e, logo, é colocado para adoção. O menino chama atenção do casal John (David Wenham) e Sue (Nicole Kidman), que o leva para morar na Austrália e dá todas as condições para que ele tenha uma vida melhor.

Mais de 20 anos depois, Saroo (agora Dev Patel) descobre uma forma de procurar a família desaparecida na Índia. Ele decide usar as frágeis memórias da infância para, através do recém-lançado Google Earth, refazer seus passos e descobrir o local exato do vilarejo onde nasceu, o qual ele nem mesmo sabe pronunciar o nome direito. Uma das que mais incentiva Saroo a descobrir suas origens é a namorada Lucy (Rooney Mara). Mas, esse assunto inacabado mexe com o protagonista de tal forma, que abala o relacionamento amoroso entre eles, assim como o convívio familiar dele.

Dirigido por Garth Davis, “Lion” é bem sucedido em construir o drama do personagem central, sem qualquer excesso que leve a história real para um lado mais piegas. A construção da trajetória de Saroo é precisa, sem lançar mão de recursos narrativos apelativos e, em certa medida, tentadores, especialmente em se tratando de um drama infantil. Há, no entanto, alguns pequenos excessos, provocados pela sonorização e pela construção de algumas cenas, mas que em nada comprometem o resultado final.

Bem construído na primeira parte, que retrata a infância de Saroo, o roteiro acerta ao criar situações que evidenciam a fragilidade de um criança em meio a uma cruel realidade adulta. Nesse aspecto, a direção também escolhe um caminho correto, ao filmar sequências que parecem sempre ter a perspectiva do menino. É perceptível, contudo, que o filme perde muito da força na segunda metade, que trata da busca de Saroo pela família. Os acontecimentos são acelerados e muitas relações, como a do jovem com a namorada ou com a família adotiva, deixam a sensação de que poderiam ser melhor exploradas.

O grande nome do elenco de “Lion” é, sem dúvida, o menino Sunny Pawar, de um carisma impressionante. O olhar ingênuo e frágil do garoto faz toda a diferença em muitas das sequências da primeira parte da história. Indicado ao Oscar de ator coadjuvante, Dev Patel tem um ótimo desempenho, conseguindo externar todas as dúvidas e inseguranças do protagonista. Também indicada, Nicole Kidman tem bons momentos na história.

Sem ceder ao melodrama, apesar de pequenos e pontuais excessos, “Lion — Uma Jornada Para Casa” se mostra uma história equilibrada e bonita sobre uma criança perdida no mundo e um adulto em busca de suas origens. O longa só não é melhor pelo enfraquecimento da narrativa na segunda parte da trama, mas, ainda assim, vale o ingresso.

LION — UMA JORNADA PARA CASA

COTAÇÃO: bom

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