“Te Peguei!” é a prova de que nem toda história real pode se transformar em filme

Erick Rodrigues
Sep 2, 2018 · 4 min read

Criar ficções a partir de fatos não é nenhuma novidade, mas ganhou a estratégia ganhou evidência nos últimos anos, especialmente por conta de uma crise criativa na indústria cinematográfica, que tornou os enredos originais e inventivos produtos mais raros no mercado. Isso fez com que a frase “inspirado em acontecimentos reais” ficasse ainda mais corriqueira em dramas, aventuras e, até mesmo, nas comédias. É o caso de “Te Peguei!”, filme que procura o humor para contar uma inusitada história real, mas que só consegue provar que nem toda realidade pode se transformar em um longa-metragem.

O ponto de partida para a construção do filme é uma repórter, publicada no conceituado jornal The Wall Street Journal, que contava a história de um grupo de amigos que, mesmo depois de adultos, gostava de brincadeiras de pega-pega. O hábito, adquirido desde a infância, valia para manter a amizade deles viva, mesmo diante das necessidades da vida adulta, como trabalho, família e distância geográfica.

No longa, Hoagie (Ed Helms) é o principal interessado em reunir os amigos para a brincadeira de pega-pega, que sempre acontece no mês de maio. Desta vez, no entanto, ele alega ter um motivo extra para a brincadeira: o casamento de Jerry (Jeremy Renner), que vai abandonar a tradição dos amigos no ano seguinte à cerimônia.

Motivado pelas bodas de Jerry, Hoagie se reúne com Chilli (Jake Johnson), Kevin (Hannibal Buress) e Callahan (Jon Hamm) para irem juntos ao casamento e impedirem que o noivo deixe a brincadeira invicto. Desde criança, Jerry nunca foi pego pelos companheiros, usando acrobacias, agilidade e, até mesmo, violência, para ser o melhor na brincadeira.

Todos os aspectos da tradição dos amigos é acompanhada de perto por Rebecca Crosby (Annabelle Wallis), a jornalista do The Wall Street Journal que, a princípio dedicada a um perfil da carreira de Callahan como empresário, enxerga mais potencial na inusitada brincadeira. O que ela descobre é um ritual que envolve recordações, amizade, loucura, violência e competitividade.

Dirigido por Jeff Tomsic, “Te Peguei!” é o exemplo ideal para mostrar quem nem toda história real merece ser contada no cinema. Ainda que inusitada e até inspiradora para uma reportagem, a trama dos amigos que nunca deixaram de brincar de pega-pega mostrou não ter força suficiente para se manter interessante por mais de uma hora e meia. Repetitivo, o enredo acaba soando muito bobo por conta da abordagem do roteiro, que não empolga em nenhum momento e faz o espectador ter, no fim, a impressão de que perdeu tempo com aquilo.

Outro fator contribui para que o filme não decole: apesar de ser concebido como uma comédia, “Te Peguei!” não tem a menor graça. Exageradas, as situações criadas para “enfeitar” os acontecimentos reais e dar ritmo ao longa, na verdade, não conseguem arrancar risadas, nem mesmo as forçadas. Sem conseguir divertir com os diálogos bobos e situações pensadas para valorizar um humor mais físico, o filme apenas passa diante dos olhos do espectador, que consegue, inclusive, prever onde a narrativa quer chegar. O roteiro também desenvolve mal as piadas relacionadas aos esteriótipos dos personagens, como “competitivo”, “bem-sucedido”, “infantil” e “encostado”.

“Te Peguei!” só não é um desastre completo por conta do elenco, que, é necessário dizer, faz um trabalho competente diante da proposta absurda. Especialmente Ed Helms, Jon Hamm, Jeremy Renner e Jake Jonhson se entregam à proposta e imprimem verdade e carisma aos personagens, limitados pelo roteiro. Buscando outra qualidade do filme, vem à cabeça a trilha sonora, bem escolhida para pontuar a saga do grupo que tenta pegar Jerry pela primeira vez na brincadeira.

Em cartaz nos cinemas, “Te Peguei!” não empolga e tão pouco faz rir da brincadeira de pega-pega dos amigos adultos, que buscam preservar a ligação da infância. Essa história, inusitada sim, é preciso concordar, deveria ter ficado restrita à realidade retratada pela reportagem do jornal ou de qualquer veículo do gênero. Não havia força para sustentá-la como filme, que precisa divertir e manter a atenção do espectador por quase duas horas, algo que não acontece.

TE PEGUEI!

COTAÇÃO: ★ (ruim)

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