A importância de se respeitar os discursos-sobre-si dos outros

A identidade, assim como a realidade, é mais complexa do que tudo que falamos sobre ela

“Quem és tu?” Absolem the blue caterpillar

Existe uma lógica generalizante e totalizante que busca rotular as identidades a partir de rótulos bem definidos. Essa lógica ordenadora tem sido um empecilho a pensar as identidades como flexíveis, fluídas e mutáveis. Sabemos que identidades são construções sociohistóricas, e sabemos também que a pós-modernidade transforma conceitos outrora sólidos em líquidos. Ainda assim, pra muitos de nós é difícil respeitar os discursos dos sujeitos acerca de suas identidades. É difícil sair dessa lógica cartesiana e ordenadora.

Isso acontece, por exemplo, quando um homem se diz um “hétero curioso”. É muito provável que ele vire objeto de piadas, e as pessoas vão logo imaginá-lo como um “gay enrustido”. Entretanto, pode existir um “hétero curioso”?Alguém pode atestar que não existe nenhum homem hétero no mundo que possa ter, legitimamente, a curiosidade de se relacionar com outro homem?

Mas então esse homem continua a ser hétero? Mais importante do que dizer o que significa ser hétero é dizer o que significa dizer que se é hétero (já que a heterossexualidade é compulsória — todos são hétero até que se prove o contrário — , o que significa pra alguém se colocar enquanto hétero? Qual o ambiente em que essa declaração acontece? Qual a intenção da pessoa? Quais os resultados e consequências?).

As sexualidades possuem definições que não contemplam a construção (social, histórica e pessoal) delas mesmas. Segundo a definição, um homem hétero pode sentir prazer, até o fim de sua vida, apenas com outra mulher. Seria preciso então levar uma vida muito bem regrada nos seus amores e prazeres…

Seria impossível que uma mulher depois de anos de um péssimo casamento com um homem, decida então se relacionar apenas com mulheres e assuma uma identidade lésbica? “Ah, mas se todas as mulheres que se decepcionam com homens…” exatamente! Não estamos falando de todas, a questão é exatamente não criar uma receita, não generalizar.

“Ah, mas provavelmente ela era lésbica a vida inteira, e por conta do preconceito da sociedade teve de viver uma vida heterossexual, casar-se com um homem, etc.”. Sim, é provável que isso aconteça com um certa frequência. Mas será mesmo que alguém pode provar isso caso por caso? Podemos invadir e passar por cima da história, da vivência e dos discursos-sobre-si de uma pessoa para mantermos nossa ideia geral, nossos rótulos, nossa vontade ordenadora?

Passamos agora a pensar nas pessoas bissexuais. Certamente, muitas já ouviram que “estão confusas” ou isso é “apenas uma fase”. As pessoas que se dizem bissexuais são bissexuais e ponto. Apesar disso, existem pessoas confusas e existem pessoas que estão construindo sua sexualidade. Nossas vidas são processos de vir-a-ser, e isso não deve ser motivo de piadas, muito menos de generalizações, no campo da sexualidade. É possível estar confuso, é possível estar passando por uma fase, e você não é menor do que as pessoas com “sexualidade bem definida” por causa disso. É preciso respeitar o tempo e os processos que cada um passa.

É comum no discurso de homossexuais e bissexuais a ideia de que nascemos com essa sexualidade (born this way). Mas isso não é uma forma de defesa contra os discursos conservadores que dizem que em determinado momento da vida nós “viramos sapatão”, ou através da “ideologia de gênero” nós vamos “ensinar as crianças a virar gay”? Se esse discurso é apenas autodefesa, então é hora de deixa-lo de lado.

A minha identidade não pode se basear na defesa de uma “acusação”. A minha identidade deve ser a soma das minhas experiências, do que a sociedade me proporcionou e de como eu me posicionei ante ela, da autoimagem que construí e do meu “eu-real”. Assim como a realidade é mais complexa do que os discursos que fazemos sobre ela, a identidade também é. Não devemos, então, ter medo de entender as identidades enquanto processos, em toda sua complexidade e fluidez.

Vale lembrar que quem sempre tentou ordenar, organizar e rotular as sexualidades, foi a homofobia (vide Daniel Borrillo — O que é Homofobia). Que sempre tentou identificar porque pessoas possuem uma sexualidade diversa da norma, o que um homossexual tem de diferente de um heterossexual, o que faz de um homossexual um homossexual, como identificar geneticamente esses “desvios” sexuais, etc.

Sendo assim, toda forma de discurso totalizante acerca de uma sexualidade é prejudicial para nós. Ainda mais quando estamos falando de sujeitos historicamente silenciados, visto que falar sobre sexo em determinados ambientes ou para determinadas pessoas é um tabu. Então a hora de falar é agora. E também é hora de ouvir, e de se respeitar o que se ouve.

Portanto, deveria caber a nós a recusa a esse ordenamento (que é uma das propostas da homofobia), e a celebração da diversidade de sexualidades e identidades. Talvez um dia existam tantas identidades sexuais e de gênero que nós desistamos de contar e tentar organizá-las. Até lá, é preciso reconhecer o que as pessoas dizem de sua sexualidade. Talvez um dia iremos simplesmente aceitar que existem tantas identidades quanto seres humanos na Terra. E dessa forma, ninguém precisará se encaixar em algum termo pra dizer quem ou o que é: a cada um será dado a chance de ser ele mesmo, um ser humano único.


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