A tal da solidão do homem negro

Um processo de descoberta e aceitação do meu eu, e o encarar da realidade.

Foto de Robert Mapplethorpe

Quando todos tínhamos mais ou menos 15 anos e achávamos saber mais ou menos o que estávamos fazendo com nossa vida, meus amigos deram uma festa. Foi aquela noite que até hoje todos se lembram, um momento pleno de adolescentes fazendo histórias e usando drogas. Eu estava com minhas botas pseudo novas de brechó, minha camisa mais linda, o meu cabelo um primor. A festa foi ótima, é verdade. Terminamos na piscina, minhas botas quase destruídas, mas estava em mim uma sensação que eu guardei por anos. Eu havia sido rejeitado, mais de uma vez. Me sentia feio, desajeitado, entediante. Sentimentos que me afligem em maior ou menor grau até hoje. Eu sei que não sou horrível, apenas um pouco desajeitado e nem um pouco entediante, mas nem sempre nós conseguimos afirmar as coisas na frente do espelho, assim, tão facilmente, né? Porém, sentir-se rejeitado era minha sina. Hoje, me pergunto se aquela solidão e rejeição, aquele tesão enrustido, era a solidão negra de que falam e eu, à época, jamais imaginaria se referir a mim, uma vez que não era negro. Não me via como e, aparentemente, não era tratado como. A minha negritude nunca foi construída em mim, e essa é mais uma dor que sei que agora eu carrego.

Aos 16 anos, um homem mais velho tirou minha virgindade numa noite fria, estranha e nem um pouco romântica. Até hoje não sei ao certo o que me fez fazer sexo com ele. Na realidade, a resposta já me veio à cabeça mas sempre a considerei feia demais, absurda demais e baixo astral demais. E se nunca mais ninguém me quisesse da forma como ele me queria? Essa era minha oportunidade de colocar pra fora o tesão guardado, naquela fase que vocês sabem muito bem que jovens estão cheios de hormônios, como diria um amigo “fase do lobo que come até a vovozinha”. Me pergunto se me sujeitar àquilo tem algo a ver com a solidão do homem negro?

Vivi e aprendi certas coisas, deixei meu cabelo natural, tornei-me dono de mim, mas nem por isso tive mais forças pra enfrentar essas merdas que surgem quando a gente é fora do padrão. Aos 20 eu era o biscoito que a gente come quieto em casa. Um arraso na arte de chupar, lamber, morder, preparar café, dormir de conchinha, falar sacanagem. Não era, contudo, ideal pra ir ao parque, andar de mãos dadas no festival de música, dividir uma porção de amendoim entre beijos no bar. Demorei pra sentir isso, esse espaço reservado à casa. É o jeito dele, eu pensava. Ele é meio frio assim, mas faz amor gostoso, eu relevava. E me apagava. Pergunto-me se isso é a tal da solidão negra.

Hoje, aos 21, eu gosto do meu corpo, na maioria dos dias. Meu cabelo, meu nariz, minhas sobrancelhas, meus dedos, minha boca fazem sentido para mim. Minha negritude, mesmo que ainda em construção, existe. Não quero me sentir rejeitado, não quero me sentir ridicularizado. Eu preciso muito ser amado. Sinto tanta falta disso. Fui pra cidade grande, conheci novas pessoas, e sai da bolha de gente que só me via como o engraçadinho da turma, embora quando nervoso ou constrangido ainda solte uma piada e me coloque nesse papel.

Se tenho pleno controle sobre meu eu? Não. Se me amo todos os dias? Tampouco. Se deixei todos esses homens escrotos e brancos irem embora? Felizmente sim. Os homens negros com quem me relacionei sempre foram as relações mais harmoniosas e em pé de igualdade, e quero eu me sentir assim novamente. Antes de me reconhecer enquanto negro estava mergulhado na visão rasa e genérica que a sociedade nos impõe. À vocês, me desculpem, eu sou outro agora. À todas as manas negras, que sentem-se assim como eu, meu apoio e todo o amor que há em mim. Só nós sabemos o que é sentir-se assim, mesmo não existindo nada de errado com a gente.


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