“CORRA”, de Djonga, é o grito dos que foram silenciados.

Olha a revolta do nosso povo…

Djonga tem se destacado na cena do rap nacional desde o final de 2016, quando participou do primeiro “Poetas no Topo”, projeto do canal Pineapple StormTV. De lá pra cá, o artista tem feito um enorme barulho na cena do Hip Hop brasileiro.

Depois do álbum “Heresia”, lançado em 2017 e considerado um dos melhores álbuns do ano, Djonga causou estardalhaço em 2018 com “O Menino Que Queria Ser Deus” antes mesmo de lançar o álbum, criando polêmica através da sua capa, onde aparece pisando em um homem branco, enquanto se senta ao colo de uma mulher negra que se encontra na posição de Deus, revertendo até então a imagem cristã de “Deus Pai”.

O Menino Que Queria Ser Deus (Foto: @1993agosto e ONErpm)

“Corra” é a sétima faixa do álbum e fala sobre racismo. O nome da faixa, assim como sua introdução, fazem referência ao filme de terror psicológico “Get Out”, lançado em 2017 e que foi indicado ao Oscar nas categorias de “Melhor Filme”, “Melhor Ator”, “Melhor Diretor” e vencedor de “Melhor Roteiro Original”.

A letra é ácida e parece ser o diálogo de um casal preto que, ao longo da música, discorre sobre o racismo estrutural.

Amor, olha o que fizeram com nosso povo. Amor, esse é o sangue da nossa gente. Amor, olha a revolta do nosso povo. Eu vou, juro que hoje eu vou ser diferente.

A música conta com a presença de Paige, destaque do rap mineiro e que inclusive já fez parte da cypher “Rimas Gerais 2”, projeto que visa enaltecer a cena do rap de Belo Horizonte.

No clipe, Djonga aparece correndo, com vestes africanas e, atrás dele, em um telão, aparecem takes dos Partido dos Panteras Negras Para Auto-Defesa, além de imagens de guerras, de símbolos popularmente racistas e takes do rosto de Djonga transparecendo o desespero.

Éramos milhões, até que vieram vilões / O ataque nosso não bastou / Fui de bastão, eles tinham a pólvora / Vi meu povo se apavorar / E às vezes eu sinto que nada que eu tente fazer vai mudar.

“Corra”, assim como “Olhos de Tigre”, se posiciona então como um grito de desespero do povo que foi silenciado e, nesse caso, o “povo silenciado”, é o povo negro. O MC brilhantemente discorre sobre racismo, intercalando com a voz de Paige, enquanto constrói, em forma de lovesong, a ideia e importância do amor preto e da importância da pessoa preta para a outra.

Aquela noite eu te ensinei coisas sobre o amor / Durante o dia eu só tinha vivido o ódio

Entre as promessas de proteção presentes na canção, Djonga conta a história desde a colonização, o desespero do povo negro e indígena com a chegada do colonizador, até os dias atuais onde o povo negro tem um papel subalterno e sempre inferior ao branco.

Eles são a resposta pra fome / Eles são o revólver que aponta / Vocês são a resposta porque tanto Einstein no morro morre e não desponta / Vocês são o meu medo na noite / Vocês são mentira bem contada / Vocês são a p#rr* do sistema que vê mãe sofrendo e faz virar piada, p#rr*!

No fim do clipe, Djonga faz homenagem a algumas vítimas do genocídio negro que acontece no Brasil, onde um jovem negro morre a cada 23 minutos. Na homenagem aparece os nomes de Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro, defensora dos direitos humanos voltados para segurança pública direcionada ao povo negro, além de Patrick Silva, Sávio Oliveira, Matheus Baraúna, Marco Jonatha e Matheus Bittencourt, cinco jovens organizadores de um projeto social voltado para a cultura Hip Hop, assassinados em Maricá, Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

Direção: Haruo Kaneko ( Brwax ) e Rafael Carvalho 
Produção e Motion: Studio Curva 
Direção de fotografia: Haruo Kaneko e Igor Peticov 
Direção Executiva: Ceia ent.


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