Dar voz ao passado é também conhecer bem o presente

Entre tantas sofrências por ai, falar de sertanejo raiz é enaltecer a história desse tipo de música tão presente no Brasil.

Quando eu era pequena a Som Livre lançava umas coletâneas, uns copilados de várias músicas de sucesso, uma dessas chamava “Saudades do meu Sertão” que era de modão sertanejo, meu pai pediu de aniversário, demos a ele. Desde então tocava aqueles cds no som do fusca todos os dias, pra onde eu ia com meu pai, ia também a Cabocla Tereza, a Chalana, o Chico Mineiro, a Comitiva Esperança, amei aquelas músicas, mais ainda os momentos que elas eternizaram, surgiu ai, o meu amor por música sertaneja.

Tonico e Tinoco

A música sertaneja tem bem mais história do que a gente pensa, comecei a ler um pouco sobre e tentar entender como surgiu e foi ganhando espaço. Ela surgiu no começo da década de 20, com o Cornélio Pires (pesquisador, escritor, compositor, humorista) que estava pesquisando sobre “causos” e contos tradicionais brasileiros no interior de São Paulo, ele começou a gostar das histórias que estava escutando, e decidiu gravar algumas, e compartilhar por aí. Gostaram das gravações dele, ele divulgou, e começou aí. Um fato curioso é que apesar do nome sertanejo (nome dado a habitantes do sertão nordestino), não começou no Nordeste do Brasil, o nome é por ter começado com histórias originalmente produzidas e vividas na área cultural caipira/sertaneja.

De lá pra cá tem muita música caipira, tanta que a história do sertanejo foi dividida em fases. Inicialmente, segundo historiadores, existem três fases, de 1929 a 1944 (caipira e raiz); de 1945 até anos 60 (período de transição pós-Guerra) e final de 60 até agora (sertanejo romântico). Depois do romântico, tem o que a gente conhece como sertanejo universitário, mas ainda não é uma fase estudada e propriamente incluída na história, mas eu vou acrescentar aqui como quarta fase do sertanejo (me perdoem os estudiosos), última fase — do final década 2000 até hoje — o sertanejo universitário, que também tem espaço nessa longa história que vai da raiz caipira até o Villa Mix.

Renato Teixeira, Almir Sater, Sérgio Reis.

Cada fase tem seus cantores consagrados da época, a primeira traz Pena Branca e Xavantinho (Cuitelinho), Vieira e Vierinha (Peão de boiadeiro), esta fase é só da viola caipira com “causos” da época, fala da vida no mato, da natureza. A segunda fase vem com o Tonico e Tinoco (Chico Mineiro), Cascatinha e Inhana (Índia, Meu primeiro amor), Tião Carreiro e Pardinha (Pagode em Brasília, Rei do Gado), músicas que falam da vida de vaqueiro, agora com um leve traço romântico. Terceira fase já é propriamente romântica, entra os mais conhecidos Chitãozinho e Xororó (Fio de Cabelo, Evidências — hino brasileiro), Leandro e Leonardo (Não aprendi dizer adeus, Um sonhador), Zezé di Camargo e Luciano (É o amor), Trio Parada Dura (Telefone Mudo), Sérgio Reis (O menino da Porteira), Almir Sater (Comitiva Esperança), e mais um tanto de gente boa que nem dá pra enumerar aqui. E a quarta é o sertanejo universitário, cerveja, sofrência, amor, traição, 50 reais, de Guilherme e Santiago a Marília Mendonça, a fase atual.

Toda essa aula de história pra quê mesmo?

Pra dizer que sim, sertanejo tem diversas fases, muitos intérpretes, muita música boa, mas é legal também voltar ao passado e ouvir as modas de viola, os “causos” antigos, as toadas boiadeiras, aquela moda que te leva diretamente para um casinha branca no topo de um morro, ou para uma chalana no meio de um rio, aquelas histórias que você sente a verdade, se emociona, ri, fica assustado, mas de novo, sente a verdade, sente na pele como era aquele povo, aquela vida, aquele tempo. Tem até uma nostalgia boa de um tempo que você nem viveu, mas que de tão real nas canções dá vontade de ter vivido. Por isso a aula de história, pra mostrar que tem música sertaneja para todos os gostos, e tem mesmo, mas se a gente deixar pra lá um pouco essas que estão tocando na rádio todo dia pra dar um mergulho no passado, pode se surpreender.

E pode se surpreender também com gente nova que canta esse tipo de música, ainda tem gente (aleluia!) que gosta e está por ai cantando moda de viola, que é o caso do Edu Santa Fé, que recentemente participou do The Voice Brasil, além de regravar canções antigas, tem suas autorais que também são ótimas, vale a pena ouvir as músicas dele.

Tem quem já faz sucesso com sertanejo universitário mas fez seu “tributo” ao raiz, como João Neto & Frederico que tem um CD chamado Só Modão (2009), onde eles regravaram 19 músicas antigas, e contam ainda com participação especial do Eduardo Costa, Fernando & Sorocaba, entre outros famosos.

Pois é, sertanejo é também criação brasileira, como o samba, e merece seu lugar na história. Não só de amores perdidos e gente embriagada vive esse estilo, teve muita história bonita da vida de um povo que vivia no mato e fez pra este lugar poesias cantadas em modas que merecem ser conhecidas e enaltecidas. Entre Telefones Mudos e Boates Azuis, existe um mundo de músicas sertanejas pra gente se deliciar. Vamos começar?


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