O que a Globo entende sobre representatividade?

Uma análise sobre a tentativa da emissora em tornar-se inclusiva.

Ivan, personagem de “A Força do Querer”.

A atual novela das 9 da Rede Globo “A Força do Querer” de Glória Perez, aborda a transgeneridade através dos personagens Nonato (Silvero Pereira), mulher pobre que tem que trabalhar como motorista — e se comportar como “homem” para um empresário conservador e Ivana (Carol Duarte), um garoto branco da zona sul perturbado com algo que não sabia o que era até bem pouco tempo. Porém, quando conheceu Teresa, personagem vivido por Tarso Brant, ator transexual que serviu de inspiração para a criação da personagem Ivana por Perez, tudo mudou. Ivana se descobre um homem trans, e a novela foi muito bem sucedida na construção dessa narrativa, com diversas cenas onde Ivana, ou melhor, Ivan se mostrava incomodado com seu corpo e seu comportamento era motivo de julgamento pelos outros.

Apesar das críticas, tanto de conservadores quanto de militantes, o folhetim tem sido bem recebido pela massa, sendo responsável pela maior audiência no horário em anos. A produção contou com consultorias de pessoas trans para tentar não deslizar em senso comum e desrespeitar a comunidade (o que não me cabe julgar). Helena Vieira, escritora, pesquisadora e transfeminista foi convidada pela própria Perez a ajudar na construção dos personagens. Helena chegou a afirmar em entrevista ao Huffpost recentemente que a novela é importante, pois humaniza as pessoas trans, comumente retratadas em volta das drogas, do ridículo, da violência e da prostituição, “Não é simplesmente uma tragédia. Não é simplesmente para fazer graça. A novela tem essa importância porque opera no imaginário social.”.

À exemplo, Valéria do “Zorra Total”, personagem vivida por um ator cisgênero, é um modelo de travesti barulhenta, barraqueira e trambiqueira, que se tornou comum na TV após o fim da ditadura nos anos 1980.

Críticas à novela

O movimento trans, contudo, não foi unânime em seu julgamento da obra televisa. Apesar das consultorias e da supervisão próxima de pessoas transexuais, algumas pessoas críticas ao folhetim se posicionaram alegando que a Globo se “apropria” do tema para higienizá-lo.

Talvez ao ler isso, àqueles mais esperançosos como o futuro sejam imprudentes ao atirar pedras nas declarações de quem é contrário a narrativa. Todavia, analisando a representação LGBT na mesma Rede Globo de bem pouco tempo atrás, fica claro que a emissora não vem desempenhando o papel de “inclusiva” há tanto tempo assim, e o pior: continua a perseverar na desinformação em diversos sentidos, como o estímulo à violência entre mulheres, pessoas LGBT’s e negros.

Quanto à “higienizar”, a crítica se deve ao núcleo de Ivan ser de pessoas ricas, brancas, da elite, e que pouco representa a realidade de milhares de homens e mulheres trans que sofrem não só por sua identidade de gênero, mas também por sua situação de vulnerabilidade. O preconceito é forte com todos, mas aqueles que não tem casa, escolarização e emprego são os com mais chances de ir para as ruas se prostituir, uma vez que até 95% das travestis tenham que se prostituir no país (Associação Nacional de Travestis e Transexuais — ANTRA), ficando expostos à violência desenfreada.

Logo, que tipo de representatividade é essa proposta pela Globo? É difícil mensurar.

Os problemas da representação LGBT+ na mídia

Há anos gays, lésbicas e transgêneros são representados no audiovisual e, se antes eram apresentados de maneira caricata, afetada e preconceituosa, hoje há o esforço em apresentar outras narrativas, que construam uma identidade LGBT+ diferente do que foi feito até então. Entretanto, ao analisarmos personagens de minorias retratados em produções nacionais e também internacionais, vemos sempre que a história LGBT+ precisa ser trágica para ser válida.

Como Helena Vieira disse, a novela tem sim seu papel de construção da opinião pública, e Ivan é um personagem com seus méritos, contudo, caí na narrativa comum de associar pessoas LGBT’s ao sofrimento, a rejeição e problemas psicológicos e emocionais. E qual o problema disso? Para realmente humanizarmos pessoas, elas precisam parecer com problemas comuns aos outros, mostrando à sociedade que “esse tipo de gente” é como eles, com problemas, mas também trabalho, objetivos e sonhos.

O personagem Félix da novela Amor à Vida (2013) era rejeitado pelo pai, e por isso se tornou um vilão.

Ao colocar um homem gay rejeitado pela família, uma mulher lésbica estuprada por um homem na tentativa de torna-la “mulher de verdade”, uma mulher trans como alguém perturbado emocionalmente, a mídia diminui as chances de que o muro entre “eles” e “nós” caia, pois mostra personagens LGBT’s como possuidores de uma única narrativa. Como disse a escritora nigeriana Chimamanda Adchie certa vez;

“A única história cria estereótipos. E o problema com os estereótipos não é que eles sejam mentira, mas que eles sejam incompletos.”

O Ivan, da novela da Globo, tem seu papel na atual tendência do mercado audiovisual em retratar minorias. Não é ruim, pelo contrário, contribui para o debate na sociedade e estimula novas produções com a temática. Mas não podemos, contudo, afirmar que a Globo é inclusiva. Inclusão de verdade é criar personagens de minorias, independentemente de suas histórias trágicas, além, é claro, de incluir esses profissionais em seu quadro de funcionários, em todas as etapas de produção.

Poderemos comemorar de verdade apenas quando um beijo entre dois homens ou duas mulheres não for questão de comoção nacional, e sim natural. Quando personagens de minorias estiverem representados nos mais diversos papéis, mostrando complexidade e narrativas autênticas, e não uma única história. Aí sim, teremos motivos para comemorar de verdade e saberemos se a Globo não está apenas surfando na onda do momento. Por enquanto, vamos fazendo nossa papel de críticos da web, pois a militância não pode parar.

E aí, qual sua opinião sobre o tema? Curta esse post e deixe o comentário abaixo e vamos discutir!

Pra se informar mais:

Como “A Força do Querer” trouxe o debate sobre transgêneros ao horário nobre da televisão: http://www.huffpostbrasil.com/2017/07/31/como-a-forca-do-querer-trouxe-o-debate-sobre-transgenero-ao-ho_a_23058614/?utm_hp_ref=br-lgbt

Bem-vinda, qual seu gênero? http://azmina.com.br/2017/02/bem-vinda-qual-o-seu-genero/

O mundo nas palavras trans / Amara Moira https://www.youtube.com/watch?v=WYBkm-9P93E

Chimamanda Adichie — Os perigos de uma história única: https://www.youtube.com/watch?v=ZUtLR1ZWtEY

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