Quando vamos nos preocupar com cultura?

A destruição do Museu Nacional expõe a falta de visão que nossas elites estão mergulhadas.

Antonia Moreira
Sep 4, 2018 · 3 min read

Parece que o tempo passa e nós brasileiros ficamos parados em algumas demandas sociais: fim da corrupção, saúde e educação. Se você assistir qualquer um dos vídeos da campanha “o Brasil que eu quero”, quadro promovido pela Rede Globo, onde cidadãos do país todo compartilham com a emissora seus anseios para o futuro, perceberá que as pautas sempre rodam nesse tríade.

Eu não vejo problema nisso, exatamente. De fato, a saúde pública brasileira vive em calamidade (apesar de um sistema único de saúde referência no mundo, que pouca gente defende), a educação é deixada de lado governo após governo e a corrupção… bem, complicado.

Mas o que o incêndio no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, expõe, é uma falta de planejamento para a cultura no país. E a grande massa ainda, infelizmente, não consegue ver a cultura como área fundamental para geração de emprego, transformação da educação e incentivo à novas formas de economia.

A cultura é tudo, e a perda do Museu Nacional representa um grande abalo na nossa identidade enquanto brasileiros: um pouco de nós queimou junto àquele palacete. E isso nunca terá concerto.

Para ter uma ideia do quanto a cultura é negligenciada no nosso país — mesmo que nem precisemos de mais exemplos— a agência Lupa levantou que dos 13 candidatos à presidência, só 2 possuem plano de governo com referência à preservação dos museus, Marina Silva (REDE) e Lula (PT). 7 candidatos mencionam a cultura de forma genérica, e 4 nem sequer isso.

Ou seja, a cultura é ainda deixada em segundo plano, completamente fora da pauta. Pensando em exportação cultural, o Brasil é ínfimo em relação a países da Europa, América do Norte e Ásia. Países asiáticos, inclusive, como a Coréia do Sul, notaram lá atrás que a cultura, além de importante referencial de identidade nacional, história de um povo, etc. é também um produto que pode ser exportado. É só olhar para o Kpop, que domina o mundo hoje e foi incentivado desde o início pelo governo coreano.

No Brasil, não temos uma visão tão ousada assim.

Outro exemplo. Faço parte de um coletivo em Campinas, o Ateliê TRANSmoras. O Ateliê é um espaço de convívio, visibilidade e empreendedorismo LGBTQIA+. Por lá, as manas exploram a economia criativa e empreendem a partir de suas expressões culturais. Geram renda, compartilham conhecimento com a comunidade e transformam o seu local.

É uma demonstração de como a cultura pode ser trabalhada de forma consciente, com objetivos. Algo que o país, enquanto Estado e nação, ainda não conseguiu projetar.

Nossas elites econômicas e políticas simplesmente não se dão ao trabalho de explorar ao máximo nossas potencialidades nesse campo. E nós, enquanto cidadãos comuns, estamos mergulhados em pautas genéricas que não nos permite refletir sobre as potencialidades do nosso país.


A destruição do Museu Nacional é um pouco da morte que cada brasileiro experimenta há alguns anos, entretanto, não pode ser motivo para desmotivar ou jogar os museus à iniciativa privada. É hora de lutar pela nossa cultura, expressões artísticas e história. É hora de pautar isso, e cobrar do próximo governo um plano claro sobre o incentivo à cultura, a preservação da manifestações e instituições culturais e o fomento de iniciativas empreendedoras na área.

Que essa tragédia não caia no esquecimento, e que a lamentação não seja só isso: manifestações vazias de luto.


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Antonia Moreira

Written by

Comunicação, Ativismo e Histórias. Integrante @Ateliê TRANSmoras. Bixa Travesty.

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