‘Bingo, o rei das manhãs’: a TV brasileira dos anos 80 sem nenhuma censura

Vladmir Brichta não poderia brilhar mais em qualquer papel como no de Arlindo Barreto, o famoso palhaço Bozo, sensação nos anos 80

PITACO NOVO
Aug 22, 2017 · 4 min read
É inegável que um dos ápices do filme é o encontro do então palhaço Bozo e a musa Gretchen (Imagem: Reprodução)

Arlindo Tadeu Barreto Montanha de Andrade, ou simplesmente Arlindo Barreto é um dos nomes por trás do palhaço Bozo, que brilhou no coração e nos aparelhos de televisão de milhares de crianças em meados dos anos 1980 no Brasil. Com a atuação de Vladmir Brichta e Leandra Leal e sob direção de Daniel Rezende (indicado ao Oscar por Cidade de Deus e com um prêmio de montagem por Tropa de Elite 2) e roteirização de Luiz Bolognesi (de Bicho de Sete Cabeças e As Melhores Coisas do Mundo), a produção do longa não poderia estar em melhor mãos.

A controversa história do palhaço vai de filho de uma atriz renomada, Márcia de Windsor (amiga da atriz e musa Leila Diniz e jurada de um programa de televisão até final dos anos 70) à astro de mais de 25 pornochanchadas, chegando a casar-se, inclusive, com a atual dona da empresa memes da internet brasileira Gretchen. À época, Arlindo fez o teste para interpretar um palhaço na numa versão tupiniquim do palhaço Bingo, que fazia a alegria da meninada nos Estados Unidos, para a então TVS (que viria se tornar o SBT mais tarde). Irritado com a maneira como o produtor gringo tratava os outros palhaços, o jovem ator que não conseguia nenhuma outra proposta para outros filmes além de pornôs, inclusive sendo rejeitado pela Rede Globo (no filme, nomeada Rede Mundial) resolveu irritar a produção — e acabou ganhando a risada dos produtores e a atenção como uma possível estrela maior no programa infantil.

O filme impecável na cenografia e na representação da cultura pop brasileira nos anos 80

O então jovem Arlindo foi longe: trabalhava em período integral como aprendiz de palhaço e como apresentador do programa. A partir daí, a história do palhaço às avessas só decolou. Ganhou o primeiro lugar de audiência pela manhã nas televisões brasileiras e angariou três discos de ouro e cinco troféus Imprensa. Tudo sob anonimato do palhaço Bozo, uma vez que não podia revelar sua verdadeira identidade por conta do contrato firmado com a empresa estadunidense. A fama, refreada pelo fato de que não poderia revelar seu nome e pelo afastamento do seu filho do excesso de uso de álcool e outras substâncias ilícitas, foram a derrocada do palhaço. É aí que o filme tem seu maior mérito, pois representa de maneira bruta e até de certa forma meio cruel para uma nova geração que nasceu com uma mentalidade mais clean com relação a temas como gênero e representação social.

A atriz Emanuelle Araújo foi escolhida para interpretar a Gretchen jovem no filme. (Imagem: Divulgação)

Bingo, o Rei das Manhãs não deixa de lado quase nenhuma crítica com relação à realidade do mundo do entretenimento naquela época. Apesar de trabalhar com o público infantil, o ator do palhaço Bozo viveu uma vida regada a drogas, álcool, mulheres e muita subversão, natural para uma sociedade que estava começando a viver uma liberdade desenfreada por conta do liberalismo econômico e de um estilo de vida pouco regrado, que só viria a mudar com a disseminação de doenças como o HIV e culminaria na morte de muitos ídolos daquela juventude.

A vida de Arlindo mudou quando casou-se com a sua produtora e resolveu investir sua carreira como palhaço em igrejas evangélicas. (Imagem: Divulgação)

O filme, mais do que apenas a representação da biografia de Arlindo, é praticamente impecável na cenografia e na representação da cultura pop brasileira nos anos 80. Embalado por ritmos que tomavam conta das rádios e dos programas de televisão, a trilha sonora não deixa nada a desejar. É até interessante notar como a produção se assemelha à da série norte-americana que fez sucesso na plataforma de streaming Netflx Glow. Além da montagem impecável e de referências que são memoráveis a qualquer pessoa que tenha vivido na época, o roteiro apenas peca pelo maniqueísmo e pela dubiedade da história de Arlindo que, ao fim da sua jornada, vira um pastor de igreja.

É claro que não há como negar que o biografia do palhaço é uma narrativa um tanto peculiar, porém isso poderia ter sido tratado de maneira um pouco mais sutil ao final do longa. Sob a excelente produção de Caio Gullane e Débora Ivanov, com distribuição da Warner Bros. Pictures o filme tem tudo para ser um dos brasileiros mais assistidos nesse semestre, além de ser uma ótima referência para a cultura da televisão brasileira nos anos 1980, algo que infelizmente ainda é escasso nas grandes produções. Afinal, Brazil is not for beginners.

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