Pedaços De Um Caderno Manchado De Vinho (Bukowski, Charles)

“Tudo não passava de um ritual de não fazer, não machucar, não aguardar.”

Em 2016, especificamente no primeiro dia de janeiro, o Pitacos Culturais acabou de completar três anos. Esse foi, sem dúvida nenhuma, o projeto que me deixou mais responsável, mais experiente e mais apaixonada pela literatura. Depois de tantas outras ideias fracassadas, incluindo um canal no Medium e diversos outros blogs, devo admitir que só mesmo o Pitacos pra fazer com que eu superasse todas as minhas limitações (também conhecida como preguiça, rsrs).

“Mas foque no presente, pensou, nunca deixe a paixão deformar o momento. A paixão, disforme, é um sinal de inferioridade!”

Ao todo, são 129 livros resenhados com muito carinho. E o melhor de tudo: do jeito que eu sempre quis. Sem pressão, sem pressa, sem a necessidade de sair divulgando o link por aí, sem compartilhar nos meus perfis pessoais (tenho muitos amigos que nem sabem da existência desse blog) e sem a interferência de ninguém. O Pitacos Culturais, na verdade, foi feito só pra mim, mas fico feliz em saber que ele está sendo útil e divertido para muitas outras pessoas. As estatísticas têm me deixado muito feliz e só tenho a agradecer.

“Estou morrendo sem estar doente, estou morrendo de uma existência fria demais para resistir. Olho através de uma janela para a luz de um dia terrível, que embrulha meu estômago. Ninguém mais se sente assim? Estarei completamente louco?”

Bom, pra começar o ano com pé direito (e mais clichê impossível), escolhi o meu autor preferido: Charles Bukowski. Dessa vez, a leitura foi especial: estava com saudades do meu querido velho safado. Ou seja, os sentimentos dentro de mim fizeram com que a experiência fosse uma das melhores, mesmo que eu não seja muito fã de contos.

“Talvez a maior conquista do homem seja sua habilidade para morrer, e sua habilidade de desconsiderar tal fato. […] Sejamos honestos de uma vez por todas, a verdade não é o que de fato importa — frequentemente é deixar a verdade de lado.”

Pedaços De Um Caderno Manchado De Vinho é um conglomerado de contos escritos desde o início da carreira até alguns anos que antecedem a sua morte. Os assuntos, dessa vez, são ainda mais variados: além da clássica temática sobre sexo, mulheres, trabalho e bebida, esse livro traz um Bukowski filosófico, discutindo inclusive sobre política, literatura e tudo o que envolve o universo americano e também de Los Angeles.

“A razão pela qual o público não entende poesia é porque não há nada para entender, e a razão pela qual a maioria dos poetas escreve é porque eles acreditam entender. Não há nada a ser compreendido ou “recuperado”. É simplesmente para ser escrita. Por alguém. Algum dia. E não com muita frequência.”

Quem nunca se arriscou numa leitura do velho Buk precisa saber de algumas coisas antes: ele é um escritor que fala sobre a vida, principalmente sobre o lado ruim dela. Sim, eu sei que a realidade machuca, mas se você busca um romance que te faça lacrimejar, já te aviso que isso é uma cilada. Mesmo sendo intitulado como romancista, é importante ressaltar que o Bukowski é realista: fala da pobreza, da sua vida amorosa, do trabalho ruim, da situação financeira… Ele é a típica pessoa que conversa com você numa mesa de bar, o que pra mim o faz sensacional.

“Se você quer descobrir quem são seus amigos pode fazer duas coisas: convidá-los para uma festa ou ir para a cadeia. Você logo descobrirá que não tem amigos.”

De todos os contos em Pedaços De Um Caderno Manchado De Vinho, o trecho abaixo foi o que mais me chamou a atenção. Existe um lado político dentro de mim que não sabe como justificar as coisas que acontecem na minha vida. Eu sou aquela pessoa que costuma ficar em cima do muro ou de nenhum lado, mas nunca havia me identificado tanto com uma ideia como essa:

“Um homem com o mínimo de juízo na cabeça ou de sentimento no coração jamais deveria ir para a universidade, mesmo que pudesse pagar. Não há nada que ele possa aprender por lá, senão o que aconteceu na história das coisas com uma simples caminhada a qualquer momento por qualquer quadra da cidade. Deixe-nos dizer então que um homem vem ao mundo com uma certa noção que lhe é própria e que ele retém uma parte dela à medida que ele cresce em centímetros, em palmos, em anos. A universidade não funciona porque não é mais do que uma extensão da história da morte. Ainda assim a sociedade diz que um homem sem a educação universitária, porque se recusa a levar a farsa adiante, deve atuar como um jogador coadjuvante ou secundário: entregador de jornais, cobrador, lavador de pratos, lavador de carros, zelador, qualquer coisa que o valha.”

Não sei como vocês justificam o amor de vocês pelos escritores, mas o meu funciona mais ou menos assim: se eu me identifico com as ideias e o coração fica na boca, já sei que é amor. Nem sempre é à primeira vista, mas no caso do Bukowski, foi assim mesmo. Uma brincadeira que acumula 12 leituras, quatro resenhas por aqui e uma admiração sem fim. Recomendo, puxo o saco, faço jabá ou seja lá como vocês quiserem chamar. rsrs

“É sempre bom saber que você pode viver sem uma pessoa que julgava jamais ser capaz de viver sem.”
“Os melhores nem sempre são reconhecidos, seja na literatura, na música, na pintura, nas atuações, na política ou onde quer que seja. Isso não era nenhuma novidade nos séculos de humanidade.”
“Em qualquer cidade, bom senso e bom gosto estão menos naquilo que você vê e faz e mais naquilo que você não vê e não faz.”
“Os dois principais objetivos da vida, afinal, eram evitar a dor e dormir bem, estou certo?”

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Fonte: News Video Livraria

Fonte: News Video Livraria[/caption]

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