Cidade Morta I

Se impressionou com o estado do trem. Limpo, novo, pouquíssimas pessoas. O silêncio também destoava do que normalmente encontrava nos trens que passavam em seu bairro. Mesmo de noite, a sensação era de segurança. Pensou que poderia se acostumar a viver assim.

O trem parou, a estação foi anunciada, ele desceu. A ansiedade bateu. Nunca tinha estado naquele canto da cidade. Tudo era novo, brilhante, grande. Aquelas casas gigantes estavam ali há pelo menos 50 anos e a área nunca deixou de ser uma das mais ricas da cidade.

Caminhou pelas ruas arborizadas, cuidadosamente planejadas, sentindo o nervosismo ir e vir. Era seu primeiro dia, afinal; mas já tinha experiência e sabia que não havia ali nada que o impressionasse. Trabalhar na segurança desses bairros era geralmente tranquilo e tudo tinha sido descrito como um emprego perfeito.

Se apresentou ao encarregado e ouviu as instruções. Nada de contato com os moradores, não olhe para as casas, eles são reservados. Observou a rua: sem saída, tinha um portão que a transformava em uma vila — algo comum por ali. Sempre havia dois seguranças de plantão e seu companheiro já estava ali sentado: um homem atarracado, de poucas palavras e que se limitou a um aceno de cabeça.

O encarregado se despediu e ele tomou seu lugar a um dos lados do portão, mirando a rua.

Passaram-se as primeiras horas daquela noite silenciosa. Dois passantes do lado de fora do portão, e só. Os moradores pareciam realmente reservados. Pensou em comer alguma coisa. Do outro lado do portão, seu parceiro dormia pesadamente. Foi até sua mochila e buscou um pacote de bolachas. E ouviu um barulho quebrar o silêncio da noite.

Correu em direção à casa que apresentou o estalo. Notou que somente as luzes do quintal estavam acesas, assim como todas as casas daquele lado da rua. Ao se virar, percebeu que o mesmo acontecia nas casas do outro lado. Retomou a atenção a tempo de ver um vulto correr pelo corredor à sua frente e se aproximou do portão com a melhor combinação possível de cautela e velocidade.

A corrida não foi rápida o bastante e ele enxergou um garoto se esgueirar pelo muro de trás da casa em direção à praça que havia ali atrás. Não seria possível alcança-lo mais. A sacola em suas mãos levava o que conseguiu juntar.

Seu primeiro olhar foi para o outro segurança, que não tinha mexido sequer um dedo. O segundo olhar foi para a casa. Era preciso identificar o que foi levado e como. Já que ele não poderia consertar o erro, precisaria abrir o jogo com os proprietários e contar com a sua boa vontade para que não perdesse o novo emprego.

Ao apertar o botão do interfone ele pensava na situação. Eram 9 horas da noite e o garoto nem hesitou. E as luzes apagadas? Estariam aquelas pessoas ainda trabalhando? Aquilo tudo era estranho, mas precisava falar com os moradores antes que saísse ainda mais do controle.

O interfone não respondia. Olhou novamente ao seu redor, notou a total ausência de movimento. Os muros impediam a visualização do interior das casas; as garagens também eram fechadas, não era possível ver os carros. Pressionou novamente o botão. Não ia perder um emprego assim sem lutar.

A combinação de ausência de resposta com o sono intenso do outro segurança lhe deram a coragem de que precisava. Escalou o mesmo muro em que o garoto tinha estado e pulou para dentro. Era uma bela casa, imponente, impecavelmente mantida limpa e com uma arquitetura impressionante. Viu na janela da frente o buraco por onde o garoto tinha entrado.

Não se ouvia um ruído. Caminhou pelo corredor e tentou a porta. Destrancada. Entrou e viu claramente as ausências naquele cenário, tão óbvias naquela decoração impecavelmente calculada. Saiu novamente pensando em quanto tempo levaria para compensar os potenciais custos. E teve um estalo.

Não havia ninguém naquela casa. Não havia ninguém naquela rua. Não tinha visto um ser humano que fosse naquelas duas ou três horas. Sabia o quanto um bairro como aquele tinha menos movimento nas ruas, mas nem um carro chegando? Saiu da casa decidido a confrontar o outro segurança, mas não era preciso. Ele já estava ali. Seus olhos miravam o buraco na janela.

Se despediu sem muito ânimo enquanto o encarregado despejava críticas ao seu trabalho. Não era aceitável que alguém com aquelas credenciais deixasse isso acontecer. Não esperava ter problemas tão cedo com ele. Pediu desculpas e se retirou, sem nem mesmo fazer perguntas; algo lhe incomodava naquele lugar sem vida, queria ir embora dali.

Não olhou para trás e por isso não viu o pequeno caminhão solicitar a abertura do portão. Trazia um novo vidro e peças de decoração enviadas pela empresa de seguros.

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