Dia três

Copacabana continua aqui: algazarra, pra onde foram os policiais da cidade olímpica? O michê mudou de nome, transformou-se em gentil moço de corpo verdadeiro — nada escultural e que ouve Fábio Júnior. Mudo meu olhar e consigo ver o contraste num segundo entre a alta-roda e os sem roda, sem teto, sem comida, que se arrastam pelas calçadas das mundialmente conhecidas avenidas brasileiras implorando por um pedaço de pão. O que era certo ficou errado, o que era bom ficou ruim. Estranho ser tão rico e padecer de tanta pobreza ao mesmo tempo.

O mar continua lá, tentando limpar todo esse pecado. As dores do corpo sumiram e a dor do coração a gente ignora para progredir. Em prol de sobreviver, a gente abre mão de viver.⁠⁠⁠⁠ A sensação de alomorfia se junta a grandeza de saber que você pode seguir mesmo estando só. E dia desses passando sozinho pela banca de jornais percebi que o dono consegue ainda hoje degustar Händel no último volume em meio ao alvoroço da cidade.

E o michê? -Mudou de nome, mudou de casa, casou-se, mudou de endereço e nem se lembrou que você existiu um dia. O que ficou foram alguns trocados e o gosto amargo, além da essência de rosas para inibir tantas verdades do nosso país.