Há uma contagem interna dentro de mim. Apesar do grande e barulhento relógio externo, em menos de 5 dias os meus 32 chegarão por aqui. Depois de algum tempo mergulhada entre minhas diversas versões chegou a semana mais esperada destas últimas 3 décadas. Não que eu a tenha planejado, mas uma sequência de fatos me trouxe ao espaço de tempo e consciência chamado “agora”.

Percebi que sempre fui esquecida, mesmo tendo uma memória sentimental para poucos. E me dei conta do meu pouco caso comigo, ainda que eu não queira ser mais ninguém além de todos os pedaços de mim. Pedaços que mais estavam como cacos, agora juntados, remendados e colados, talvez com cola de farinha, para que eu possa remontá-los sem grandes custos quando bem entender.

Um desses cacos colados chama-se cinefilia. Eu não sei e não sei mesmo, apesar dos muitos anos de terapia, porque depois de todo e qualquer filme assistido simplesmente o esqueço. Nada. Nome, personagem, diretor, cor, dramaturgia… São mais de 20 anos de “Os fantasmas se divertem” e continuo o adorando como se fosse a primeira vez. Nada… Sou assim, fabricada por histórias. Como todo mundo, eu sei, porém… Sempre tive a euforia de achá-las mais atraentes do que as de quaisquer outras pessoas. Nem sei se são e nem devem ser, mas a minha intensidade imagética me faz identificar que sou um bocado abençoada pelos deuses do nonsense. Não passo um só segundo sem imaginar e traçar scripts porque minha psique organiza tudo como se fossem roteiros e eu durmo e acordo fantasiando a vida e, nem sempre, fantasia é alegria.

Há pelo menos 8 anos sou viciada, sem o menor orgulho, em remédios para dormir. Simplesmente porque minha imensa capacidade de abstração não é páreo para a desordem dessa alma. Ao me deitar na cama algum dispositivo se conecta e é hora da aventura. Geralmente drama, comédia e realidade se misturam.

Meus pensamentos produzem uma espécie de roleta russa. Deito, fecho os olhos e, como uma caça níquel, começam a rodar dezenas de possibilidades em forma de rostos que julgo não tê-los nunca visto antes. E como num jogo de azar ou sorte, algumas ganham os ecrãs da minha cabeça. Poucos segundos são capazes para que eu construa uma trama que, por vezes sem fim, não me deixa desligar. Toma-te Frontal 1mg para apagar. E se eu encanar, nem assim funciona.

Os fatos problemáticos, ou um dos episódios que considero mais trági-especias na minha vida, são os sonhos. Quando durmo, sonho. E não é uma candura, são tramas tão desafiadoras e tão improváveis de se ver em outras telinhas que ao acordar me recordo, conto e esqueço. Eita! Neste momento acabo de descobrir o por quê. Terapia de merda, eu preciso desentulhar a cabeça, lógico! São 24 horas por dia ocupada com sequências, formas e cores. E juro mesmo, terapia de merda, que percebi porque minha memória olfativa é tão boa. Caraca, é isso! No pensamento eu não crio cheiros, então deles eu não preciso me livrar. E olha que uso uma gavetinha funda para essa relembrança. Cheiro é a melhor e a pior coisa que existe, mas escrevo sobre isso noutro dia. É um capítulo grande.

Dos sonhos reais ou ficções, normalmente quem os escuta logo que acordo é quem os grava achando divertidinhos [e nonsensões], e os transformam em meus apêndices. Me lembro de poucos. Lembravam por mim de uma dessas personagens, um pinguim que estava desesperado por um sabonete. A história era maior, claro, mas a esqueci. Virei o “pinguinho”. No entanto, recordo de um com vacas que se transformavam em tatus-bolinha gigantes e dominaram praticamente toda a terra, se fosse terra o planeta visto. Sei lá que lugar era aquele. independente do sonho, todos têm água. Muita água.

A partir dos meus 5 anos tive um sonho repetitivo até os 10 anos. Todos os dias Zeus falava comigo me fazendo concordar com sua profecia e, então, o desafio da minha vida depois de acordada virou: — O que ele disse para mim? Zeus já tinha pronunciado mais de 1500 vezes a mesma coisa e porque eu nunca me lembrava? 22 anos depois e com a ajuda de uma terapia regressiva soube o que ele me declarava. Era importante, mas minha mente voadora talvez quisesse morrer com a dúvida.

A dúvida me faz enredar. Sem polaridades não há doença ou a doença se faz nas polaridades, alguma coisa assim o psicoterapeuta Carl Gustav Jung defendia… E concordando, essa minha estranha doença do imaginar somente se constrói na discussão de duas dúvidas separadas por 180 graus. Tudo isso para chegar que enfim meu primeiro projeto do ano, que considero por algumas razões para um outro escrito meu, o mais importante. Vamos lá:

Retorno de Saturno, balzaquiana e o que faço com tudo isso? Estão chegando os 32 numa pré-plenitude com um pé atrás, esperando no íntimo o cuco pular barulhentamente na minha cara. Porém, desafios conscientes na plenitude são válidos. E o primeiro desta fase é memorar os filmes depois do letreiro passar. Eu quero me dar ao luxo de não parecer a palerma que vai ao cinema ver todos os filmes que é incapaz de dois dias depois discutir sobre o assunto, fazendo com que eu pareça uma grande farsa. Não que eu ligue para a grande farsa, que também é tema de muita gente, mas porque há seres que me habitam e travam lutas internas constrangedoras.

Eu sou a pessoa que mais sofro no cinema, tenho certeza. Como acredito, como sou tudo aquilo. Em breve vou escrever sobre os últimos filmes que mais sofri por achar ser representante dessas películas. E só os lembro porque os anoto.

Mas agora o desfio é; ao invés de começar a noite roletando estórias próprias, ser espectador. Sim. Há alguns dias tenho assistido, já quando deitada e apijamada. E não estou me ausentando das minhas criações, mas apaziguando minha cabeça ao abastecê-la com as loucuras alheias. Estou fabricando uma rede de informações mais preciosas. Desde Relatos Selvagens, que obviamente me vi e me viram representada, resolvi tentar me ater à outro tipo de filmografia e roteiro. Sempre gostei dos franceses e espanhóis, mas estava aqui ao meu lado e eu não percebia. Meu sangue é (mesmo não sendo) latino. Wow. Pow. Nada disso. O drama latino sou eu, e cada encanto tenho visto. Eles todos aqui dizendo que menos é mais e mais é enredo num belo roteiro. Obrigada, Argentina, obrigada Ricardo Darín. Tenho descansado com tanta qualidade nestas últimas noites de tempos confusos.

São 3:28, não vou revisar e fecho a noite com 1mg de Frontal engolido com um grande gole de yakult. E não me levantarei para escovar os dentes novamente. E se a barata lamber minha boca, pelo menos vai ter o privilégio de provar da melhor bebida que há.

E, assim, começa o meu amor por carneirinhos. 1, 2, 3…… 57, 80…

Terminando com um medo latente que me recordei agora, às 3:47. Minha avó morreu com Alzheimer. E como eu sofria junto dela quando a trama da novela passava a ser uma experiência real e conflitante. “Vó, é uma estória de mentirinha” “Olha ali o safado…” Nos seus 15 anos, mais ou menos para onde sua lembrança a levou, não havia televisão, tampouco novela de projeção. Então, como explicar senão sofrer junto?

Tenho algum medo e um bocado de receio pelas outras pessoas, porque se esse mal me pegar sabemos lá onde é que minha mente vai fincar, se aqui por dentro é uma imensa confusão de tempo, espaço, e alguém já dizia… E direção. Nem eu, no auge da minha consciência cheia de ego regulador sei distinguir as minhas realidades. Ai que dramalhão vai ser isso. Oremos.

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