poesia à marginal

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atrás da lua
o sol brilha
e a rua inteira
se ilumina
feito no dia
de São João:
o fogo no céu
a chama dentro de nós
balões clandestinos
a enfeitar a noite
a desafiar a lei
pelo breve momento
em que somos estrelas.

Photo by Jordan Madrid on Unsplash

Photo by Matthew Ansley on Unsplash

a falta
que você me faz
quem cometeu
fui eu.


Photo by Akshay Paatil on Unsplash

eu toco você
dedos longos, prosa curta
perfume de estrelas impregnando a pele
— tão bela a lua!
eu sinto
nas mãos tão largas quanto o medo
você se desfazer feito terra
onde se enraíza o meu apego
o que você quer?
gotas de suor escorrem
derreto, liquefeito
em sua boca: uma taça
tão próximos…
se gênios existissem
a nos oferecer desejos
o que desejaria eu
senão o que vejo?


Photo by Cassie Matias

metade de mim é você inteira

metade de mim é você inteira
a multicor dos seus cabelos
seus pés no chão
as coisas que me diz
quando acordamos
o que esquecemos de dizer
quando dormimos
metade de mim
seu riso pela primeira vez
as lágrimas que colhi
sem ter plantado
o som dos passos
quando você chega
a falta dos passos
da sua ausência
a vida é tão longa
diante de tudo
a vida é tão curta
perto de nós
metades idênticas
em corpos desiguais
onde vivemos inteiros
partidos ao meio.


Photo by Uriel Soberanes

jaguar

Em tempo de cólera,
Eu olho
Impassível jaguar, insone
como um estômago vazio
A fome de vida a torturar-me o corpo
O peso dos dias
a costurar as horas;
Eu, massa falida, tão bem vestida:
Casaco jeans e calças desbotadas
para apreciar o pipiar do pássaro
que canta, mas nada.
A gaiola: o peito;
as asas: abertas
batem na praia como as ondas do mar
A água fala, a sede se acerca
No ouvido do mundo, tudo
Você ouve?
Eu olho.


ave, palavra

ave, palavra
levanta a tua voz
quem fala sem medo
fala por ele e por nós

“white and brown bird flying on air” by BRUNO CERVERA on Unsplash


Anne-Ly Roudil

sopro fantasma

a sua voz é como um sopro fantasma um eco que se escuta mesmo depois que o momento morre mesmo depois que você vai embora e só resta seu sussurro que vem carregado pelo vento me arrepiar a espinha como aqueles espíritos das casas chilenas como o vinho que arrepia a língua e afoga a garganta e folga o corpo fazendo-o flutuar feito pluma leve em direção a nenhum lugar eu, que escuto a sua voz escuto a reprise do passado tocando num pretérito futuro e ouço o som da sua boca soprando em mim a alma dos meus dias…


Vincent Mahé

quanto tempo será que vamos levar pra construir essa casa do zero?

quanto tempo será que vamos levar pra construir essa casa do zero do chão ao teto e esbranquiçar as paredes de tijolos vermelhos com a argamassa e a tinta compradas na loja de material de construção? quanto tempo será que leva entre a fundação e a última telha entre o primeiro cimento fresco e o primeiro churrasco na laje entre o cheiro de café que sai do bule e a volta e meia da chave na fechadura fechando a casa pro mundo de fora abrindo a vida casa adentro? quanto tempo dura a reconciliação quanto tempo dura a briga quanto…


Lily Padula

as suas estantes são tão altas quanto o everest

as suas estantes são tão altas quanto o everest e delas cai o pó dos livros que compramos e daqueles que nos escolheram como donos eu coletei todo esse pó que cai dos livros em sacos de papel bem amarrados com tiras de pano tiradas de blusas tiradas de quem não vejo mais eu coletei todas as traças das páginas todas as marcas das páginas furadas pelas quais se via o futuro dos personagens atravessando o presente eu coletei todo esse pó enquanto das prateleiras pendiam orelhas e capas mil marcadores de livrarias fitas de cetim no meio de bíblias…


Dennis Inosanto

ela era o tipo de criança que acreditava em discos voadores e cresceu para se tornar o tipo de adulto que acredita em amores correspondidos. ela não parou para fazer as contas de que as plantações supostamente destruídas pelos extraterrestres tinham mais salvação que os relacionamentos. ela tinha fé demais. ela tinha um certo maravilhamento pelas coisas da vida e as possibilidades e incertezas do futuro que eu, olha… eu, particularmente, nunca entendi.

ontem, ela foi abduzida por uma astronave, uma bola gigante de metal com luzes verdes piscando, uma astronave de verdade. eu sei, não faz sentido. sim, eu…

poesia à marginal

quando em são paulo, escreva

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