Cliff

23°33′S 46°38′W

eu costumava chamar essa cidade de Babilônia: um reflexo da soberba, muito maior do que deveria ser, dolorosamente concreta, feita de pontes que ligam capital a capitais. redemoinho de mil coisas a se fazer o tempo todo, em qualquer lugar, e a se esquecer frequentemente (mais do que frequentemente: sempre, um moto-contínuo mais contínuo do que qualquer outro moto). não chamo mais. Babilônia tinha jardins também, mas eu não chamo mais. Babilônia caiu e isso aqui não tá indo lá muito bem… mas não. lembro de uma aula de sociologia em que tentaram me ensinar o que era etnometodologia. etnome–o cara que inventou isso se chamava Garfinkel (i, não u) e eu só conseguia pensar onde é que tava o Simon–todologia. puta merda. captei uma coisa ou outra durante a aula, mas o básico é que essa é a ciência da realidade que permeia todo mundo, por meio do estudo do que todo mundo faz o tempo todo. ou algo assim, tô nervoso. mas aí eu trouxe isso pra vida desde então e comecei a olhar pra tudo tentando encontrar o contexto, as relações, os motivos, os significados, etc. e tem? e tem, menino, tem muito. eu vim pra cá e comecei a questionar se conseguiria continuar fazendo isso aqui, porque essa cidade tem dessas, te dá material de sobra pra pensar, apesar do tempo de menos. isso aqui tenta te engolir feito Cronos a Zeus (tão fraternalmente quanto) e você se pergunta por que demônios eu tenho que passar por uma coisa dessas na minha vida eu só queria ganhar dinheiro pra comprar uma TV. (você compra a TV no meio do caminho, mas aí o caminho dobra de tamanho, abre um novo lugar maneiro na rua de baixo, a banda que você gosta marca show, o cara da outra empresa que parece ser mais legal que a sua te chama pra trabalhar lá e você só consegue pensar: puta merda, bicho, mas que caralha, quando é que eu vou ter paz? acontece…) mas aí o porquê de eu não chamar mais essa cidade de Babilônia é que Babilônia foi destruída, ficou no passado, presa à memória como única forma de subsistir no tempo. mas isso aqui, isso aqui é meio que pra sempre, é o futuro plasmado no agora, tão rápido, tão bonito, cheio de sinais vermelhos ficando verdes pra gente passar e mais gente com dúzias de esperança chegando de tudo quanto é canto pra tentar extrair o máximo que esse lugar pode dar (centenas de milhares de pessoas ao mesmo tempo, dia após dia, e ele sempre tem mais pra dar). parei de achar que essa é uma cidade-monstro que só quer nos engolir. ela engole, sim, mas cronologicamente nos cospe de volta, anos mais fortes. e é só isso. abandonei Babilônia quando me dei conta de que esse lugar é muito maior do que ela foi, é tão extenso e denso quanto o presente e, exatamente por ser feito o presente, pode se transmutar em qualquer coisa que você puder fazer dele. por mais limitadas que sejam as 24 horas que a gente tem à disposição todos os dias, elas são espetacularmente possíveis aqui. eu parei de chamar essa cidade de Babilônia porque não quero me sentir um estrangeiro em casa.

em casa.

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