o forasteiro

fora do seu corpo
flutuando no ar quente de verão ele pensou
qual seria a sensação de um toque na pele?
qual seria o gosto de um brownie vindo do espaço sideral?
e se ele era tão bom quanto achava que era
por que estava sozinho na cama naquela noite
esperando alguém discar o seu número
enquanto a bateria do telefone lentamente morria?
ele se perguntou se um dia seria tão feliz
quanto foi na estreia do primeiro star wars
quando não era nada mais que uma criança
e seu pai estava ao seu lado, comprando pipoca
pipoca que de uma certa maneira
de um jeito muito específico e esquisito
se parecia com as estrelas daquela galáxia de star wars
e ele concluiu que não
ele nunca poderia ser tão feliz de novo
mas ele também sabia que aquilo não tinha a menor importância
ele sabia que haveria outros filmes pra ver
outras pessoas com as quais segurar as mãos
e que um dia ele eventualmente iria crescer em altura e barba
terminaria a escola e tiraria sua carteira
só pra dirigir um carro tão veloz
que transformaria o passado e o futuro na mesma coisa
e ele poderia então viajar por diferentes fusos-horários
por diferentes linhas do tempo
para planetas que ele ainda não conhecia
como o doutor brown
como aquele outro doutor
como, talvez, uma folha flutuando nas águas calmas de um lago
enquanto o vento sopra e ele escuta as árvores
chamando-o pelo seu nome
e naquele momento
fora do seu corpo em um dia quente de verão ele pensaria
quão bom seria ter alguém por perto
para acalmar a sua mente e fazê-lo esquecer de se lembrar
que ele nunca poderia ser tão feliz quanto já foi um dia
alguém que entendesse todas essas coisas
e que nunca o julgasse
por causa do que que ele sentisse ou quisesse
ou por causa do que viveu ou um dia quis
mas que, pelo contrário, o chamasse
assim como as árvores
pelo seu nome verdadeiro
com uma voz tão suave quanto eram os assentos do cinema
em que um dia ele viu a estreia de star wars.

