opinião: Mumford & Sons, Wilder Mind (2015)

part. especial: The Strokes, Comedown Machine


Nessa segunda-feira, 04 de maio de 2015, tivemos enfim o lançamento do terceiro álbum da banda britânica Mumford & Sons:
Wilder Mind, sequência do grande sucesso de 2012, Babel.
Abaixo segue uma opinião nada parcial após audição minuciosa do dito cujo — cinco audições, pra falar certinho.

No Twitter, por volta do lançamento do segundo single (The Wolf) rondaram uns comentários a la “Mumford & Sons estão tentando fazer o Comedown Machine deles” — e isso me deixou um tanto preocupado. Afinal, não tem muito tempo admiti “nunca escutei o Comedown Machine inteiro” sem que isso soasse como um crime (calma, calma, isso já mudou… mas imagino que muitos de vocês me entendam).

Como eu admito ter retuitado um daqueles comentários (enfatizando o receio) antes de enfim escutar o álbum direitinho, vamos começar daí:

O que foi o Comedown Machine pro The Strokes?

Anterior ao CM, o 4º álbum de estúdio Angles (2011) representou um divisor de águas para muitos fãs. Mais (bem mais) do que o First Impressions of Earth (2006) — que já se afastava um tanto dos dois primeiros registros — , Angles parecia buscar um novo som pra banda e com isso tivemos desde sintetizadores a melodias de estética New Wave com o Casablancas mandando até falsettos sem vergonha alguma (ecos de sua estreia solo).

Com a chegada do quinto álbum, essa tendência foi mais forte e ainda mais abordada — se Angles ainda lembrava o Is This It (2001) com algum esforço, Comedown Machine tem uma música old school (All the Time) — o estilo é diferente, a instrumentação segue expandindo a linha do Angles
&
isso foi tanto motivo de elogio pela nova receita, como de abandono de clientela fiel e saudosa.

E o Wilder Mind, do Mumford & Sons, chega a ser esse Comedown Machine na vida do grupo?
Resposta clássica: sim e não.

SIM

Já anunciado desde o primeiro single (Believe), em março deste ano, Mumford & Sons não trouxeram a estética do Babel de volta, o que fez alguns fãs lançarem a hashtag #BringTheBanjoBack na internet— nada mais natural, depois de dois álbuns bebendo do folk & executando com a benção do rock.

Em entrevistas, o grupo maldisse o passado — falando do nome da banda, das roupas, da instrumentação. Bem chato pra alguns fãs, eu imagino. Mas sendo advogado de defesa dos meninos, cito o próprio Marcus Mumford: “Nós crescemos com Oasis ao fundo e Yamaha Pacificas plugadas em amplificadores ruins. Nós meio que pegamos emprestado instrumentos acústicos e fizemos o que fizemos por um tempo”. Adicionando “tudo fugiu um pouco do controle”.

Então dois álbuns depois, o M&S estava preso numa fórmula de folk rock pra lá de funcional (lotando arenas) que não dizia tudo que (ou como) eles precisavam dizer. E o Wilder Mind faz isso? Sim.

Com a voz, Winston Marshall:

[Este álbum] foi uma reação ao fato de que estivemos em turnê por seis ou sete anos com quatro instrumentos que de longe não foram os nossos primeiros. Eu sou guitarrista, Ted [Dawne] é guitarrista, Marcus [Mumford] é baterista, mas viemos tocando banjos e acordeons e essas coisas. No final disso, nós estávamos desesperados por tocar outras coisas, pra fazer algo novo.

Temos aqui um álbum que do antigo gênero, como base, não tem nada.
Todo o passeio instrumental aqui foge das configurações anteriores.

Vale mencionar, porém, que a entrega vocal do Marcus Mumford continua a mesma
&
a execução instrumental ainda nos lembra muito o bom e velho M&S — conseguimos, como que já treinados, antecipar muitas das explosões emocionais típicas da banda (referência melhor que I Will Wait impossível), vide o clímax da faixa #3, The Wolf, segundo single do disco.

Nesse sentido, com certeza o M&S deve ver uma divisão de fãs ao mesmo tempo que soma uma nova base… mas pensando noutro lado do Comedown Machine…

NÃO

…o que aquele álbum tem de aventureiro (flertando do funk ao punk), o Wilder Mind tem de cauteloso.

Eu comecei a temer por esse momento quando The Wolf saiu, faixa que me deixou com uma sensação de “Snow Patrol já fazia isso e isso já faz um bom tempo”. Mas eu quis esperar (eu gosto do Babel, então por que não?).

E a verdade é que onde o Comedown Machine pecou (seu maior acerto é também sua maior maldição: o álbum tem tantos gêneros que não funciona exatamente como um conceito senão o da busca por uma nova identidade), o Wilder Mind apostou na segurança e o que recebemos disso é uma sensação imediata de mais do mesmo. O que é irônico, não?

Ao deixar pra trás o próprio estilo do espectro folk (inchado de bandas semelhantes ao longo dos anos, cortesia não só do sucesso do M&S mas antes disso de maravilhas da música como Fleet Foxes), procurando não soar como uma cópia de si mesmos, M&S soa como gente demais.


Todo mundo que gosta de uma banda compartilha umas questões diante da iminência de material novo:
Será um avanço?
Será que vão continuar navegando por águas seguras (que eu já amo muito, obrigado)? Será que eles vão experimentar… mas daí vai mudar muito?!
Quem tá acostumado com bandas feito Radiohead e seus trabalhos a partir do Kid A pode não se assustar tanto com essas experimentações (uma obra-prima cabeçuda como o Kid A foi minimamente necessária pra um In Rainbows— e seu equilíbrio maior entre as várias facetas da banda — surgir).

Mas a mudança de gênero e instrumentos do Mumford & Sons não traz nada muito novo no panorama geral.

O grupo tem comentado muito que trabalhar com o Aaron Dessner (guitarra do The National, senhoras & senhores) ajudou a moldar a nova pegada da banda: as demos das 12 faixas foram gravadas no estúdio de Aaron e depois levadas ao James Ford para a devida produção (cara que já foi responsável por produzir Arctic Monkeys, Birdy, Florence + The Machine, Klaxons etc.).

Mas não tem tanto The National aqui no WM quanto o comentário acima faz parecer. Eu percebi aqui e acolá uma certa influência… quem sabe menos do Dessner e mais do fato dessa instrumentação diferente levar a uma atmosfera semelhante.


A faixa #1, Tompkins Square Park, segue até o refrão com uma bateria que me lembrou The National, um pouco como Wilder Mind, a faixa #4.
Essa, que dá nome ao álbum não à toa, traz a seguinte letra:

Está no meu sangue, está na minha água
Você tenta me domar, domar-me desde o início
[…]
Eu fui abençoado com uma mente mais selvagem

O que, na minha opinião, encaixa bem na proposta de mudança da banda, mas não exatamente na execução.

Snake Eyes, faixa #7, foi (prometo que paro com isso por aqui) a que mais me lembrou The National e, não à toa, das que eu mais gostei.

Monster tem uma pegada Kings of Leon circa Come Around Sundown.
Broad-Shouldered Beasts pra mim deve muito ao Bruce Sprigsteen — e vale dizer que os arranjos a partir dos 3'20" são bem bonitos e dão uma encorpada legal à repetição “It’s alright, take it out on me”


A minha conclusão nada parcial é: este álbum, apesar da mudança de tom, não é um grande avanço na discografia da banda. Mas se você gosta especialmente do vocal do Marcus, não desaponta.

A mudança que ficou implícita pela forma que a banda tratava do assunto “de-folking Mumford & Sons” não é lá tão perceptível — e quando é, percebe-se mais pelos instrumentos, menos pela atmosfera geral.

Se vai dividir os fãs,
eu termino com duas mensagens para os que por aqui passarem:

O disco: ✰✰✰✰✰✰ 6/10
Melhores:
Tompkins Square Park
Snake Eyes
The Wolf
Wilder Mind
Broad-Shouldered Beasts


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Checa aqui uma rapidinha sobre o Rat Boy.

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