reação:
e qual o nome dela, Ari?


Li por aí um texto que me fez lembrar de um outro— e este, um meu.
Não lembro onde guardei, ou melhor, em qual computador o perdi.
Dizia não sei exatamente sobre o quê — ou o porquê de assim dizer — que o que eu queria mesmo era sabinoar.

E aí logo em seguida, li a história de Ari.

Ari viu uma mulher na rua e pelo “[…] sangue nas coxas, na blusa em trapos” teve uma compreensão silenciosa.
Depois de levá-la a um hospital, de deixá-la em seguida em sua casa, retornou à própria.

“Salva”, lia-se.
“Agora [Ari] consegue dormir”, lia-se.

Foram 7 linhas lidas para um sem número de pensamentos.
Ilustração de Dylan Chudzynski

Ainda tava eu encharcado de Sabino, há pouco lido e talvez por isso mesmo mais propenso à lágrima. Só sei que eu li salva e minha mente completou com uma interrogação. Eu li que Ari enfim dormiu e fiquei imaginando se por tranquilidade ou puro cansaço.
Daquelas canseiras que por vezes e tantas vezes quanto não gostaríamos se tornam o único Dramin pro nosso sono.
O único Rivotril pra nossa cabeça silenciar.
Dormir de cansado porque senão não há.

Será que Ari, quando dormiu enfim, não tava a se questionar o quão salva aquela moça realmente estava?

Diante da paralisia que o medo gera, diante do espanto maior do que a palavra espanto consegue indicar, que é se ver nas mãos de outro ser tão humano quanto a gente nos desumanizar… tão humano quanto a gente?
É tanto assombro que fica bulindo com essa palavra que eu me perco na palavra que quero te contar. Salva.

O fato nessa querência toda de sabinoar eu nem catei no texto antigo pra refazer um caminho de autocompreensão.
Meio que me sacudiu essa explosão de pergunta e empatia com a empatia hipotética de Ari com a moça e seu medo e os caminhos percorridos ao pensar em como ela foi tratada no hospital, na polícia (essa aqui já memória minha dentro de 7 linhas)… é tanta coisa que acontece dentro de um texto curto.
É tão real o que tem dentro deste texto que é tão hora e meia, mais uma morte.


E eu sei que não sou poeta que valha, nem cronista que sirva, sei bem que eu quando muito faço umas confissões em texto para uns perdidos lerem e nada mais. Ou tenho reações.
Mas eu posso dizer que há em mim um verso crônico de Sabino,
Uma poesia de uma frase final que tem lá seu início e ela, distorcida de mim em mim, fica assim:

Assim eu quereria da vida,
que fosse pura como um sorriso.

E talvez querer isso me ajude a todo dia seguir em frente pensando,
com alguma gentileza que não me deixe paralisado, mas que também não me cegue.

Na hora de fechar os olhos,
Como não continuar perguntando:

Salvos?

Esse texto surgiu a partir de dois outros:
Há vilões e heróis entre nós,
de CA Ribeiro Neto — administrador/autor no projeto Vem-Vértebras;
e o belíssimo texto de Fernando Sabino chamado A Última Crônica.


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