pássaros/anjos/deuses

pequena saga (sur)real em três partes


(parte I) pássaros

novamente uma tela
telas já são comuns
ordinárias

dela abre-se um pássaro
multiazul belíssimo
a cantar coloridas melodias
de amor
e exibir seus passarinhos
exalando liberdade almíscar

então inicia-se o software
você dentro dele

novo
um personagem completo

criatura fantástica
em seus pelos penas

seus dedos
seus braços
transformaram-se em asas
brancas
contrárias ao acinzentado
ar poluído da realidade

especial
espaço e verdade
verde

surge outro pássaro
como a ave do paraíso
sinestesicamente colorida
afastando o tédio em vida
prometendo guiar-lhe os passos

eis que passa uma revoada
de andorinhas apressadas
soltas a migrar
iniciando sua jornada
heróica

seu companheiro volátil conduz o passeio
em meio a tantas asas

você voando

entre nuvens
acima de oceanos
de qualquer circunstância

livre

você volante
etéreo e inviolável


(parte II) anjos

alimentando sonhos
dourados
de paraísos inexplorados
noverdades
verdes
os passarinhos pousam
em formosa beleza
flutuante

um solário repousado
sobre um gigante solo
alado

estás nos céus
acima das nuvens
nessa civilização mágica

você presta atenção
a tamanha beleza arquitetônica:

capitéies helenísticos
com cornijas suaves
bailando por sobre
pilares
a sustentar
triângulos áureos

ar
neon
jardins
projetados
profundíssimos
de árvores exóticas
sequoias e flamboaiãs

como um passado esquecido
perdido e fracassado
bem defronte

teus olhos mudos
encantados
brilham

nem mais lembranças do que era
fora da (dis)simulação

súbito
surge um arcanjo
simetria radial
estarrecedora perfeição
como a utopia dos deuses
encarnada

ouve-se uma sinfonia
em metais e flautas
e pianos e clarins
anunciando sublimes chegadas
doces querubins

os pestinhas começam
a envolver-te na cantiga

as penas juntam-se
na pureza de anjinhos e pássaros
a cantarolar

vai tornando-se real
você canta junto
decora a letra
sabe a língua serafim

então avista um espelho

percebe-se sobrenatural
criatura esplêndida
híbrida de anjo e colibri

és um milagre gigante
vivo em gigabytes


(parte III) deuses

serafins surgem
a indicar o caminho

mensageiros celestiais
asas tão vibrantes
que a natureza (artifical) emudece

arcanjos pássaros
querubins
você
todos a seguir o esplendor

rumam até a torre mais alta
tão aérea que não vê-se topo
através das nuvens

o ar vai
tornando-se rarefeito
mal respira-se

alguns de seus amigos anjinhos
caem perante ti

a pureza asfixia
perante tal poder

passando a dor terrível
os sobreviventes chegam
ao topo
e vêem a glória em seu estado legítimo:

uma abóbada monumental
de vidro finíssimo
resplandescente
multicolorido

sobre ela nuvens
tão frias que cortam peles quentes
perpétuas

o sol ali é pleno

uma luz branca
abrilhantando o sereno paraíso

a melodia torna-se intensa
simultaneamente suave
a anunciar a chegada divina

são puro éter
feitos de azul tão profundo
que alegra e entristece de uma só vez

carregam luzes
que transformam-se
em criaturas aladas fantásticas

gatos gigantes
a traduzir a língua original:

“senhores passageiros
coloquem suas máscaras
não entrem em estado de pânico”

você estranha a mensagem
parece-lhe do mundo real

resolve desligar o videogame
voltar à realidade

e de repente percebe
que o avião em que encontra-se
a viajar sobre oceano
está em queda

uma máscara cai
você coloca o oxigênio
olha para os lados
todos estão confortáveis

sem pânico
reinicia o sistema

resolve tornar aos deuses


Autor: Vini Asevedo
Imagem capa: City P. Fortress de Alex Andreev
Imagem capa pássaros: Peacock de jele
Imagem capa anjos: Emeria Angel de Jim Murray para Wizards of the Coast
Imagem capa deuses: God of Evanescence de JonasDeRo
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