setedesetembro
acordei e você não era mais só o beijo da noite anterior
quando você saiu do quarto, eu já suspeitava que não tinha mais jeito
o encaixe dos corpos foi muito certeiro, ninguém podia negar e não era só a pele que dizia isso
te olhar nos olhos no café da manhã do dia seguinte, rodeada de gente
enquanto eu inutilmente pensava em sair dali antes de você chegar
foi a comprovação de que eu realmente perco o rumo quando te olho, eu me encontro
você chegou antes que eu pudesse me levantar
eu não consegui sair, na verdade eu nunca quis
nem daquela mesa, nem do seu quarto todos os dias, do seu lado, de dentro de você
você segue me atravessando
mexendo com o meu corpo só de pensar em tê-lo perto
acorda-o por inteiro, inunda, me transborda
ao passo que eu te descubro entre a respiração descompassada, transitando entre pernas, oscilando entre não ter pressa e estar à ponto de se fundir.
nossos corpos dividem a cama em ato de celebração ao presente que é dividir os meus dias com você
o dia em que nos beijamos pela primeira vez é inclusive feriado nacional
declaração da independência dos nossos corpos se encontrando numa troca de olhar tão intensa que nos reapresentou, de um jeito que não dá pra desconhecer.
desde o primeiro beijo já não tinha mais jeito, continua não tendo, nunca teve. nós somos a chama que eu pensei não saber deixar queimar, que continua me consumindo como quem prepara uma longa receita em fogo brando.
você me queima todo dia, de muitas formas.
sorte.
tal qual o dia em que eu acordei e você não era mais só o beijo da noite anterior.

