A centelha do verbo

“Prometeu”, por Theodoor Rombouts (séc. XVII)

Aparadas, as farpas das palavras 
enchem o pote da solidão.

Reparo nos tristes olhos 
de certos silêncios que não têm nome 
no vago átomo impreciso, 
e vestem a bata dos segredos mornos 
que vêm dar na cara da gente.

A carne, que tem cheiro de sangue, 
 — se é que um dia estas duas palavras 
possam ser compreendidas — 
vara por noites e pântanos, 
maltratando a chama que vive lá dentro, 
castigando-a com a linguagem.

E se dessa linguagem é que se montam 
as histórias de geração e parto do universo, 
e se ela mesma, vestida de consciência, 
foi quem criou o todo, o mundo e eu e você, 
aí está o verdadeiro fogo 
que o gigante roubou dos deuses 
e ao qual os humanos haverão de sucumbir 
ou no qual irão se tornar.