Manas e manos

Ah, coisa estranha
esse velho doido coração
ainda bate
e ensurdece meus ouvidos
como o som do martelo na bigorna
que tirava o meu sono
quando eu era criança
e ouvia e via coisas
que não eram.
Uh, mas eu mesmo
vivo de assombrações
que se espalham
do miolo do meu corpo
como ondas
e me afogam
da coroa à virilha,
do calcâneo ao polegar,
do meu falo à minha vagina,
e tomam todos
os meus órgãos imaginários.
Oh, viver,
mero fato absurdo
é eu simplesmente estar
e existirem as coisas
num aqui-e-agora
e eu não quedar
completamente louco
ao saber disso.
Ih, minhas âncoras,
–eu sei que ainda as tenho–
os lastros
que me fixam à terra
e não me deixam perder no firmamento
são vocês,
bichos estranhos,
meus manos, minhas manas
no rolê aqui comigo.
É, sou obrigado com vocês,
estou grato de tê-los ao lado,
porque no fim das paradas,
no ranger das quebradas,
no sumo do haver,
o que resta,
na prova dos nove do mundo,
é o alívio
do com
viver.

