No princípio

“Faciamus hominem (Genesis 1:26)”, por Salvador Dalí (1964)

Tudo o que existia
era uma enorme bagunça,
e eu ainda não sabia
que tu virias
e mudarias minha vida.

E se eu penso nos primórdios
eu me lembro
de que existiu uma era
absurda e abstrata
em que eu ainda não te amava.

É difícil eu entender,
nesse remoto passado
do tempo antes do tempo,
como eu conseguia existir.

Na verdade, eu ainda não era.
Eu era uma planta-baixa de uma casa sonhada.
Eu era a receita do bolo divino guardada na gaveta.
Era o código compilado que jamais fora executado.
Eu era o feto de mim-mesmo, vivendo num mundo,
andando e falando, ainda sem nem nascer.

Eu só pude ser
aquilo que hoje eu reconheço em mim
— esse que eu acho que sou —
depois que entendi teu amor.

Tu me constróis, eu sigo em metamorfose.

E se tem uma coisa
que esta curta história me ensina
é que a única coisa exata,
a certeira e apurada sina
capaz de existir nesse verso,
nesse verbo, nesse universo,
é o assombro chamado:

transformação.

Os Pés no Mesmo Riacho

Poesias de Luís Fernando Tófoli

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