O redemunho dos amantes

“O redemoinho dos amantes”, de William Blake (1824–1827)

O que somos, quando somos amor? 
A quem reverenciamos 
quando nossos olhos só pedem, 
não mandamos mais no peito 
e a única opção sã 
é perder-se inteiramente 
no enigma mais completo, 
nessa caixa de Pandora, 
desse bicho de má-hora 
que se chama 
quem-eu-amo?

Ele vai, ele vem, 
e talvez sobrevivamos 
contando horas perdidas, 
medindo litros de lágrimas 
contabilizando mimos e ódios:
tudo que vai dar no abismo sem fundo 
onde mora deus-e-deusa
que mandou amor pra nós.

Mas, desconfio, nem mesmo
essa divindade sabe de fato 
qual a cara desta fera.

À nossa imagem e ignorância 
 — até porque não existe, 
e só vibra o que sentimos — 
seu gosto é suar saliva, 
jorrar orgasmos e pânicos, 
e perder-se em dor e alívio, 
pra ver se um dia termina 
esse medo que não acaba 
que é o de buscar fim.

Convencido, afinal, de que nada 
há de mais inútil 
do que isso investigar, 
eu convido a quem se indaga 
a me dar um beijo longo 
pra calar minha boca grande
e deixar bater o ritmo 
que embala essa viagem: 
crepita, coração.