Padeço

“Jó”, por William Orpen (1905)

Das submissões do juízo à delícia,
do apreço fiel do gozo ao desgosto,
da redoma de pura doidice na testa:
eu padeço.

De sentidos conjuros e desencontrados,
de palavras cozidas no imaginário,
de verdades cavadas no meio do nada:
eu padeço.
 
Da fuga em horror do que é complicado,
Do implexo enredo do simples no vácuo,
De querer com furor sem saber o que quero:
eu padeço.

De sentir os miolos pulsáteis e tensos,
De molhar ternamente as bolas do olhar,
De amar e amar e amar e amar:
eu padeço.

E se, vez por outra, incauto eu desço
às alcovas/masmorras polutas do mundo;
e se olho um segundo o sofrer neste berço
e entendo os anjos/demônios tornados fecundos,
eu disso padeço,
eu nisso padeço,
em viço, e padeço.