Uma fábula (transformações)

Era uma vez o mito
do Amor capaz de salvar.
“O que que Amor
tem que ver com salvação?
Que bobagem é essa, menino?”
Amor é perder-se ainda mais
dentro de si,
mas querendo olhos parelhos
como testemunho.
Amor é a busca de lanterna
no meio do vácuo da noite,
a lembrar que há uma centelha
que nos conta
que entre o nada e o nada
a vida pode existir.
Amor é a força do terremoto
e seu rastro de destruição
movendo cada peça sólida da vida
como se tudo fosse brinquedo
e assim nos fazendo perceber
que esse tudo,
suposto sólido,
tem o peso que merece:
que é o da bolha de sabão
que é o de um sobressalto
que é o da neblina na serra
quando o dia se avizinha
e sol vem nos soprar
a luz que move o mundo.
Amor é a farsa
de que cuidamos dos outros,
bem organizadinha,
tão limpinha e cheirosa
que o cremos não ser
tão egoísta e infantil
quanto verdadeiramente o é.
Amor é tempo de trovoadas,
o soçobrar da nau em curso,
é varar a noite com vistas ardentes
e o desejo ainda mais quente
de modo a se procriar.
Ou não se procriar,
e cravar na tessitura do ar
uma mistura de
braços e pernas,
e pelos e sumos,
e espírito e carne,
o quanto de cada coisa
que nos faz humanos
e nos vende barato
a lenda milenar do Amor.
E em meio a isso tudo,
nos meus versos sobre
esse meu Inimigo,
esse meu mais antigo Senhor,
eu tento entender onde estão
as velas do meu altar
enquanto Sua mão me vem
colher e despetalar
como um malmequer à toa.

