Análise das estratégias políticas nas eleições 2018

Durante as campanhas foram utilizados novos métodos para atingir o eleitorado

O cientista político, Bruno Lima Rocha, comenta sobre as estratégias dos candidatos ao cargos públicos

A tradicional disputa entre as antigas e novas mídias ficaram ainda mais acirradas durante o período das campanhas eleitorais. As mídias offline — panfletos, ”santinho político”, anúncios nos jornais, Tv, rádio e outdoors — enfrentaram um concorrente com poder de atualização em tempo real, que fez parte das estratégias para candidatura aos cargos públicos em 2018.

Essas manobras tinham como intenção dar um destaque maior para o candidato, passando mais confiança para o eleitorado e, consequentemente, aumentar a intenção de votos. Os candidatos visaram estreitar a relação com o seu público e informatiza-los através de transmissões ao vivo (lives) em páginas oficiais do Facebook, declarações no Twitter, mensagens de correntes no Whatsapp, fotos da agendas e compromissos no Instagram.

Este primeiro exemplo é chamado de campanhas outsider e que agora passaram e podem se chamar como Insider, conforme o segundo exemplo, aponta o analista, Bruno Lima Rocha. O cientista político, possui graduação em Comunicação Social, Jornalismo, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2001), e mestrado e doutorado em Ciência Política, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (respectivamente, em 2004 e 2009), além da experiência nas áreas de Ciência Política, Relações Internacionais e Comunicação Social.

O cientista político estuda e analisa as teorias e comportamentos dos sistemas políticos, ou seja, avalia o funcionamento político em todos os âmbitos, incluindo políticas públicas, as relações de transformações e estrutura dos sistemas e regimes políticos. Veja a análise de Bruno sobre as campanhas de 2018:

Como foi os trabalhos na eleição? 
Eu não trabalhei profissionalmente em eleições, tiro meu sustento 100% da cadeira docente. Quando a gente participa da mídia local ou externa é como fonte, porque a gente quer contribuir e fazer análise para muita gente. É fácil falar entre convertidos e especialistas, eu concebo que o papel de quem estudante é a difusão em debate público. Embora tenha participado de algumas coberturas aqui no Estado eu participei da Guaíba, Rádio Pampa, RBS TV, Dois momentos, fui fonte de matéria para a Zero Hora, isso nas eleições. Para agência rádio/web, fiz entradas ao vivo — aí faço com alguma frequência — nas TV’s de língua espanhola do Irã e da Rússia.

De qual forma a política desenvolve a economia do Rio Grande do Sul? O que seria possível para ter uma boa economia através dos nossos representantes?

São temas complementares, mas também são razoavelmente separados. Vou dar um exemplo: Essa mesa e cadeira, essa cadeira tem um trabalho abstrato a mesa também, que é um design. Eu não sei se esse design é uma versão nacional — acho até que é — […]

Tudo que a gente está usando materialmente, ela deriva de uma capacidade instalada, tem siderurgia, metalurgia, petroquímica, instalações de pólos moveleiro. Até onde eu sei, o RS tem tudo isso. A capacidade econômica do RS está muito abalada por um problema arrecadatório, problema fiscal muito sério e uma distribuição impositiva. A união ela centraliza uma carga importante dos tributos e não repassa de maneira proporcional. Tem essa dívida com a união e que se não se repactuar vai tornar um gargalo no RS, vai ter margem fiscal nulo. É impossível pensar em qualquer forma econômica sem tá coordenado por um poder político, no minimo complementar, não tem capitalismo sem Estado, impossível, um delírio […] Agora, fazer a roda da economia girar, é um desafio muito complexo. Porque muitas vezes sequer tem a capacidade instalada, no RS tem, a gente tem um problema sério de perda de capital, de industria, desgauchização de oligopólios locais. O mínimo do mínimo é melhorar o que tem de razoável para bom e de bom pra ótimo, que são possibilidades de desenvolvimentos regionalizados. O que eu entendo que vai acontecer, pode até ser o oposto mas, é uma espécie de analogia, uma economia digitalizada. Mas não sei se vai ter gado na fazenda do Rio Grande para ajudar a segurar os capitais já instalados no RS.

Porque o Estado hoje não engrena? Se de 4 em 4 anos a gente troca governador. Tem 50 mil fatores cruzados, não há um principal. Não há relação sem causa, não há um pensamento científico sem causalidade, no mínimo uma causa com a outra. Mas também monocausalidade é no mínimo um equivoco analitico. Não existe causa única. Mas posso afirmar que ajudaria os estados brasileiros como um todo, a melhorarem o seu desempenho se houvesse um acordo nacional para acabar com a guerra fiscal, seria um grande passo. Onde a redução tributária e a dádiva para as empresas se instalarem é tanto num Estado quanto no outro, conforme a condição de caixa dos Estados. Esse seria o primeiro, então o grande arranjo nacional, é de base e reforma tributária, redistribuição tributária e diminuindo a guerra fiscal. Aí dá pra dar um fôlego nos governos estaduais, já para começar.

Como você classifica as campanhas de Sartori e Leite?

Foi um desafio para as equipes de campanha, porque como eles tinham programas muito parecidos e foram co-governo, eles coordenaram juntos. A chance que a campanha vai ter é de diferenciar os líderes e não os programas, então o projeto ele fica muito ligado a imagem. No segundo turno, para diferenciar Eduardo Leite e Ivo Sartori, passou um pouco do que é um limite estabelecido no RS para campanha. Ele nacionalizou o estilo de campanha sendo pró Bolsonaro, entendo que eles passaram um pouco da conta, não posso afirmar de maneira criminalizada mas houve um emprego de desinformação. Por exemplo: “O Prefeito Eduardo Leite é a favor de descriminalizar a maconha porque ele fez uma fala relativizando o problema de saúde pública e de aumento do aprisionamento em função de micro tráficos” é algo que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC) falava também. Então, para um fiapo de verdade, você acaba afirmando um contra-senso.

Qual o balanço? Positivo ou negativo? O que aponta que faria diferente nas campanhas?

Eles foram muito semelhantes, os dois trabalharam muito a imagem do líder. Como consultor político, eu não acredito nesse tipo de concorrência. Não acredito em governo sem programa, não acredito que posso escolher de forma superior sem entender o que está acontecendo, sem entender o que está escolhendo. Posso afirmar que se eu fosse consultor de campanha, eu não propagaria fake news, eu tenho certeza disso. Eu pediria demissão ou pra ser demitido assim que acontecesse, mas posso afirmar que isso eu jamais faria.

O MDB pode voltar a trabalhar com PSDB aqui no Estado?

Pode demorar um pouco, porque a política é feita de afeto, emoções, relações pessoais, personalidades, mas acho muito difícil ter um governo no RS onde as oligarquias centro e direita não cheguem em um denominador comum. Mas aí o MDB vai ser o PSDB do Governo Leite, ou seja, vai ter uma política que pode ser recalcitrante, vai não vai, e aí quando não se está em um momento(?) político próprio pode se afastar.

De qual forma a política desenvolve a economia do Rio Grande do Sul? Por exemplo a promessa de pagar o salário em dia dos servidores.

Eu acho que dá, se não fizerem uma sabotagem de redução de ICMS antes do prazo, o governo leite consegue alocar os salários do correr de um ano conforme prometido. Se ele conseguir fazer isso, uma parte importante da categoria dos servidores que não é tão politizada, nem tão radicalizada. Pessoas mais de centro, vão se sentir no mínimo confortadas, porque passaram quatro anos com um governador que disse que os servidores públicos são responsáveis pela falência do estado. Não disse, mas disse, na prática. Ele conseguiria um apoio muito grande na economia nas cidades de polos e médio do interior que impactam no salário em dia do servidor público ele é brutal no RS. Em todo país ele é brutal mas no rio grande ele é muito importante, nas cidades médias e cidades polos no interior do estado. Leite tem um eleitorado muito bom, possivelmente com o governo que eu não vá concordar com muita coisa, porque ele vem sendo assistido por uma forma indireta ou por assistência política ou por consultoria com um passado importante no stafe do governo da (ex-governadora) Yeda (Crusius). Então, a tendência é que eu me posicionar muito ao contrário ao Eduardo Leite. Falando pode parecer que eu sou simpático ao governo dele, mas não sou. Como analista acredito que seja um bom produto a ser explorado.

O que foi bem explorado nas campanha dele (Leite)?

Foi os contrapontos. A experiência de Satori há juventude de Leite. O ex-prefeito de pelotas e tipificaram o José Ivo Sartori autêntico colono, tradicional político gaúcho. […] Acredito que a grande capacidade foi não reproduzir as práticas do adversário no segundo turno. Ou seja, se formos comparar as campanhas com a de Porto Alegre, a campanha de Eduardo Leite, foi mais ponderada assim como a de Sebastião Melo e a de Satori mais agressiva, como a de Nelson Marchezan Junior para a prefeitura. O mérito de produto eleitoral foi se descolar de Marchezan Junior e para isso tinha que se afirmar seu período como prefeito de Pelotas e lançou sua sucessora. Entendo que ele foi muito tímido, para não dizer outra coisa, na sua associação com a imagem de Bolsonaro. Não foi um equívoco, pois tinha o objetivo de ganhar as eleições, mas pode ter sido um tiro no pé, pois isso pode ser cobrado mais a frente. Considerando que ele se diz um candidato mais moderno, liberal de costumes, tolerante, uma agenda próxima do neoliberalismo dentro da minha politica, mas uma agenda muito liberal democrática no comportamento e nos direitos coletivos.

Qual a definição para poder se descolar de Marchezan, que é do mesmo partido?

No RS ainda não tem, mas no Brasil tem uma política que está chegando que é aposta em pessoas e não em projetos. Apostar em candidatos e não em partidos. A associação entre a candidatura de Marchezan Junior e Eduardo Leite ele é factível quando vamos cruzar os programas. A gestão de Marchezan na prefeitura é muito parecida com de Sartori no Estado. Afinal a maré a debates sobre as taxas sem alternativas, não tem o que fazer, uma relação muito dura com o funcionalismo, uma tentativa real de tentar que o sindicalismo seja um público de sindicalismo de categoria, mas o sindicato não representa partidos políticos. Qual é o descolamento, o gesto que teve o Eduardo Leite foi conversar com CPERS, levou uma vaia, que é para levar mesmo, pois são campos opostos, esperado que se leve, mas segurou a vaia e usou como trunfo, “fui falar com aqueles que não concordam com o meu projeto”. Essa é uma tentativa de se afastar do prefeito em exercício que tem uma quebra de braços com uma linha de categoria dos servidores municipais.

Como você avalia a transição dos governos do país e do Estado?

Até onde estou informado, está sendo razoavelmente acordado. Só que, ao mesmo tempo, tem pauta bomba na assembleia. Pode fazer a transição tranquila de um lado e o problema estoura do outro. Usando como válida a transição entre o governo Brito e Olívio é outro universo. Uma vez que Brito deixa o governo e Olívio assume a acusação entre os dois era muito dura. Parecia um jogo de gato e rato. Até onde eu sei tem um certo grau de comprimento, mas a relação na assembleia está muito chata.

Sobre alinhamento e apoio de Leite ao Bolsonaro, é uma positivo para o Estado?
Bom, o Eduardo Leite declarou apoio crítico, já que não apoio o projeto do PT, declarou o apoio ao governo Bolsonaro. Ainda não podemos sabemos qual o alinhamento do governo do Jair Bolsonoro com os estados. Enquanto não repactua essa dívida com o Rio Grande do Sul, não criar um novo macro da relação da união dos estados. O que pode discutir seria o fundo das segurança dos estados, isso pode sair.

O que ocorreu em campanha pode não refletir no governo. Quem poderia pagar um preço em relação com Bolsonaro, seria Jose Ivo Sartori, pois criaram teve muita associação com a imagem do presidente eleito.

O Bolsonaro queria ser presidente? Pois está a mais de vinte e cinco anos como deputado ou esse projeto acabou amadurecendo nos últimos quatro anos?

Não posso responder uma resposta especulativa como essa. O que está regulamentado foi a tentativa a uma vaga pelo partido Progressista em 2014 não obteve a vaga por convenção. Uma parcela do partido, que não foi tão pequena, ficou a favor de marcar um projeto, um deles inclusive foi o deputado, Luiz Carlos Heinze, ele se coloca em campanha em quatro anos. Construindo uma reputação nacional e construindo sua infraestrutura de rede com um trabalho permanente nas redes sociais que se chama da guerra cultural. Declaradamente ele diz que está peregrinando pelo país durante últimos quatro anos e se preparando durante esses quatro anos […] Ele não é candidato por acaso é um projeto pensado nos últimos quatro anos.

O nome de Sergio Moro foi uma boa escolha para ser o novo ministro da Justiça?

Como trunfo político do presidente eleito foi um golaço! Para aumentar a polarização do campo jurídico foi um terremoto. Tu aumenta a polarização do campo político com a presença do juiz Sergio Moro, mas no meu entendimento ele deveria entrar em um período de quarentena. […]

Você viu coincidências entre as estratégias de Trump e Bolsonaro?

Vi bastante. A construção do emprego da rede social como primeiro público, a capacidade da própria rede social, um circuito não paralelo, mas bidimensional em último caso. Como as redes sociais de interação cibernéticas o presidente eleito se dá o luxo de não precisar de meet. Ao mesmo tempo, ele emprega um estilo que se assemelha ao Trump.

Ele mesmo fala isso. Quero ser o Trump brasileiro. Espero que em campanha seja parecido e durante o mandato não. Governar pelo Twitter entre outras coisas.

No que você acredita que o Haddad ou o PT erraram?

Já vi análise dizendo que erro foi acerto e acerto foi erro, então, se o objetivo era ganhar as eleições, e ganhar de uma forma, mantendo a coerência de ter na legenda o partido do ex presidente, eu acredito que a campanha foi muito tímida. A campanha demorou para arrancar no segundo turno, aí acho que muito mérito para participação do Guilherme Boulos que intensifica a campanha na rua quando entra como um adicional de campanha. Daí se deu, talvez por uma tentativa essa de, tem sempre essa ideia de não se chegar ao centro da política, fosse possível né, mas, creio eu que a campanha começou como desigual, sabe?!. Primeiro porque o PT insistiu na tese de ex presidente candidato, perdeu um tempo considerável. E depois que houve o atentado em Juiz de Fora, o presidente eleito, ele meio que, de novo, houve atentado, não foi forjado, ele realmente tem um problema seríssimo agora com a colostomia, há um problema clínico concreto, mas isso o levou a não mais fazer campanha de rua e possibilitou que ele se afastasse por definitivo dos debates. Então a ausência de debates foi um problema seríssimo no segundo turno e a demora para o Haddar dar início a campanha também foi um problema sério. Foi no mínimo dois erros né, demorou para dar entrada na campanha, acho que esticaram ao máximo a atenção essa com o ex presidente Lula e demorou para a campanha engrenar, nesse tom mais duro no segundo turno, em defesa da democracia, pelos direitos coletivos, ou seja, dizendo o seguinte, olha, não adianta acabar com a nova república e andar para trás. Tem que acabar com a nova república, esse papo já tá rompido e andar para frente, andar para ampliar os direitos coletivos. Creio eu que demorou para entrar nessa aí, tanto é que na campanha do Haddad e vice presidente Manuela, em grande parte foi feita, apesar da legenda, muita gente foi para a campanha, apesar do candidato ser do PT né. O candidato era mais palatável para vários setores políticos do que a sua legenda de origem.

Nessa campanha, foi muito utilizado o assunto Fake News, como você avalia a inserção e disseminação de informação como falso ou manipuladora?

Então, tudo é uma hipótese né. Hipoteticamente tá, se as evidências que todo mundo percebeu ao longo da campanha, por exemplo da vice Manuela D’Ávila, que ela acompanhou o compartilhamento das fake news sobre a sua pessoa, uma distribuição de 19 mil compartilhamentos em 2 minutos. Uma delas é muito particular, né. Eu produzo de forma amadora e voluntária uma coluna de áudio, de duas a três vezes por semana, mando para um monte de rádio comunitária e compartilho com alguns contatos. Quando eu chego a vinte contatos o WhatsApp trava, aí manda eu fazer de novo. Então, para distribuir 19 mil pontos do mesmo conteúdo em dois minutos, só os bots, só servidores profissionais para fazerem isso. Eu acredito que conforme constava no site da campanha foram 35 fake news identificadas no mundo, ao que beirava as cartologia, beirava a pedofilia, coisas surreais, para não falar coisa pior né. Foi um filme de terror, com motivação fantasia religiosa, algo absurdo. Ou houve uma distribuição voluntária em escala massiva que eu não acredito ou realmente TSE teria investigado, eu não sei se vai dar tempo, investigar a distribuição de servidores profissionais, que seria financiamento externo da campanha. Assim, sendo financiamento externo ou não, produzido de forma voluntária ou não, o efeito foi nefasto.

Veja entrevista completa:

https://www.youtube.com/watch?v=oZ6Ysn63EBQ

Memorial descritivo/Making off:

Estava em busca de um entrevistado e de uma pauta para a cadeira de Política e Economia, enquanto debatia com dois amigos que também são graduandos em jornalismo. Até que um deles me contou sobre possível fonte. Onde o mesmo disse que ele era acessível tanto para entrevistas ou para fonte de matérias com cunho político. Contatei, o professor Bruno de Lima, através do e-mail e pelo seu perfil no Facebook, onde consegui marcar a entrevista.

Chegando no local marcado, o entrevistado foi bem receptivo e sempre se mostrou disposto a contribuir e debater sobre o tema da pauta. Na entrevista fiz uma série de perguntas, de nível estadual, nacional e questões de técnicas para análises tanto de campanha como estratégias e entender o vasto o universo da política.