O jornalismo na Expointer e a necessidade de se reinventar diariamente

Luka Pumes
Sep 4, 2018 · 5 min read

Por: Angelo Pieretti, Lorenzo Albella e Luka Pumes

Palestras e entrevistas sobre agronegócio internacional foram pautas importantes na Expointer 2018. Foto: Lorenzo Albella.

Cauda longa, cores vibrantes e um ritual de acasalamento no mínimo curioso: o pavão é facilmente associado às extravagâncias humanas, bem como um sinônimo de egocentrismo. No jornalismo, segundo o mestre em Comunicação e doutor em Linguística e Filologia, Nilson Lage, os pavões são aqueles que protegem sua obra-prima (sempre a última matéria que escreveu) com todas as suas forças, além de sentir uma dor extrema quando lhe corrigem uma vírgula. Para Lage, esse grupo se contrapõe ao de jornalistas experientes, que entendem as limitações humanas e suas fragilidades.

Mas como, por exemplo, não se doer ao perceber que algum conhecimento adquirido já não é mais útil? A necessidade de se reinventar dentro do jornalismo pode ser caótica até para os profissionais mais discretos. Filtrar o que se aprende no dia anterior para saber se será ou não útil no próximo, é uma reflexão diária de uma profissão na qual o dinamismo é uma diretriz. Percebendo isto, fomos entender como a imprensa lida com esta necessidade na maior feira agropecuária da América Latina: a Expointer.

A Rede Pampa, por exemplo, no evento, contou com cerca de 60 profissionais para que conteúdos de impresso, rádio e televisão fossem ao ar. Programas foram transmitidos ao vivo do estúdio panorâmico montado no parque de exposições, bem como entrevistas foram feitas durante toda a semana. O engajamento chegou ao nível de na televisão, o programa “Expointer é Pampa” ser ao vivo e ter uma duração de duas horas, divididas em dois blocos.

“A TV Pampa disponibiliza uma equipe de produção, uma pela manhã e outra a tarde. O cinegrafista Leonardo Aguiar e eu, fazemos sempre pela manhã, e as fontes ficam toda pré agendadas um dia antes pela equipe da tarde. Mas nós temos liberdade de ver alguns aglomerados de gente, e buscamos histórias. O caminho natural é a produção nos passar a pauta, mas às vezes o caminho é inverso, a Expointer não tem pautas fixas sempre, nós temos liberdade de chegar e conversar com a produção e podem entrar nos jornais ou até mesmo em formato de drops” — Marcos Carvalho, repórter da TV Pampa

Marcelo Beledeli, editor de Economia do Jornal do Comércio, cita a importância de estar atento aos outros veículos, visto que as pautas são variadas, mas limitadas na feira: “tem que cobrir maquinário, tem que cobrir pecuária, eventos oficiais do Governo do Estado, mas também tem que estar acompanhando o que o concorrente faz a toda instante. Os temas vão se repetir, isso é inevitável, até porque as fontes acabam sendo as mesmas. Nessa hora a gente deve manter o feeling para que o conteúdo seja diferenciado. A percepção da equipe de enxergar de um ângulo diferente é a chave”.

A visão de quem já trabalha com agronegócio fora da feira

Segundo o Diretor do AgroBand e coordenador do Canal Terra Viva, Rafael Santos, a Expointer é a Copa do Mundo de quem trabalha com agronegócio. “É onde todo mundo se encontra, é onde tudo acontece. Temos uma equipe que busca sempre algo interessante e que prenda a atenção do telespectador. Novidades são buscadas para que possamos alimentar os conteúdos em diferentes formatos, desde drops até as reportagens maiores”

“Algumas pautas factuais sempre são pré-definidas, como a abertura e primeiros animais a chegar na feira, temos demandas comerciais de patrocinadores e também o banho de leite que é tradicional. Mas os repórteres têm muita liberdade para sair e andar pelo parque para observar possíveis notícias”, completou Rafael, sobre as pautas do Canal Terra Viva e Band Tv.

A agenda das autoridades relacionadas ao agronegócio é tida como uma das principais dificuldades do trabalho jornalístico na feira. Rafael cita que sem a colaboração das assessorias de imprensa, não haveria como conseguir brechas nas agendas dos nomes de relevância, mas garante: “São todos muito bem assessorados”.

A repórter e jornalista do Canal Rural Bruna Essig, citou as diferenças da cobertura e interesses do Canal Rural em comparação às outras emissoras: Nós seguimos muito a linha editorial do nosso canal, tem muitas pautas que não interessam tanto a outras emissoras, mas me interessa por nós trabalharmos com o agronegócio, as pautas são mandadas para gente pelos produtores e a gente também tem liberdade de sugerir outros assuntos, sempre tendo um alinhamento com nosso editorial” , Bruna ainda relatou que o repórter deve sentir o clima da feira — o repórter é o olho do público — algo que chame a atenção do público, não só o público do agronegócio mas também o telespectador urbano.

Sob a ótica da câmera

“Para cobrirmos uma feira, somos pautados pela produção, cada dia é um tema específico. No início da feira, teremos que cobrir tudo sobre a abertura. Já nos outros dias teremos que produzir, podemos procurar matérias sobre tecnologias e implementações tecnológicas na sua área, novidades de máquinas agrícolas. Temos que observar o que o produtor e a feira estão pedindo, e a nossa visão é a par, nós temos que procurar a melhor imagem, não adianta fazer imagem de tudo e não usar nada. Mas vale a pena ver a matéria creditada e a notícia certa”, relata Júnior Rocha, 32 anos, cinegrafista do Canal Rural.

O brasiliense Júnior Rocha veio ao Rio Grande do Sul apenas para cobrir a feira. Foto: Lorenzo Albella.

E a assessoria de quem organiza a feira?

Itamar Pelizzaro, que reforça o time da SECOM-RS — que cuida da assessoria do Governo do Estado — explicita a dificuldade de trabalhar com a restrição do período eleitoral. A SECOM tem a função de encontrar, muitas vezes, as tais brechas nas agendas das autoridades, mas neste ano, o foco se torna mais em alimentar o site da Expointer (justamente em virtude do período eleitoral e suas restrições de conteúdo de assessoria). O relacionamento com a imprensa se torna mais delicado em anos como este, mas a chave é manter a estabilidade e aceitar as sugestões de pautas de outras assessorias sempre que possível.

O Governo do Estado do Rio Grande do Sul também necessita de uma cobertura especial para o evento. Foto: Lorenzo Albella.

A necessidade de se reinventar é cotidiana. Não só para o jornalismo, mas principalmente. Em casos como a Expointer, trabalhar na área pode ser tão gratificante quanto desgastante, mas os profissionais mostraram imensa satisfação em cobrir o evento, que já atinge relevância internacional. Para pavões e discretos, fica a dica: a experiência e a gratificação de um trabalho bem feito, supera tudo.

Política e Economia

Revista eletrônica dos alunos da disciplina Gestão da Informação: Política e Economia do Centro Universitário Ritter dos Reis - Campus Fapa - Porto Alegre (RS).

Luka Pumes

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