Homens gays não podem doar sangue. Mas será que você deveria poder?

É lei, mais precisamente uma portaria do Ministério da Saúde que, no artigo 64, diz “considerar-se-á inapto temporário por 12 (doze) meses o candidato que tenha sido exposto a qualquer uma das situações abaixo: IV — homens que tiveram relações sexuais com outros homens e/ou as parceiras sexuais destes”.

Ok, essa é a mesma medida adotada nos Estados Unidos, Reino Unido, a Austrália e a Nova Zelândia, mas será que ela faz sentido ou é apenas discriminatória?

Mulheres que se relacionam com homens que se relacionam com homens não podem, segundo essa portaria, doar sangue. Mas alguma mulher já foi perguntada se seu marido, por exemplo, faz sexo com outros homens? Essa pergunta é tão surreal que fica quase impossível imaginar alguém dizendo em voz alta.

Leis não podem ser criadas sem que a sociedade em que estão inseridas seja levada em conta. A nossa é homofóbica, não tem dados no censo populacional, por exemplo, do número de pessoas gays, lésbicas, bissexuais ou transgêneros. O único entendimento possível é o famoso “don’t ask, don’t tell”, que pode ter a intenção traduzida para se você não tem cara ou jeito de viado aceitamos seu sangue.

Brasil, um país homofóbico
Nos últimos tempos li diversas matérias sobre homens hétero que faziam sexo com outros homens hétero e, por isso, não se consideravam gays — no El País, no UOL, na Época e na Galileu, por exemplo. Óbvio que a definição de homossexual diz outra coisa, mas essa é apenas uma faceta do preconceito que fazemos de conta que não existe.

“O que eu discuto é que homens que se identificam como heterossexuais frequentemente criam situações nas quais é aceitável, para eles, ter contato sexual com o corpo de outros homens. E que esses contatos entre homens — que acontecem no ambiente universitário, ou no exército, ou em equipes esportivas, por exemplo — frequentemente são vistos pelos participantes como algo não sexual. Na maioria das vezes, eles são identificados como uma piada, um ato de iniciação ou algo que estimula a conexão entre os membros do grupo. Um ato de irmandade. Ou como uma coerção, como algo repulsivo. Eles criam uma narrativa que determina quando é adequado tocar o corpo de outro homem. É aceitável que as mulheres sejam curiosas, que elas queiram experimentar, e as pessoas não veem problemas nisso. As histórias que os homens contam, por outro lado, vêm acompanhadas por precauções que beiram a homofobia”
Jane Ward, professora da Universidade da Califórnia e autora do livro “Not Gay — sex between straight white men” (em tradução livre: Não é gay — sexo entre homens brancos heterossexuais)

As nomenclaturas são ignoradas. Os contextos também. Então um homem como esse, por exemplo, não é gay e pode doar sangue. Se formos pensar, então, na homofobia que existe no Brasil, fica ainda mais difícil saber quem estaria ou não apto a doar.

E se esses homens hétero flexíveis forem casados com mulheres, mesmo em um regime monogâmico, e não contarem sobre suas “escapadas”? Então essas mulheres seriam parte das “populações-chave” para diminuir a contaminação. Mas isso não pode ser provado ou acompanhado, mesmo por elas.

A portaria então contaria com a presunção da fidelidade e diálogo aberto entre casais héteros. Ou seriam confiáveis apenas relacionamentos monogâmicos heterossexuais?

O mito do grupo de risco
Hoje não se fala mais de grupo de risco. Pega mal. Mas se fala de “populações-chave”. Obviamente a mesma coisa com um nome menos agressivo. De acordo com o Ministério da Saúde, homens que fazem sexo com outros homens (HSH) estão no topo desse grupo — apesar de ser impossível detectar quem são esses homens, como vimos acima.

O Boletim Epidemiológico HIV AIDS Ano IV — nº 01, o mais recente levantamento publicado pelo Ministério sobre o tema, oferece dados sobre contaminação:

Em 2015 foram 6.506 homens e 2.907 mulheres. Desses homens, 2.589 são gays; 499 são bissexuais; e 2.037 são heterossexuais.

Os números não são tão diferentes, gritantes ou chocantes, são? A leitura de dados é feita por pessoas. Pessoas carregam ideias. Preferimos ignorar que o inconsciente ou o viés inconsciente trabalhem com um papel tão importante quanto a razão, mas será que a leitura de dados não carrega todas as questões sociais consigo?

Contaminação vertical
Como não temos dados da população LGBT no censo brasileiro, não podemos dizer a porcentagem de pessoas infectadas, mas podemos notar que houve um crescimento na contaminação vertical, que é quando a mãe passa o vírus HIV para o bebê durante a gravidez, parto ou por meio da amamentação.

Em 2015 foram 3.713 casos. Em 2000 foram 1.881. Com pico de 7.668 em 2014.

Esses dados não são cruzados com a maneira que a mulher foi infectada ou se isso aconteceu durante uma relação monogâmica heterossexual, porém também não há dados do Ministério da Saúde sobre transmissão de HIV entre mulheres por vias sexuais — e alguns estudiosos dizem que essa contaminação não seria possível.

Portanto, se essas mulheres não foram contaminadas por outras vias, elas fizeram sexo com homens contaminados. Seriam todos esses homens as exceções heterossexuais que agravam o contágio do HIV? Ou teriam eles relações com outros homens? Ou a ideia de que homens gays são os culpados pelo contágio e tidos como “população-chave” é apenas discriminatória?

Poderíamos ficar aqui séculos criando possibilidades, mas como não há estudos sobre elas, não vale o tempo perdido. O fato é que 2.907 mulheres foram contaminadas em 2015 durantes relações sexuais heterossexuais — lembrando que 2.037 heterossexuais também foram contaminados. Faz sentido não permitir que homens gays doem sangue enquanto homens héteros estejam colocando mulheres e suas doações em risco?

Sangue derramado
Foi feita uma pesquisa na plataforma crowdsourcing PiniOn com 3.520 pessoas de todo o país e 52% deles não sabiam que, atualmente, no Brasil, homens que mantêm relações sexuais com outros homens são considerados inaptos à doação de sangue.

Para 86% dos entrevistados isso não faz sentido, já que amostras do sangue doado são testadas antes das transfusões.

Pensando na quantidade de sangue que poderia estar salvando vidas, a campanha Wasted Blood criou uma fila virtual para que homossexuais possam se colocar a disposição para doar quando a lei for revista. A quantidade de sangue potencialmente desperdiçada é desesperadora.

Contra a infecção
Se você, independente da sua orientação sexual, fez sexo sem camisinha e está preocupado a recomendação é aguardar 30 dias para fazer o exame, já que esse é o tempo que o sistema imune leva para criar anticorpos contra o HIV.

Se você foi vítima de violência sexual ou acredita que as chances de estar infectado são altas, procure o serviço de saúde em até 72 horas para que o coquetel retroviral seja aplicado.

Em linhas gerais

Ok, depois dessa enxurrada de informação, qual a conclusão?

1 — Não existe MESMO grupo de risco ou “população-chave”. Todos nós estamos no mesmo barco.
2 — O homem hétero, enquanto grupo social, adora encontrar desculpas para fingir que não é parte do problema. Ele é.
3 — O preconceito fala mais alto do que dados, números e lógica. Cuidado.

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