Por que as pessoas, na internet, se incomodam tanto que meu filho use vestidos?

Chico é um menino que gosta de vestidos. Sempre foi. Desde que conseguiu dizer o que gostaria de vestir. Não, ele não usa vestido o tempo inteiro, afinal ninguém faz isso. Você não pratica esportes, sobe em árvores ou nada de vestido. A diferença entre Chico e outras crianças é que ele não acha que o guarda-roupa precise ser comprado inteiramente em um dos lados das lojas de departamento.

Ele, como uma criança de 6 anos, frequenta a escola. Ele tem amigos. Ele se diverte. Ele usa roupas confortáveis e que permitam que ele descubra o mundo ao seu redor. Nas festas ele usa vestidos. E as crianças reagem como se espera: elas aceitam. Falei sobre isso na época da festa junina, você pode ler aqui.

As crianças, inclusive, educam os adultos. Explicam que é só um vestido, que roupa é só roupa e que cada pessoa pode ser quem ela é. Os adultos é que são o problema, são eles que têm tanto medo do desconhecido que se trancam em quartos escuros e esperam que nada ilumine aquele cantinho.

No mundo offline Chico usa vestidos e ninguém é horrível com ele nem comigo. Talvez porque as pessoas achem que ele é uma menina. Talvez porque elas não tenham coragem de falar o que realmente pensam na minha cara de poucos amigos. Talvez porque Chico já tenha essa mesma cara e boas respostas na ponta da língua.

Mas na internet as coisas são diferentes. No mundo online todo mundo é forte, corajoso e cheio de opinião. É ali, e alimentado por likes, que as pessoas destilam ódio sobre qualquer coisa que seja diferente do padrão de “certo” deles. Certo e errado são tão relativos que mudam com o tempo, mudam de acordo com as transformações da sociedade. O certo e errado se transformam conforme a gente evolui, mas evoluir dói, dá medo e cansa. A internet permite que essas pessoas fujam o máximo possível dessa dor se fechando em grupos de gente medrosa.

Ontem fomos a festa de inauguração da Casa 1, um centro de acolhimento para pessoas expulsas de casa ou violentadas por serem LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais ou Transexuais/Travestis). Antes de sair de casa contei pro Chico um pouquinho sobre o lugar que está sendo organizado por um dos meus amigos que ganhou espaço de família. Chico quis ir, entendeu a importância daquilo porque sabe que nem todas as crianças podem ser quem são de verdade, mas ele pode. Ele, aos 6 anos, consegue enxergar como o mundo pode ser horrível, ele apenas escolheu não se render a isso. E o que aconteceu com a foto dele, horas depois, só mostra como iniciativas como a Casa 1 e a Casa Neem, que ainda precisa conseguir o financiamento para se manter aberta, são necessárias.

Durante o evento Chico foi super acolhido por todo mundo. Recebeu sorrisos, abraços, elogios. Conversou com um monte de gente e se divertiu. Ali, entre pessoas que fazem parte de grupos minorizados, Chico é um respiro.

Chegando em casa postei uma foto dele com o vestido que escolheu para ir ao evento. A foto, como todos os meus posts, é pública, mas só podiam comentar amigos de amigos (o que tive de mudar para apenas amigos). Acordei com comentários horríveis e compartilhamentos violentos. Fechei os comentários, respondi os que achava importante e vim escrever esse texto.

Esse foi o post que trouxe os comentários horríveis. Dizem que essa pessoa foi expulsa do grupo. É muita falta de amor…

Por que eu deixei a foto pública?
Porque essa é a minha maneira de ajudar outras famílias que não sabem muito bem como lidar com filhos que fogem aos papéis de gênero. Papel de gênero são as atitudes esperadas de homens e mulheres, que nos prendem em lugares que muitas vezes não queremos estar.

Não foi fácil lidar com o primeiro pedido de vestido ou de boneca. Não foi porque a gente ficou morrendo de medo do mundo, de como as pessoas iam lidar com aquilo, de como tudo ia cair sobre o Chico. Mas aí pensamos em algo muito simples: a gente prefere mudar nosso filho ou o mundo? A única resposta possível aí é mudar o mundo. Nosso filho não fez nada de errado e vamos defendê-lo de todas as maneiras necessárias.

Por que eu deixo meu filho usar vestido?
Porque crio meus filhos para que eles sejam por fora quem são por dentro. Meu filho mais velho teve fases em que só usava camisa de futebol e chuteira, mesmo para ir ao shopping, e eu deixei. Porque não deixaria o mais novo usar o que quer? Só porque não faz parte do papel que querem que ele interprete? Veja, a masculinidade ou a heterossexualidade também são papeis representados, também são performances de algo. Não há diferença aí.

Já falei disso e de outros temas relacionados a maternidade em vídeo, pra quem tiver preguiça de ler:

Se você não sabe/entende a diferença entre sexo, orientação sexual e identidade de gênero, leia esse texto.

Seu filho é uma criança trans? Ele é gay?
Como disse no começo do texto, Chico é um menino que gosta de usar vestidos. Ele tem 6 anos e por mais que a gente acredite que ele já entende muitas coisas sobre si mesmo não entramos na conversa sobre identidade ou orientação. Por enquanto ele é um menino que usa vestido.

Se ele escolher não usar mais quando crescer, lindo.
Se ele nos disser que é trans, lindo.
Se ele nos disser que é gay, lindo.
Se ele nos disser que é hetero, lindo.
Se ele nos disser que é bi, lindo.
Se ele nos disser que é preconceituoso como as pessoas que comentaram coisas horríveis na foto dele… bem, aí vamos ter certeza de que falhamos.

Os comentários e compartilhamentos
O que me fez escrever esse texto foram as mensagens cheias de ódio que recebi, então nada mais justo do que compartilhar aqui — e eternizar — esses comentários.

Olha que coisa louca: eu postei uma foto do meu filho no meu perfil com a legenda falando sobre look do dia, uma pessoa (uma mulher, vamos deixar claro) compartilhou um print da foto no grupo da Gina Indelicada criticando a roupa, as pessoas vieram até o meu perfil agredir a mim e a minha família e sabe quem está criando polêmica? Eu. Gente, simplesmente não faz sentido.

No Brasil existe uma legislação específica que protege crianças e adolescentes. É o ECA — Estatuto da Criança e do Adolescente. Um resuminho do que ele prevê, vindo do site Âmbito Jurídico:

“(…) nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, por qualquer pessoa que seja, devendo ser punido qualquer ação ou omissão que atente aos seus direitos fundamentais. Ainda, no seu artigo 7º, disciplina que a criança e o adolescente têm direito à proteção à vida e à saúde, mediante a efetivação de políticas sociais públicas que permitam o nascimento e o desenvolvimento sadio e harmonioso, em condições dignas de existência”

Ao expor uma criança com comentários como esse acima e os que virão abaixo é que se está indo contra a lei. Chico não sofre nenhum tipo de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade ou opressão em casa. Sofreria se eu não permitisse que ele usasse as roupas que quer.

Se eu vestisse meu filho com a roupa do time de futebol que eu torço, seria um problema ou ele, aos 6 anos, já teria como escolher o time que torce? Ninguém questiona isso, certo? Então por que um vestido causa tanto alvoroço? A gente não tá falando aqui sobre orientação sexual ou identidade de gênero, estamos falando de roupas. Nada além disso.

Não sei o que me incomoda mais: se é toda a besteira do comentário ou o indivíduo dizer que crianças são “pessoas fracas de alma”. Crianças são verdadeiras com elas mesmas, não existe nada mais forte do que isso.

Construção forçada seria eu obrigar meu filho a seguir regras impostas por pessoas que não o conhecem. Meu filho é livre e isso é assustador para quem não entende que pessoas diferentes têm escolhas diferentes.

Hall da vergonha
Aqui vou deixar os comentários e compartilhamentos absurdos que não tenho tempo/paciência pra responder. Mas é bom que as pessoas fiquem marcadas pelo que elas realmente são: preconceituosas.


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